Por que Israel e o Estado Islâmico não se atacam?

Pablo Esparza

BBC Mundo

  • Abir Sultan/EPA/EFE

    5.jul.2015 - Palestino passa por pixação de suposta bandeira do Estado Islâmico em Jerusalém

    5.jul.2015 - Palestino passa por pixação de suposta bandeira do Estado Islâmico em Jerusalém

Inimigos naturais, Estado judeu e grupo extremista parecem observar-se com cautela; segundo especialistas, razões vão desde distância geográfica a prioridades estratégicas.

"Estamos chegando mais perto a cada dia. Não pense que nos esquecemos de vocês. Deus fez os judeus do mundo se reunirem em Israel e, portanto, a guerra contra eles é fácil (...). A Palestina será seu cemitério."

As declarações de Abu Bakr al Baghdadi, líder do grupo autointitulado Estado Islâmico (EI), registradas em vídeo em dezembro do ano passado, são um exemplo da retórica ameaçadora que ressurge de tempos em tempos contra Israel pelo grupo extremista que controla grandes partes do Iraque e da Síria.

Mas, até agora, o EI não atacou o Estado judeu.

E, para além de acordos de cooperação de inteligência, Israel tampouco participou de qualquer ofensiva contra o EI no Iraque e na Síria.

Em outras palavras, embora a distância ideológica pareça torná-los "inimigos naturais", Israel e o Estado Islâmico não se atacaram.

O que explica isso?

Distância geográfica

Shlomo Brom, autor de um relatório sobre a relação entre Israel e o Estado islâmico e pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança Nacional - centro de pesquisa de defesa sediado em Tel Aviv - diz que parte da resposta está na geografia.

"A maior parte do território sob controle do Estado Islâmico está longe de Israel. O único lugar relevante é uma pequena área adjacente à fronteira com a Síria, nas chamadas Colinas de Golã. Essa região é controlada por uma organização de rebeldes sírios que jurou lealdade ao EI", diz Brom à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Portanto, não há como o EI causar danos em Israel sem uma fronteira comum", acrescenta.

Outros especialistas ouvidos pela reportagem concordam que o fator geográfico é importante para explicar a falta de confrontos diretos.

"A parcela do território controlada pelo EI na fronteira é muito pequena se comparada a outras áreas na Síria e no Iraque", diz Ofer Zalzberg, analista da ONG International Crisis Group em Jerusalém.

"O grupo tem recursos limitados e está muito mais focado em combater tanto as forças leais ao governo sírio de Bashar al-Assad quanto outros grupos que atuam naquele país, como a Frente al-Nusra (grupo associado à al-Qaeda na Síria e no Líbano)."

"Neste sentido, Israel não é uma prioridade (para o EI). Na verdade, eles (EI) se aproximaram da fronteira de Israel para se proteger dos ataques do governo sírio. Isso porque Assad age com cautela com medo de que uma ofensiva malsucedida possa respingar em Israel e desestabilizar a região", ele diz a BBC.

E os ataques?

Mas se a distância geográfica explica em parte a ausência de um conflito direto, por que Israel não foi alvo de ataques nos moldes dos ocorridos em Paris ou em Nice, ataques organizados pelo EI que deixaram centenas de mortos?

Entre as razões citadas pelos especialistas está o maior controle da inteligência israelense sobre seu território.

Mas não é só isso.

"Em Israel, estamos em um ambiente diferente do da Europa", diz Mouin Rabbani, coeditor da revista eletrônica Jadaliyya, publicada pelo Instituto de Estudos Árabes. "A base social que poderia recrutar militantes do EI é muito menor e aqui é composta quase que exclusivamente por palestinos",

"É diferente da França, por exemplo, onde há uma mistura de nacionalidades", acrescenta.

"Além disso, se você olhar para os palestinos, incluindo os palestinos residentes em Israel, eles já têm uma causa identificável e um projeto nacional. Sendo assim, é menos provável que se envolvam em causas transnacionais, como atentados na Europa ou nos Estados Unidos", explica ele.

Uma exceção à regra tenha sido talvez o ataque em junho deste ano em Tel Aviv, no qual quatro israelenses foram mortos.

Dois dos agressores eram palestinos. Durante o julgamento, eles disseram que haviam "se inspirado na propaganda do EI".

Além disso, há divergências políticas e religiosas entre o grupo palestino Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Estado Islâmico e essas também limitaram o alcance da influência do grupo extremista sobre os territórios palestinos.

"Eles são adversários. Teologicamente, não só o Hamas, mas também a Irmandade Muçulmana (no Egito), criticam o EI ao dizer que o grupo defende uma interpretação errada do Islã", explica Zalzberg.

"Por outro lado, há uma questão política: o EI está tentando acabar com os Estados árabes e as facções que já existem. Trata-se de um projeto político diferente do da Irmandade Muçulmana ou do Hamas, por exemplo", acrescenta o especialista.

Os analistas também apontam para razões estratégicas de caráter geopolítico para explicar a falta de confrontos diretos entre Israel e o EI.

A guerra na Síria, por exemplo, é, atualmente, o principal fator de desestabilização na região. E Israel não está interessado em se envolver nesse conflito.

"Os adversários neste conflito são ambos indesejáveis para Israel. Seria como escolher entre 'o ruim e o horrendo'", diz Zalzberg.

"Dessa forma, Israel escolheu não tomar nenhum dos lados, até ser atacado em seu território. Isso sim geraria uma retaliação imediata", acrescenta o especialista.

O papel e os interesses israelenses na guerra da Síria não se limitam ao EI.

Diferentemente de países árabes vizinhos, como o Egito ou a Jordânia, Israel e a Síria nunca firmaram um acordo de paz. As colinas de Golã, por exemplo, um enclave estratégico reivindicado por Damasco, permanecem sob controle militar israelense e são consideradas um "território ocupado" pela ONU.

Além disso, o governo de Bashar al-Assad está ligado a dois dos principais inimigos de Israel na região: o Irã eo grupo xiita libanês Hezbollah, que o próprio Exército israelense já atacou em território sírio.

"Pode-se dizer que a prioridade de Israel no conflito sírio é ver o regime de Assad enfraquecido, mas também que a Síria - enquanto sociedade, Estado e capacidade militar - também saia enfraquecida", afirma Rabbani.

Estratégia do EI

Por outro lado, a decisão do EI de não atacar diretamente Israel, que identifica entre seus inimigos, se deve em parte à "falta de capacidade operacional".

Além disso, uma ofensiva contra o Estado judeu não é "prioridade" na agenda do grupo, explicam os especialistas.

"O EI tem uma frente principal, que é a Síria e Iraque. Uma segunda frente é colocar-se de pé em países altamente instáveis, como a Líbia, ou realizar e promover ataques terroristas com a sua marca", afirma à BBC Mundo Mariano Aguirre, diretor do Centro Norueguês para a Construção da Paz (NOREF), com sede em Oslo.

"Assim, não faz sentido para eles, militarmente falando, enfrentar um inimigo muito poderoso na região, como Israel", acrescenta.

Rabbani concorda que, para o EI, a prioridade neste momento se concentra em seus inimigos mais próximos.

"Pode-se dizer que a Al-Qaeda está mais preocupada com o inimigo de fora, especialmente os EUA e seus aliados, enquanto que o EI é muito mais preocupado com o inimigo de dentro, que são os regimes da região", explica o analista.

"Para este grupo extremista, a prioridade não é atacar Israel e "palestinos moderados". Nem mesmo derrubar o regime em Damasco. Sua prioridade é a consolidação e a expansão do território sob seu controle", conclui.

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