Como o referendo sobre saída da UE pode afetar brasileiros no Reino Unido?

Pablo Uchoa

Da BBC Brasil, em Londres (Inglaterra)

  • Adrian Dennis/AFP

    Bandeira de campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia é pendurada em casa em Carshalton, no sul de Londres

    Bandeira de campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia é pendurada em casa em Carshalton, no sul de Londres

O brasileiro Bruno Mesojedovas, 33, está contando os dias para completar cinco anos de residência no Reino Unido, o que lhe dará direito à cidadania britânica.

Neto de lituanos, ele chegou ao país com passaporte europeu em agosto de 2011 e pretende ficar indefinidamente.

Mas Mesojedovas está preocupado: com o tema da imigração de cidadãos europeus no centro das atenções no debate do referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia, ele vê eventuais incertezas sobre a sua situação.

"A preocupação é o desconhecido", disse o brasileiro à BBC Brasil. Sem poder dar a sua opinião nas eleições --só votam os cidadãos britânicos que estão no país ou no exterior, além de cidadãos de algumas ex-colônias-- ele tem pouco controle sobre o que vai acontecer.

Mesojedovas conta que o está em jogo para ele são dez anos investidos em um longo processo para tirar o passaporte europeu no Brasil, o que incluiu viagens frequentes a Buenos Aires, onde o Consulado Geral da Lituânia atendia até poucos anos atrás.

"Agora, já são cinco anos vivendo aqui e pagando impostos. Além disso, gosto daqui e não tenho planos de sair."

A dúvida também ocupa os pensamentos de outros milhares de brasileiros que vivem no Reino Unido.

Entre eles, estão não só aqueles que se beneficiam diretamente das regras de livre circulação, que permitem a cidadãos de países da UE viver em qualquer parte do bloco sem qualquer burocracia, mas também muitos que são casados com cidadãos europeus.

Não há estimativas sobre quantos eles são, diz Ricardo Zagotto, consultor de imigração da Associação Brasileira no Reino Unido (Abras). A mais recente projeção é de que 300 mil brasileiros viveriam no país, mas ele diz que muitos acabaram deixando o Reino Unido após a crise econômica de 2008.

A imigração foi, de longe, o tema com discussão mais apaixonada na campanha do referendo. Os partidários da separação dizem que os imigrantes superlotam os serviços públicos, como hospitais e escolas, e abusam dos benefícios sociais.

Três milhões de imigrantes intrabloco vivem no Reino Unido, grande parte vinda após a adesão de países do leste europeu ao bloco, em 2004.

Os críticos da livre circulação argumentam que, sem ferramentas para controlar esse fluxo de pessoas, o Reino Unido não tem como prover serviços de qualidade para todos.

Em 2015, o país recebeu 330 mil imigrantes de forma líquida (contando as entradas e saídas de pessoas) --os cidadãos da UE corresponderiam a metade desse total.

Desde sua primeira eleição, em 2010, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, promete reduzir esse número para "abaixo de 100 mil".

'Relação complicada'

É uma narrativa que faz sentido para o brasileiro Mesojedovas, apesar de ele ser um dos beneficiados pelas atuais regras.

"Eu sou beneficiado pela União Europeia: sou um cidadão lituano que está aqui por causa da UE", afirma. "Mas é uma relação complicada. Se por um lado as portas para cidadãos da UE estão abertas, por outro lado fica muito mais difícil para todo o resto do mundo, inclusive para países que têm relação cultural com o Reino Unido, como Austrália, Nova Zelândia e Canadá."

De fato, muitos apontam que a crítica à imigração europeia também passa pela própria identidade britânica, mais próxima do mundo anglo-saxônico que de outros países da região. A expansão do bloco para o leste deixa muitos britânicos desconfortáveis.

Mais recentemente, a decisão de reavivar o processo de preparação da Turquia reacendeu as tensões nas ilhas britânicas. Políticos anti-EU, como o populista Nigel Farage, alertam que o país poderia sofrer uma "invasão" de cidadãos turcos.

Por outro lado, os partidários do bloco apontam que a mão de obra imigrante contribui em termos líquidos com o caixa e a economia do Reino Unido.

Eles também lembram que 1,3 milhão de britânicos desfruta das mesmas regras europeias e que estes vivem espalhados em diversos países do bloco, principalmente Espanha (300 mil), Irlanda (250 mil) e França (200 mil).

Mais fortes juntos

Simone Pereira é uma das pessoas que pretendem se beneficiar dessas regras. Cidadã britânica por meio do casamento com um cidadão polonês, ela tem a ideia de um dia viver no país do marido ou em Portugal.

A jornalista diz que vai votar pela permanência do Reino Unido na UE porque consegue perceber as mudanças positivas que o bloco gerou na Polônia.

"Eu vejo como ao longo do tempo o país melhorou dentro da UE", diz Pereira. "Em termos de estradas, infraestrutura, de tudo. Nas primeiras vezes que fui para lá, os trens eram da era comunista, e hoje são novinhos e eficientes."

Ela também diz acreditar que o Reino Unido precisa trabalhar em conjunto com o resto dos países europeus para resolver os problemas comuns, como a crise econômica, a situação dos refugiados e os desafios no campo da segurança.

Mudar ou mudar

Se os britânicos optarem por deixar a União Europeia, os efeitos para os imigrantes não serão imediatos. A partir do momento que notificar Bruxelas de sua decisão de deixar o bloco, o país terá dois anos para negociar os termos do divórcio.

Mesmo que a permanência vença, porém, a vida dos imigrantes europeus e seus parentes será inevitavelmente afetada, avalia Ricardo Zagotto, da Abras.

Em negociações com autoridades da UE no início deste ano, David Cameron obteve concessões para restringir o acesso de alguns cidadãos do bloco a benefícios e elevar as exigências para que eles tragam cônjuges que não sejam cidadãos dos países integrantes.

As medidas, porém, não são automáticas, precisam ser aprovadas também pelos outros países.

Partidários da saída dizem que as concessões obtidas por Cameron ficaram aquém do prometido e não são capazes de reduzir a imigração para menos de 100 mil pessoas por ano.

A instrutora de fitness Nelissa Atkins não pensa assim. Naturalizada britânica e com uma filha de seis anos, ela diz concordar que a situação precisa ser "equilibrada", mas acha injusto que os imigrantes sejam culpados por problemas sociais e de criminalidade.

"No meu bairro [Dagenham, no leste de Londres], não são os imigrantes que estão na fila do desemprego, e sim os britânicos", conta.

"É patriotismo. Por puro orgulho, muita gente não está vendo os benefícios que a imigração trouxe".

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