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O que é o Exército Mahdi, milícia anti-EUA reativada após ataque que matou general iraniano

Moqtada al-Sadr é um dos mentores de manifestações recentes contra o governo iraquiano - AFP
Moqtada al-Sadr é um dos mentores de manifestações recentes contra o governo iraquiano Imagem: AFP

03/01/2020 17h14

Liderado pelo popular clérigo xiita Moqtada al-Sadr, grupo teve papel central na resistência contra forças americanas que ocuparam o país.

Um dia após os EUA realizarem um ataque aéreo que matou o líder militar iraniano Qasem Soleimani em Bagdá, no Iraque, o clérigo xiita iraquiano Moqtada al-Sadr anunciou no Twitter que havia ordenado a reativação de uma milícia conhecida como Exército Mahdi.

Uma das figuras mais conhecidas e poderosas do Iraque, Al-Sadr é um grande crítico da intervenção americana no país e tornou o Exército Mahdi uma das principais ameaças às Forças Armadas dos EUA após a invasão promovida no governo de George W. Bush.

O nome do grupo tem conotações messiânicas. Segundo algumas correntes islâmicas, o profeta Mahdi surgirá para guiar os muçulmanos antes do Juízo Final.

A partir de 2004, o Exército Mahdi travou embates frequentes com a coalizão militar liderada pelos EUA e foi acusado de vários atentados em estradas e outros ataques.

No campo político, Moqtada al-Sadr condenou líderes iraquianos que cooperaram com os americanos. Seus seguidores se envolveram em várias atrocidades sectárias no conflito entre xiitas e sunitas nos anos de 2006 e 2007. Em 2008, seus homens lutaram contra militares iraquianos enviados a Basra pelo então primeiro-ministro Nouri al-Maliki.

Al-Sadr já foi descrito como radical, agressivo e quixotesco, entre outros adjetivos atribuídos a uma figura vista como contraditória e enigmática.

Ele conseguiu a proeza de sobreviver a vários anos de revoltas, nos quais seus seguidores enfrentaram os americanos, o Exército do Iraque, extremistas islâmicos sunitas e milícias rivais xiitas.

A coalizão política que ele lidera, conhecida como Saeroun, ficou em primeiro lugar nas eleições gerais de 2018, o que deixou o clérigo em posição proeminente na negociação de uma coalizão governamental.

Moqtada al-Sadr é também visto como um dos responsáveis por manifestações populares contra a corrupção e a incompetência que chacoalharam o Iraque nos últimos anos.

Ascensão

Quando a invasão americana começou, ele era pouco conhecido, mas não levou muito tempo para que se destacasse.

Assim que o líder iraquiano Saddam Hussein perdeu o controle do país, ele se valeu de redes construídas por seu pai, o clérigo Mohammed Sadeq al-Sadr, nos empobrecidos bairros xiitas de Bagdá e de outras cidades no sul do Iraque.

É impossível entender a influência de Moqtada al-Sadr entre os iraquianos sem considerar o papel de sua família.

Tanto seu pai quanto seu sogro, Mohammed Baqer al-Sadr, eram figuras religiosas veneradas que cultivaram sólidas redes de assistência social entre xiitas pobres.

Os dois tiveram mortes violentas. Muhammad Baqer foi executado pelo regime de Saddam Hussein em 1980 ao lado de sua irmã Amina, e Muhammad Sadeq e dois dos irmãos de Moqtada al-Sadr foram alvejados em 1999 por agentes que, acredita-se, estavam a serviço do líder iraquiano.

Al-Sadr é frequentemente retratado ao lado dos dois parentes assassinados, os três com turbantes negros que simbolizam uma linhagem que remontaria à família do profeta Maomé, o fundador do Islã.

Às vezes, Al-Sadr veste uma mortalha branca, um sinal de que estaria pronto para o martírio.

Inimigo dos EUA

Tão logo os americanos e seus aliados assumiram o controle nos EUA, Moqtada al-Sadr se destacou como a principal voz a exigir a saída dos invasores.

As palavras foram acompanhadas de ações, conforme seus seguidores aderiram ao Exército Mahdi.

Nas numerosas turbulências ocorridas no Iraque desde então, Moqtada al-Sadr tem adotado uma postura pragmática tanto no campo militar quanto no político.

O Exército Mahdi sofreu várias mutações e foi rebatizado de Companhias de Paz. As mudanças permitiram que Al-Sadr mantivesse influência nas duas esferas.

Nas eleições de 2018, ele proibiu os 34 deputados de sua coalizão política de concorrer à reeleição e apresentou uma lista composta por comunistas, secularistas e sunitas - algo surpreendente para um grupo cuja base é formada por xiitas religiosos.

Crítico do Irã

E ainda que tenha criticado o ataque contra o general iraniano na quinta-feira e sido um crítico feroz da presença americana no Iraque, ele também criticou em várias ocasiões o Irã por sua interferência no Iraque e na Síria. Em 2017, ele visitou a Arábia Saudita, arqui-inimiga de Teerã.

Apesar disso, o clérigo se refugiou no Irã entre 2007 e 2011, quando estudou em centros religiosos de Qom para se aprimorar. Em setembro de 2019, foi filmado com o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e com o general Qasem Soleimani - imagens que cauraram frisson em boa parte do Iraque.

Para Patrick Cockburn, autor de uma biografia de Moqtada al-Sadr, as atitudes não são contraditórias.

"Ele e seu pai seguiram uma linha bastante consistente como líderes religiosos populistas no contexto da política iraquiana, com seus múltiplos centros de poder domésticos e no exterior. Isso significa que ninguém é um amigo permanente nem um inimigo permanente."

Com informações extraídas de um artigo de Jim Muir, que cobriu o Oriente Médio desde 1975, boa parte do tempo como correspondente da BBC.

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