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Rei de Sanwi, na Costa do Marfim, invoca espíritos ancestrais contra o coronavírus

 ISSOUF SANOGO / AFP
Imagem: ISSOUF SANOGO / AFP

Em Krindjabo, Côte d'Ivoire

28/04/2020 15h59

"Peça a Deus, as espíritos dos ancestrais, que protejam a população para tirar esse vírus do reino, da Costa do Marfim e do mundo!", disse o rei de Sanwi, no sudeste desse país africano.

Além de respeitar as medidas de proteção, sua majestade Amon N'Douffou V também confia nas práticas tradicionais na luta contra o coronavírus para proteger seu reino de três milhões de habitantes (a maioria na Costa do Marfim, mas também no vizinho, Gana).

Ritualistas vestidos de branco purificam a corte real com uma mistura musical especial, cantando a canção local "abôdan".

Tradicionalmente, nesse tipo de cerimônia especial para lutar contra calamidades (secas, má colheitas, inundações), reúnem-se centenas e às vezes milhares de pessoas.

Rei -  ISSOUF SANOGO / AFP -  ISSOUF SANOGO / AFP
Imagem: ISSOUF SANOGO / AFP

Mas dessa vez apenas poucos convidados assistem ao ritual, seguindo as regras que proíbem aglomerações e impedem que mais de 50 pessoas se reúnam para evitar a propagação do vírus.

Na última semana, a Costa do Marfim contabilizava mais de 1.000 casos de contágio e 14 mortes.

O país conta com centenas de reis e chefes tradicionais, herdeiros de uma organização de antes da era colonial. Essa rede tradicional em todo território funciona em paralelo às estruturas políticas.

Esses reis dispõem de um grande respeito e são respeitados por sua sabedoria ancestral. Os políticos costumam visitar esses líderes locais antes de tomarem, ou anunciarem decisões.

- O visível e o invisível -Rodeado de uma escolta que usa máscaras de proteção, o rei faz sua aparição pública poucos minutos antes da corte real de Krindjabo, um pequeno povoado do reino.

Usando um pareô colorido, uma longa corrente de ouro no pescoço e uma coroa de ouro na cabeça, o soberano explica por meio de um intermediário (o rei não se expressa em público) o significado do ritual.

"Estamos reunidos para afastar a má sorte. Vou invocar as almas dos ancestrais para proteger a população contra o coronavírus, esse espírito maligno que vem nos destruir", declara o rei.

"Vivemos em um mundo sem referências: já não existe o respeito aos mais velhos, às regras, ao meio-ambiente. O ser humano se autodestrói", disse.

Depois que o rei e sua corte deixam o local, um homem, o protetor do povo, esvazia o conteúdo de duas garrafas de álcool no chão.

Rei de Sanwi, na Costa do Marfim, invoca espíritos ancestrais contra o coronavírus -  ISSOUF SANOGO / AFP -  ISSOUF SANOGO / AFP
Imagem: ISSOUF SANOGO / AFP

As pessoas presentes na cerimônia tocam o solo cheio do líquido com as mãos, em seguida levantando-nas ao céu, como sinal de fidelidade ao rei.

"Na África, vivemos no mundo visível e invisível. Só o rei tem esse poder para pedir por meio desse ritual a proteção do mundo invisível", explica Ben Kottia, conselheiro real.

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