'Como descobri que meu pai levava uma vida dupla como espião'

  • Mark Colvin

    Mark Colvin, aos 7 anos, com seu pai na costa sul da Malásia, em 1959

    Mark Colvin, aos 7 anos, com seu pai na costa sul da Malásia, em 1959

Muitos filhos têm dificuldades para entender seus pais, mas essa tarefa foi mais difícil para Mark Colvin.

Durante sua infância entre as décadas de 1950 e 1960, Colvin via o pai como um dedicado diplomata britânico cujo trabalho fez a família rodar o mundo.

Pai e filho tinham um vínculo forte, mas havia questões não explicadas. John Colvin trabalhava muitas horas, dava poucas informações sobre seu ofício e se mantinha um pouco distante da família.

Colvin e sua irmã, Zoe, às vezes falavam em tom de brincadeira que seu pai poderia ser um espião.

Somente anos depois, entre 1976 e 1977, a família descobriu que ele havia trabalhado para o MI6, o serviço secreto britânico.

Mark Colvin
Documento de registro de John Colvin de 1949 na Marinha Mercante Panamenha

Vida dupla

John Colvin foi enviado à Malásia em 1957, após ocupar posições diplomáticas na Noruega e na Áustria, onde sua verdadeira missão era tentar enfraquecer o imperialismo soviético.

Enquanto sustentava a família, começou a gerenciar tropas de contrainsurgência durante a Emergência Malaia (1948-1960), conflito na Malásia britânica entre forças da Commonwealth (Comunidade Britânica) e o braço militar do Partido Comunista do país.

"Quando fomos viver em Kuala Lumpur, eu acreditava que ele era apenas um diplomata", disse Mark Colvin.

"Uma vez fui com ele para dentro da selva e inspecionamos uma tropa de combatentes - homens de tribos das montanhas -, mas achei que aquilo fazia parte do trabalho dele. Achei que ele fosse um diplomata colonial. Não percebi que aquilo era parte de seu trabalho na inteligência."

A vida familiar ocorria em paralelo à espionagem durante a Guerra Fria.

Mark Colvin
Mark, aos 4 anos, com seu cão Bamse

Mas o estresse do trabalho acabou contribuindo para o fim do casamento de John com a mãe de Mark, Anne Manifold. A atividade também desgastou seu relacionamento com os filhos, que não tinham informações sobre o trabalho do pai.

Mais tarde, durante a adolescência de Mark, seu pai foi enviado para o consulado britânico em Hanoi, então capital do Vietnã do Norte.

Ele ocupou o perigoso cargo, a milhares de quilômetros de sua família, em meio à operação Rolling Thunder - campanha de bombardeios massivos liderada pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1959-1975).

John se casou novamente e foi nomeado embaixador na Mongólia em 1974 antes de ocupar seu posto final nos Estados Unidos.

"Eu tive um ótimo relacionamento com o meu pai, mas às vezes a relação era muito distante", afirma Mark. "Ele nunca estava lá e muitas missões o fizeram ficar muito distante da civilização."

Sabendo da verdade

Mark estava com 20 anos e trabalhava como jornalista na ABC (Australian Broadcasting Corporation) quando sua mãe revelou a verdade sobre seu pai.

Mark Colvin
John Colvin em frente à sua casa em Kuala Lumpur, na Malásia

Foi então que alguns detalhes sobre John, como seu hábito de advertir os filhos para não viajar à União Soviética, começaram a fazer sentido.

Olhando em retrospectiva, Mark diz que foi positivo guardar segredo sobre o trabalho do pai - o então jornalista em início de carreira na Austrália, uma ex-colônia britânica, não queria ser classificado como "o filho do agente do serviço secreto britânico".

Mas após ficar cinco anos sem ver o pai, Mark combinou de encontrá-lo em Nova York durante uma viagem que fazia ao redor do mundo.

Foi lá, durante uma refeição de costelas de cordeiro no Clube Knickerbocker, que seu pai finalmente confirmou qual era seu trabalho real.

O que lhe foi revelado não podia ser divulgado para ninguém. Seu posto como conselheiro político na embaixada britânica em Washington era um disfarce. Na realidade, ele era o chefe do setor do MI6. Ele havia substituído Kim Philby, um agente que se tornou conhecido após desertar da União Soviética.

Seu trabalho era estabelecer uma ligação entre as agências de inteligência britânicas ("Os Amigos") e a CIA ("Os Primos"), o serviço secreto americano.

Ele finalmente se desligou do serviço de inteligência em 1980 e foi trabalhar no banco Chase Manhattan em Hong Kong. Também fez resenhas de livros para jornais britânicos e escreveu memórias e uma série de livros de história militar. Ele morreu em 2003.

Mark Colvin
Mark Colvin trabalhando como reporter para a ABC em 1976

Reconciliação com o passado

Mark Colvin, atualmente um jornalista veterano e apresentador de rádio da ABC, passou a pesquisar mais a fundo a vida de seu pai quando começou a escrever sua autobiografia Light and Shadow (Luz e Sombra).

Ao escrever o livro, ele chegou à conclusão que suas vidas haviam sido influenciadas pela Guerra Fria. Enquanto um travou a guerra como agente secreto, o outro cobriu o conflito como correspondente estrangeiro.

"Ele era um pai ausente por um tempo e um pai presente no resto do tempo", disse.

"Era uma relação muito boa, mas às vezes ele simplesmente não estava lá por razões não explicadas."

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