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Polícia do Rio matou 160 pessoas em janeiro; número é 82% maior que em dezembro

Policial militar durante operação no Morro do Fallet no Rio de Janeiro (RJ), que terminou com 14 pessoas mortas - BETINHO CASAS NOVAS/ESTADÃO CONTEÚDO
Policial militar durante operação no Morro do Fallet no Rio de Janeiro (RJ), que terminou com 14 pessoas mortas Imagem: BETINHO CASAS NOVAS/ESTADÃO CONTEÚDO

Roberta Jansen

22/02/2019 20h34

Agentes do Estado mataram 160 pessoas em supostos confrontos em janeiro deste ano no Rio, na estreia do governo de Wilson Witzel (PSC), que se elegeu com a promessa de recrudescer a repressão ao crime. É o segundo maior número da série histórica, iniciada em 1998, para o primeiro mês do ano.

Em relação ao mesmo período do ano passado, o aumento foi de apenas três vítimas. Na comparação com dezembro de 2018, no entanto, quando ainda vigorava a intervenção federal no Estado, o crescimento foi de 82%. Os números foram divulgados nesta sexta-feira, 22, pelo Instituto de Segurança Pública (ISP).

Houve uma redução de 18% nos registros de homicídio doloso em relação ao mesmo período do ano passado. O indicador de letalidade violenta (homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção de agente do estado) também caiu, com uma redução de 14% no número de vítimas em relação ao mesmo período do ano passado.

O número de roubos de rua (que abarca roubos a transeuntes e em transporte coletivo) bateu recorde para o mês de janeiro. Foram 11.230 casos registrados, o maior número desde 1991.

Para especialistas ouvidos pelo Estado, os números prenunciam um aumento ainda maior nos indicadores de morte por intervenção de agente do Estado para o mês de fevereiro, em que vários episódios violentos por parte da polícia já foram registrados. O caso de maior destaque foi o de 13 civis mortos durante uma operação policial na comunidade do Fallet-Fogueteiro, na região central do Rio, no último dia 8. A ação ganhou declarações de apoio do governador.

"Não sei se dá para considerar como positivo o fato de alguns índices terem baixado", avalia Eliana Sousa Silva, diretora da ONG Redes da Maré. "Está pouco claro o que esse governo propõe para a área de segurança pública. Na prática, a polícia continua entrando nas comunidades como sempre entrou, vendo todos como inimigos a serem enfrentados."

Witzel foi eleito prometendo "abater" pessoas armadas de fuzis nas comunidades com tiros "na cabecinha". Entre outros episódios violentos já registrados, a Defensoria Pública investiga a denúncia de que pelo menos duas pessoas teriam sido mortas por franco-atiradores da Polícia Civil do Rio, na favela de Manguinhos, na zona norte, em meados de janeiro. Segundo relatos de moradores, os tiros teriam partido de uma torre localizada no principal complexo da Polícia Civil, a Cidade da Polícia, a poucos metros da comunidade.

Na última quinta-feira, moradores da Cidade de Deus, na zona oeste, denunciaram a presença de um "caveirão aéreo", um helicóptero que sobrevoou a comunidade e de onde foram feitos disparos, sem feridos. As denúncias vieram por vídeos divulgados nas redes sociais. "O ano passado foi recordista de mortes decorrentes de intervenção policial", afirmou o ouvidor da Defensoria Pública do Estado, Pedro Strozenberg.

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