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Russos votam a favor de prolongar era Putin

A revisão constitucional facilitará a permanência de Putin no poder até 2034 - Evgenia Novozhenina/Reuters
A revisão constitucional facilitará a permanência de Putin no poder até 2034 Imagem: Evgenia Novozhenina/Reuters

Da AFP, em Moscou

01/07/2020 18h22

Um total de 77,02% dos russos, segundo dados preliminares, aprovaram hoje uma reforma constitucional do presidente Vladimir Putin que, segundo críticos, busca perpetuar seu controle sobre a Rússia, depois de 20 anos no poder.

Os resultados preliminares baseiam-se em dados de 61% dos centros de votação espalhados pelo vasto território russo e foram divulgados pela Comissão Eleitoral Central. O índice de participação foi de cerca de 65%.

O principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny, qualificou hoje como uma "enorme mentira" os resultados da votação dos russos aprovando a revisão constitucional, que facilitará a permanência de Putin no poder até 2034.

Navalny rejeitou em seu blog os resultados da votação, falou em "falsificação" e exortou seus partidários a se mobilizarem para as eleições regionais de setembro. No Twitter, disse que "nada será solucionado sem ir às ruas", mas não convocou manifestações.

Após uma semana de votação, os últimos centros fecharam às 20h locais, no enclave de Kaliningrado. A votação estava marcada para abril, mas foi adiada devido à pandemia de coronavírus. Para evitar excesso de afluência às faculdades eleitorais sem afetar a participação, a consulta foi realizada de 25 de junho a 1 de julho.

O presidente Putin votou em Moscou no final da manhã, sem meios de proteção contra o coronavírus. O resultado é mais do que previsível: as reformas foram aprovadas pelo Legislativo no início do ano e o novo texto da Constituição já está à venda nas livrarias.

Ontem, Putin dirigiu-se aos 110 milhões de eleitores para pedir que garantam a "estabilidade, segurança e prosperidade" de um país que afirma ter se reconstruído após o caos que se seguiu à queda da União Soviética. "A soberania da Rússia depende do nosso senso de responsabilidade", acrescentou.

Putin não fez referência à emenda mais significativa, a que lhe permite permanecer no Kremlin até 2036, quando terá 84 anos. Segundo a lei atual, ele deveria deixar a presidência em 2024, no final do atual mandato.

Em junho, o presidente considerou necessária essa mudança para que o país não se perca "na busca de possíveis sucessores". Outras reformas introduzem princípios conservadores e patrióticos.

Sucesso sob medida

Os detratores do Kremlin, sobretudo o opositor Alexei Navalni, não fizeram campanha devido ao confinamento e porque consideram o referendo fraudulento e seu único objetivo é garantir a Putin "uma presidência vitalícia".

Entre os eleitores de Vladivostok, no Extremo Oriente, consultados pela AFP, a questão dos mandatos presidenciais divide.

Oleg Dubov, um engenheiro de 55 anos, diz que "deve haver uma mudança, mesmo que eu o respeite e aprecie como presidente". Quanto às demais medidas, "quase todas poderiam ter sido incluídas na Legislação sem modificar a Constituição", lamenta.

Valentina Kungourseva, uma aposentada de 79 anos, está feliz: "Para nós aposentados, é importante. Todos os anos nossa aposentadoria aumentará (...). É por isso que eu vim". Quanto a Putin no poder, afirma que "enquanto tivermos um bom presidente, a vida será boa".

A votação ocorre no momento em que a popularidade do presidente russo diminui, após uma reforma previdenciária criticada e a crise do coronavírus. De maio de 2018 a junho de 2020, sua taxa de aprovação caiu de 79% para 60%.

De acordo com as vozes mais críticas, as autoridades usaram truques para garantir o sucesso e a alta participação nesse referendo.

O mais insólito foi a instalação de mesas de votação ao ar livre, em pátios, campos esportivos ou de lazer, sem respeitar o sigilo da votação ou a vigilância adequada das urnas.

O objetivo, de acordo com a oposição, não é proteger o eleitorado do novo coronavírus, mas alcançar um resultado sob medida.

Golos, uma ONG especializada na observação de eleições, denunciou pressões sobre funcionários e de empresas para que seus funcionários votassem. Também documentou casos de eleitores votando várias vezes.

"Quando a Constituição é votada no tronco de uma árvore ou no porta-malas de um carro, não parece sério", reconhece à AFP um mesário no noroeste da Rússia, que pediu anonimato.

Conservadorismo

"Alguns eleitores nos disseram claramente que foram forçados em seu trabalho a vir votar", acrescentou. Sobre este assunto, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, mencionou "problemas isolados", mas disse que "não ameaçava a credibilidade do resultado".

Além da questão dos mandatos, as emendas reforçam algumas prerrogativas presidenciais, como a nomeação e destituição de juízes.

E outras medidas estão incluídas, como a inclusão na Constituição da "fé em Deus" e o casamento como instituição heterossexual.

Também são adicionados princípios sociais, como garantia do salário mínimo e revisão das aposentadorias de acordo com a inflação.

As crianças são incorporadas no texto como "a prioridade mais importante das políticas públicas" e o Estado deve incutir nelas "patriotismo, civilidade e respeito pelos idosos".

Esses princípios são elementos centrais do sistema de valores patrióticos e conservadores do chefe de Estado.

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