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Eleições na Alemanha são novo teste para poder de Merkel

Morris Mac Matzen/Reuters
Imagem: Morris Mac Matzen/Reuters

Tatiana Girardi

Em São Paulo

22/09/2017 19h36

Os alemães se preparam para ir às urnas neste domingo (24) para renovar o Bundestag, o Parlamento do país, e, ao que tudo indica, dar à chanceler Angela Merkel mais um mandato.

Seu partido, o União Cristã Democrata (CDU, na sigla em alemão), de centro-direita, tem cerca de 36% a 39% das intenções de voto, segundo os principais institutos de pesquisa, e deve ter uma "vitória fácil" no domingo.   

Na segunda colocação, vem o Partido Social Democrata (SPD), de centro-esquerda e do líder Martin Schulz, que após um início de campanha avassalador, conta com cerca de 22% a 24% dos votos. As duas siglas formaram, nos últimos anos, uma coalizão moderada no poder.   

No "meio da tabela", estão diversas siglas, de orientação de esquerda ou de direita, como a União Social Cristã (CSU), a Aliança 90/Os Verdes, A Esquerda (Die Lienke) e o Partido Liberal Democrático(FDP).   

No entanto, o que mais preocupa tanto Merkel como Schulz é o possível avanço do partido ultranacionalista e de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AFD). Apesar de um enfraquecimento de seu discurso nos últimos meses, especialmente porque ele é muito atrelado a temas anti-imigração, há a estimativa de que eles consigam ao menos uma cadeira de deputado federal no Bundestag.   

"O partido está com um percentual muito fraco, mas depois do nazismo, será a primeira vez que alguém será eleito pela extrema-direita", diz o professor de Negociação e Resolução de Conflitos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Yann Duzert.   

Segundo o especialista, é difícil apontar realmente quantas cadeiras eles podem conquistar no pleito de domingo porque "as pessoas na Alemanha tem vergonha de dizer que são da ultradireita, então não sabemos de fato quem vai votar no partido".   

Até pelo temor da força do partido, Merkel tenta estimular os alemães para irem às urnas em grande quantidade, defendendo que "nada está definido" até o momento. - Como são as eleições? Na Alemanha, os eleitores dão dois votos quando se dirigem às urnas ou enviam seu voto por correio. O primeiro é o voto direto, em que o eleitor indica o nome do deputado que deseja ser vencedor; o segundo é no partido, onde os eleitos serão escolhidos pelas próprias legendas em listas fechadas de candidatos.   

O Bundestag tem 598 assentos e, destes, 299 são eleitos diretamente e os restantes vão através do voto de legenda.   

Geralmente, o primeiro nome da lista fechada é quem a sigla quer indicar para o cargo de chanceler.   

No entanto, caso um partido consiga um resultado muito expressivo na votação direta, as cadeiras disponíveis são realocadas para evitar um demasiado poder de uma determinada sigla. Nesta legislatura, por exemplo, são 630 deputados no Parlamento. Em números, isso significa que, se um partido consegue 40% dos votos de partido, ele elege 240 representantes.   

Se conseguiu, por exemplo, 100 candidatos por voto direto, ele preencherá as outras 140 vagas com seus candidatos de lista.   

No entanto, se uma sigla eleger diretamente 250 pessoas, o número de deputados dos outros partidos serão reorganizados para equilibrar forças no Parlamento. Segundo dados oficiais, o maior número de representantes em um período de quatro anos ocorreu entre 1994 e 1998, quando foram eleitos 672 candidatos.

Os resultados do pleito devem sair ainda no domingo, horas após a apuração, e a posse ocorre em até 30 dias após a votação.   

Outro fator importante é que não há prazo determinado por lei para que um chanceler permaneça no cargo. Merkel, por exemplo, que está há 12 anos no poder, pode continuar por outros quatro anos - e tentar mais candidaturas se quiser.   

O "recorde" atual pertence ao ex-chanceler Helmut Kohl, que ficou no poder entre os anos de 1982 e 1998.  

Alemanhã - GORDON WELTERS/NYT - GORDON WELTERS/NYT
Garotas andam ao lado de cartaz com Angela Merkel, em Osnabrück, na Alemanha
Imagem: GORDON WELTERS/NYT
 

 

Principais desafios

Entre os principais desafios do novo governo, estão as questões ligadas à imigração ilegal, a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado "Brexit", e a votação do novo orçamento europeu para os próximos anos. O professor Duzert, que aposta na "reeleição" de Merkel, afirma que o jeito de governar da alemã será vital nesses assuntos.

"Ela é a encarnação da negociação, de um novo jeito de negociar. Merkel vai alinhar a identidade europeia, de forma fria e racional, aos seus interesses, à percepção e pensará no longo prazo", destaca o especialista. "Na questão do Brexit, Merkel vai se unir com [Emmanuel] Macron [presidente da França] na questão de orçamento, mesmo que não seja aquilo que ela tenha planejado anteriormente", acrescenta ainda.

Dentro da União Europeia, Duzert afirma que ela vai manter uma postura que já tem, especialmente com os países do "clube Med", composto pelos países do Mediterrâneo - Itália, Grécia, Espanha e França, continuando a "cobrar o rigor orçamentário" para mostrar que "pensar no bem-estar do povo não depende de gastar mais dinheiro, mas sim de gastar bem".

A alemã é ainda apontada por muitos como a "líder do mundo livre" por ter uma postura totalmente contrária àquela do presidente norte-americano, Donald Trump, que se mostra um defensor de políticas isolacionistas e de protecionismo.   

"Trump aposta nas negociações do perde-ganha. [..] Merkel sabe integrar as pessoas, tem a sabedoria e a elegância moral para mudar o jogo da comunicação para uma negociação ganha-ganha", diz o professor da FGV. Já a imigração, responsável pela ascensão do AFD nos últimos anos, foi um grande teste para a atual chanceler. No entanto, com o arrefecimento na chegada dos imigrantes, tanto Merkel quanto Schulz, os principais candidatos, terão um cenário um pouco melhor do que o enfrentado pela chanceler no seu atual terceiro mandato.

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