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Os alunos que acumulam 'dívida da merenda' no país mais rico do mundo

As escolas de alguns estados decidiram servir almoços a todas as crianças, sem exceções - Getty Images
As escolas de alguns estados decidiram servir almoços a todas as crianças, sem exceções Imagem: Getty Images

27/06/2019 16h02

Nos EUA, milhares de crianças não podem pagar pelas refeições que fazem nas escolas e muitas são estigmatizadas por isso.

Como é possível que, na nação mais rica do mundo, milhões de estudantes não tenham como pagar seu almoço?

Esse cenário desconcertante é o que alguns políticos nos Estados Unidos querem reverter.

Nos EUA, uma quantidade considerável de crianças e jovens que vão à escola são incapazes de pagar pelas merendas dos centros onde estudam, acumulando dívidas e multas.

Isso levou o senador democrata Bernie Sanders e outros políticos de seu partido a levantarem a voz para abordar a chamada "dívida do almoço escolar".

Sanders, um dos candidatos à nomeação democrata para as eleições presidenciais americanas em 2020, tem discutido o tema nas redes sociais e propôs recentemente um projeto de lei para reverter a situação atual.

'Humilhados'

Cerca de um quarto das crianças (7,7 milhões no total) que recebem almoços em escolas públicas conseguem pagar integralmente pelas refeições.

O resto se encontra em uma situação que os qualifica para receber comida grátis ou a preço reduzido. Trata-se de um programa financiado pelo governo americano, que atualmente beneficia milhões de crianças em todo o país, levando em conta os salários do núcleo familiar.

Mas quando os estudantes não podem fazer o pagamento de maneira regular, algumas escolas se negam a servir-lhes comida ou oferecem um sanduíche no lugar.

Segundo o jornal britânico The Guardian, um distrito escolar no Estado de Rhode Island cancelou uma política que, por um tempo, limitou a um sanduíche de pasta de amendoim e geleia os alunos que deviam dinheiro.

Bernie Sanders criticou essa realidade do sistema americano em uma série de tuítes no início da semana.

"A dívida do almoço escolar não deveria existir no país mais rico do mundo", disse.

Essa semana, vários congressistas democratas também anunciaram um projeto de lei para evitar que os estudantes que não podem pagar seu almoço sejam estigmatizados por isso.

"Em todo o país, os estudantes cujas famílias têm dificuldades para pagar as refeições escolares estão sendo marcados e humilhados na hora do almoço", disse a congressista Ilhan Omar ao apresentar a proposta.

E adicionou que os alunos não podem "aprender ou desenvolver-se bem" se estão com fome.

O projeto de lei também propõe que o governo reembolse as escolas com o dinheiro dos almoços não pagos dos estudantes, por um período de até 90 dias.

O Departamento de Agricultura do Estados Unidos (USDA, nas siglas em inglês) assegura que adotou medidas para acabar com a "humilhação do almoço".

"Essas são práticas que envergonham as crianças que não podem pagar", segundo o órgão.

As regras oficiais para lidar com esse tema sensível proíbem "o uso de selos ou outros marcadores visuais para identificar as crianças com dívidas".

De sua parte, as escolas devem discutir o delicado tema de forma privada e direta com os pais, em vez de fazê-lo por meio das crianças.

Aumento da dívida

En 2017, o USDA introduziu uma regra que obrigava as escolas a ter regras escritas sobre as refeições não pagas.

"Estamos comprometidos a continuar trabalhando com as escolas para minimizar o impacto nas crianças pelos problemas das cobranças pelos almoços não pagos", disse o porta-voz do órgão.

Alguns Estados do país, como Nova York, Texas, Califórnia e Novo México, criaram leis que obrigam as escolas a servir almoço às crianças, independentemente das dívidas.

E em Estados como Nova York, o almoço em todas as escolas públicas é grátis desde 2017.

Qual é o tamanho da dívida?

Ainda não existe uma informação exata sobre o total das chamadas "dívidas do almoço escolar" nos EUA.

Não se sabe se o tema está chamando atenção recentemente porque a dívida está aumentando ou porque, até pouco tempo atrás, o problema simplesmente não era debatido.

Michael Hansen, diretor do Centro Brown para Políticas Educativas, diz que uma explicação pode ser que muitos Estados e distritos escolares ainda estão se recuperando dos cortes de orçamento impostos depois da recessão de 2008.

Um estudo conduzido em 2012 pelo governo americano descobriu que 58% dos distritos escolares registravam dívidas de almoços não pagos durante o ano escolar anterior.

Uma pesquisa mais recente realizada pela Associação de Nutrição Escolar, com 1.550 distritos escolares, descobriu que três quartos dos distritos públicos tinham dívidas de almoços não pagos no final de 2017.

A dívida média acumulada por distrito escolar na área pesquisada foi de US$ 2.500. Não se sabe o tamanho da dívida por escola ou estudante.

Enquanto alguns distritos reportaram quantidades substancialmente mais altas, outras declararam números muito menores.

Os estudantes podem arrastar sua dívida de um ano a outro. Mas se o estudante se forma ou se muda da região, o distrito deve pagá-la.

Não se pode usar fundos do governo quando a dívida caduca, por isso as escolas se veem obrigadas a utilizar seu orçamento ou buscar doações para liquidá-las, segundo Pratt-Heavner.

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