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EUA não quer guerra e sim dissuadir Irã

21/05/2019 21h11

Washington, 22 Mai 2019 (AFP) - A administração do presidente Donald Trump não deseja uma guerra com o Irã e sim dissuadir Teerã, revelou nesta terça-feira o Pentágono após uma audiência no Congresso em Washington.

"Trata-se de dissuadir, e não de entrar em guerra. Não estamos tratando de entrar em guerra", disse o secretário interino da Defensa, Patrick Shanahan, após uma sessão no Congresso que teve a participação do secretário de Estado, Mike Pompeo.

Shanahan afirmou que os sólidos movimentos dos Estados Unidos nas últimas semanas, incluindo o envio de um porta-aviões à região do Golfo Pérsico, frustraram as ameaças iranianas na região.

"Conseguimos dissuadir os ataques com o nosso reposicionamento de forças. Dissuadimos os ataques contra as forças americanas", declarou Shanahan.

"Nosso maior objetivo neste momento é prevenir um erro de cálculo iraniano. Não queremos que a situação vire uma escalada".

Pompeo disse que as ações iranianas fazem parte de um contexto de "40 anos de atividade terrorista", desde que a revolução islâmica de 1979 substituiu o Xá por um regime clerical antiamericano.

As declarações de Shanahan parecem reduzir o tom da retórica após semanas de duras advertências contra o Irã.

Mais cedo, o governo afirmou ser "bastante provável" que o Irã esteja por trás de vários incidentes de sabotagem contra quatro navios petroleiros no Golfo Pérsico.

Pompeo destacou que não se chegou a uma "conclusão definitiva" que possa ser difundida sobre as sabotagens misteriosas de navios petroleiros na costa dos Emirados Árabes Unidos e o ataque com um drone contra um oleoduto na Arábia Saudita.

"Mas considerados todos os conflitos que vimos na última década e o alcance dos ataques, parece bastante provável que o Irã esteja por trás" deles, disse Pompeo em entrevista por rádio ao apresentador conservador Hugh Hewitt, antes de uma audiência a portas fechadas no Congresso.

Para Pompeo, "o mais importante" é que os Estados Unidos vão continuar tomando ações para proteger seus interesses e que sejam dissuasivas para frear o "mau comportamento do Irã na região".

A Arábia Saudita, um aliado próximo dos Estados Unidos, acusou o Irã de ter ordenado um ataque com um drone contra um oleoduto, reivindicado na semana passada pelos rebeldes huthis no Iêmen, apoiados por Teerã.

- Pausa nas ameaças -O assessor de segurança da Casa Branca, John Bolton, advertiu no começo do mês para uma resposta "implacável" se o Irã atacar interesses americanos, ao anunciar o envio para a região de um porta-aviões, ao qual se somou uma frota de bombardeiros.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohamad Javad Zarif, alertou que com sua atividade militar, "os Estados Unidos estão jogando um jogo muito, mas muito perigoso", advertindo para "consequências dolorosas" de uma "escalada" contra o Irã.

"O fato de ter todos estes recursos militares em um pequeno espaço navegável [o Golfo] é em si mesmo um fator para que ocorram acidentes, sobretudo para as pessoas que buscam o acidente", acrescentou Zarif em entrevista à CNN, em uma aparente alusão a seus adversários regionais, como a Arábia Saudita.

- Pressão democrata -Estas tensões entre vizinhos ocorrem no âmbito de uma escalada no confronto verbal entre Washington e Teerã, quando se completa um ano da decisão dos Estados Unidos de se retirar do acordo nuclear com o Irã, uma estratégia acompanhada de sanções draconianas contra a República Islâmica.

O governo de Trump adotou uma estratégia de "pressão máxima" para debilitar a influência regional do regime teocrático, inclusive iniciativas para cortar todas as vendas de petróleo iraniano.

Os democratas se dizem determinados a fazer com que a Casa Branca preste contas de suas decisões, depois de que falsas informações de Inteligência levaram à invasão do Iraque em 2003.

As explicações no Congresso nesta terça não agradaram muitos democratas, que afirmam que a atual tensão é resultado da postura agressiva da administração Trump e seu abandono da diplomacia.

"Me preocupa muito que, intencionalmente ou não, possamos criar uma situação em que se produza uma guerra", disse aos jornalistas o senador Bernie Sanders, pré-candidato democrata às eleições presidenciais de 2020.

"Acredito que uma guerra com o Irã seria um desastre absoluto, muito pior que a guerra no Iraque", declarou Sanders, recordando que as guerras do Iraque e Vietnã foram baseadas em mentiras das administrações anteriores.

O senador democrata Tim Kaines disse que uma nova guerra no Oriente Médio seria uma "loucura absoluta", e embora tenha criticado o Irã, disse que suas ações representavam as respostas já previstas às medidas de Trump.

"Acho que o caminho até o nível de tensão atual começou quando o presidente Trump abandonou unilateralmente o acordo diplomático", disse Kaine na segunda-feira.

Trump reacendeu a polêmica no domingo com um tuíte: "Se o Irã quer brigar, este será o fim oficial do Irã".

Mas o presidente americano, que fez ameaças similares contra a Coreia do Norte antes de se reunir com o líder norte-coreano, Kim Jong Un, diminuiu no dia seguinte das ameaças iranianas e pediu diálogo.

Poucos esperam que os líderes iranianos se reúnam com Trump: a doutrina antiamericana é o ponto central da Revolução Islâmica desde 1979. Mas o chanceler iraniano propôs uma troca de prisioneiros, um passo que alguns especialistas veem como uma opção para retomar os diálogos de baixo escalão e reduzir as tensões.

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