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Como o conservador Putin tenta se tornar 'herdeiro' de Stalin

Presidente russo Vladimir Putin observa bandeira com retratos dos líderes soviéticos Vladimir Lenin e Joseph Stalin (foto de 06/03/2020) - Getty Images
Presidente russo Vladimir Putin observa bandeira com retratos dos líderes soviéticos Vladimir Lenin e Joseph Stalin (foto de 06/03/2020) Imagem: Getty Images

Julia Braun

Da BBC News Brasil em São Paulo

15/02/2022 07h55Atualizada em 15/02/2022 09h23

Nos bastidores da atual crise entre Rússia e Ucrânia, esconde-se o desejo profundo de Vladimir Putin de entrar para a história como o líder responsável por restaurar o status de potência global perdido pela União Soviética com sua queda em 1991.

Segundo cientistas políticos e historiadores ouvidos pela BBC News Brasil, mesmo após 30 anos do colapso do bloco socialista, o presidente ainda trata as conquistas de seus antepassados como eventos relevantes para a sociedade russa dos dias atuais.

E entre discursos elogiosos ao desempenho da URSS na Segunda Guerra Mundial, inaugurações de memoriais aos heróis do conflito e diferentes processos de integração com ex-repúblicas soviéticas, uma figura controversa e bastante criticada no Ocidente ganhou destaque entre os russos: a do ex-ditador e revolucionário comunista, Josef Stalin.

Apesar de ser classificado por muitos como conservador por sua defesa dos valores tradicionais e ser filiado ao partido nacionalista Rússia Unida, os especialistas afirmam que Putin tem usado o legado de Stalin como propaganda política para fortalecer seu governo e sustentar suas ações expansionistas no exterior.

"Stalin foi uma figura importante na história soviética e, na opinião de Putin, fez do país uma potência relevante no cenário mundial - e é exatamente isso o que o atual presidente deseja fazer com a Rússia atual", diz Mohsin Hashim, professor de política russa da Muhlenberg College, nos Estados Unidos.

A influência de Stalin vem crescendo de tal forma, que em 2019 o ditador alcançou sua melhor avaliação entre a população russa dos últimos 20 anos.

Segundo pesquisa realizada pelo Centro Levada, 51% dos entrevistados veem Stalin positivamente - dentro desse grupo, 41% sentem respeito, 6% simpatia e 4% admiração pelo comandante.

No entanto, na opinião dos estudiosos consultados pela reportagem, Putin entende os custos de promover uma figura controversa como Josef Stalin.

Durante os anos em que esteve no controle do Partido Comunista da União Soviética, entre 1941 e 1953, houve numerosos relatos de crimes de guerra cometidos pelas forças armadas, além de uma dura perseguição política. Estima-se que mais de 20 milhões de pessoas morreram sob seu regime, mas historiadores admitem que a cifra pode ser muito maior.

Por isso mesmo, há poucos registros do presidente russo elogiando o líder soviético em público. Na maior parte do tempo, Putin se dedica a usar referências do período em que Stalin comandava a URSS para falar da grandeza e potencial da Rússia, mas sem citar o comandante.

Em 2005, o líder russo deu uma das mais contundentes declarações nesse sentido, ao afirmar que "o colapso da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do século 20" durante seu discurso anual no Parlamento.

Putin passa pelo túmulo do líder soviético Josef Stalin durante visita à Praça Vermelha em Moscou (foto de 25/06/2015) - Getty Images - Getty Images
Putin passa pelo túmulo do líder soviético Josef Stalin durante visita à Praça Vermelha em Moscou (foto de 25/06/2015)
Imagem: Getty Images

O Kremlin ainda deu nova vida a alguns símbolos históricos soviéticos, como o próprio hino nacional.

Assim que assumiu a Presidência em 2000, Putin descartou a música que havia sido implementada por Boris Yeltsin na década de 1990 e aprovou uma nova versão, que usa a melodia do hino oficial da União Soviética, mas com uma nova letra.

Putin ainda ecoa com frequência a retórica usada pelo ex-primeiro-ministro em seus discursos. Em diversas ocasiões, o presidente se refere ao seu país como "a Grande Rússia" e invoca o patriotismo nacional da população, assim como Stalin fez quando enviou as tropas soviéticas para combater o exército da Alemanha nazista em 1941.

"Há um conceito que era muito utilizado no período soviético e que segue sendo usado atualmente que é o 'Derzhava', ou 'grande poder' em russo'', diz Mohsin Hashim. "Putin usa com frequência a expressão para falar do futuro da Rússia como grande potência mundial, destino que segundo ele só pode ser concretizado com um Estado forte e centralizado".

De acordo com o especialista, foi a partir dessa ideia que o presidente promoveu nos últimos anos uma série de reformas para ampliar seu escopo de poder e estender seu período no cargo.

Propaganda política

Apesar de sustentar o legado de Stalin principalmente por meio de referências oblíquas, em alguns momentos pontuais Vladimir Putin chegou a falar diretamente do ex-líder soviético.

