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Fundador do cursinho popular da PUC morre de coronavírus antes de receber doutorado

Professor Valdemar Gomes durante aula - Reprodução/Facebook/Escola Municipal Dona Jenny Gomes
Professor Valdemar Gomes durante aula Imagem: Reprodução/Facebook/Escola Municipal Dona Jenny Gomes

Guilherme Amaro

São Paulo

09/04/2020 10h00

O professor Valdemar Gomes vivia a expectativa de receber seu diploma de doutorado em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Era o assunto que ele passou a se empenhar nos últimos anos, tendo sido, inclusive, um dos fundadores do cursinho popular da PUC-SP para vestibulandos de baixa renda.

No entanto, Valdemar morreu no último domingo (5), vítima do novo coronavírus. Não teve tempo de receber seu diploma nem de se despedir da mulher, Lidia Fabiana, e dos filhos Guilherme Jorge, de 13 anos, e Letícia Aparecida, de 17.

Aos 47 anos completados no dia 11 de março, Valdemar Gomes não tinha comorbidades que o deixariam no grupo de risco para o coronavírus. Também não fumava e mantinha uma vida movimentada com as aulas diurnas e noturnas. Por isso, a morte pegou todos de surpresa. Foram 19 dias desde a primeira consulta por causa dos sintomas até o óbito.

Logo após a morte, as redes sociais do professor foram "invadidas" por estudantes e colegas de profissão. Ele dava aula na escola municipal Dona Jenny Gomes e em cursos de extensão. Negro e nascido em Miracema do Tocantins, Valdemar abordava bastante as questões raciais e lutava por igualdade.

"O que ele mais queria era entrar em uma universidade pública como professor. Por isso terminou o doutorado recentemente, o diploma até já estava pronto, mas por causa dessa pandemia não entregaram ainda", conta a esposa, que tem 43 anos e é assistente social. Eles ficaram juntos durante 25 anos, sendo 21 casados.

A UFABC lamentou a morte e afirmou que entregará o diploma à família. "Com imensa tristeza recebemos a notícia do falecimento (em decorrência da covid-19) de Valdemar Gomes, nosso estudante egresso da pós-graduação. Tivemos a honra de compartilhar saberes com Valdemar e contar com seu brilhante comprometimento em nosso Programa de Ciências Humanas e Sociais. Certamente, seu legado na pesquisa e na conduta com o próximo permanecerá sempre presente entre nós. Infelizmente, não tivemos oportunidade de entregar o diploma de doutor ao nosso querido estudante. Tão logo as atividades presenciais da UFABC sejam retomadas, providenciaremos a entrega deste documento à família".

Com a doença

Valdemar começou a ter um pouco de febre no dia 18 de março e foi à UPA de Itaquera, na zona leste, onde viu que o pulmão não estava afetado e recebeu medicamentos. Três dias depois, a febre persistiu e ele voltou ao médico. Desta vez, em vez de anti-inflamatório e antitérmico, foi receitado com antibiótico. Os sintomas melhoraram, mas na quinta-feira da semana passada o professor desmaiou, retornou ao hospital e ficou internado.

A falta de ar piorou na sexta, e o cateter nasal passou a ser utilizado. No sábado, Lidia foi chamada ao hospital e autorizou o uso de cloroquina no marido. Porém, o medicamento deu efeito colateral e Valdemar precisou tomar um remédio para desacelerar o coração.

No domingo, ele foi transferido para o Hospital Emílio Ribas, na área central, e aparentava estar mais tranquilo. "Saí às 18h do hospital, ele estava respirando só com máscara. Às 20h, me ligaram para avisar que ele tinha falecido depois de uma parada respiratória", diz Lidia.

Embora tenha ficado ao lado do marido desde o início do tratamento, ela não tem qualquer tipo de sintoma da doença. Os filhos também não, mas os três estão em isolamento. Em casa, fica a lembrança de Valdemar. "Até nosso cachorro está sentindo muito a falta dele, ainda sempre espera ele chegar", afirma Lidia.

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