Em uma entrevista concedida em 2017, o presidente russo criticou a "excessiva demonização" de Stalin promovida pelo Ocidente, e afirmou que a estratégia era usada "como um meio de atacar a União Soviética e a Rússia".

Segundo Putin, seus críticos usam o legado de Stalin "para mostrar que a Rússia de hoje carrega em si algum tipo de marca de nascença do stalinismo".

Antes disso, o líder defendeu uma avaliação mais equilibrada sobre o governo do comunista pela opinião pública. Durante uma com jornalistas locais em 2009, Putin disse que não era possível classificar Stalin apenas como bom ou mau.

"Se você disser que tem uma visão positiva [sobre o governo de Stalin], alguns ficarão descontentes. Se você disser que tem uma visão negativa, outros resmungarão", disse. "É impossível fazer um julgamento geral. É evidente que, de 1924 a 1953, o país que Stalin governou passou de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial."

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil ressaltam, porém, que apesar de usar o legado de Stalin como propaganda política, Putin não deseja repetir as ações do ditador ou reviver o formato de governo da URSS.

Segundo Mohsin Hashim, o atual presidente se beneficia muito do modelo de economia aberta e diversificada, e apesar de comandar algumas políticas de repressão, foge da imagem de ditador.

"Putin não é propriamente um stalinista, porque isso significaria recriar um Estado totalitário", diz o especialista. " O Kremlin mantém políticas autoritárias, mas não totalitárias".

Para Valerie Sperling, especialista em política russa da Universidade Clark, apesar das inúmeras denúncias sobre violação dos direitos de liberdade de expressão e da democracia, as ações do governo Putin não podem ser comparadas com as barbaridades cometidas durante a URSS.

"O atual Estado russo é autoritário e persegue cada vez mais qualquer tipo de oposição política, mas ainda está muito longe de cometer os crimes da era Stalin, quando milhões de pessoas foram presas em campos de trabalho forçado e fuziladas por crimes totalmente imaginários", afirma.

Putin discursa no Kremlin; para especialistas entrevistados, presidente não deseja repetir as ações de Stalin ou reviver o formato de governo da URSS - EPA - EPA
Putin discursa no Kremlin; para especialistas entrevistados, presidente não deseja repetir as ações de Stalin ou reviver o formato de governo da URSS
Imagem: EPA

Limpeza do passado

Segundo Yevgenia Albats, cientista política russa e editora do jornal The New Times em Moscou, para enaltecer o papel do Estado nas conquistas obtidas pela URSS e legitimar algumas de suas práticas autoritárias, Putin também comanda um esforço ativo de controle da narrativa histórica no país.

Ao longo de seus mais de 20 anos no poder, o presidente por diversas vezes tentou reconstruir alguns dos eventos do passado de forma a adequá-los ao discurso do Kremlin, de acordo com a jornalista.

"O governo russo promove uma limpeza do passado para apagar grande parte dos crimes e perseguições que ocorreram durante a União Soviética e mostrar apenas a parte glamourosa", disse Albats à BBC News Brasil. "Até porque muitos dos políticos que comandam o país atualmente são herdeiros da KGB ou se beneficiaram de alguma forma de decisões tomadas por seus antecessores".

Em 2021, uma das maiores instituições dedicadas à pesquisa e memória dos crimes de guerra cometidos durante o período soviético foi alvo do governo por suas ações.

A ONG Memorial foi fechada depois que a Suprema Corte acatou a visão da Procuradoria de que a entidade estava distorcendo a história russa para criar "a falsa imagem de que a URSS foi um estado terrorista". Membros e apoiadores da organização classificaram a decisão como um ato de censura.

Antes disso, opositores e ativistas pela democracia já denunciavam uma campanha do governo para apagar das salas de aula e livros didáticos alguns dos maiores crimes cometidos pelo regime de Stalin.

Um manual para professores aprovado para uso nas escolas do país em 2008 descreve Stalin como um "líder eficiente".

Já o livro didático "A História da Rússia, 1900-1945", publicado por uma editora financiada pelo Kremlin e cujo autor é ligado ao partido Rússia Unida, tenta justificar o envio de milhares de pessoas para os gulags, campos de trabalho forçado dedicados a abrigar criminosos políticos e "inimigos" do Estado.

Para os especialistas, o revisionismo está presente também nos próprios discursos de Putin, que por vezes contradiz posições adotadas pelo Estado no passado em relação à Segunda Guerra e com frequência comparece a homenagens aos 'heróis' do conflito.

O líder soviético Joseph Stalin discursa no Congresso da União Soviética - Getty Images - Getty Images
O líder soviético Joseph Stalin discursa no Congresso da União Soviética
Imagem: Getty Images

Segundo Peter Rutland, especialista em política russa e professor da Universidade Wesleyan, ao tentar amenizar a imagem de Stalin e reconstruir a confiança da população no Estado, o presidente tem como um de seus principais objetivos a reconstrução do orgulho russo.

Após a dissolução da URSS em 1991, o país passou por períodos difíceis, com grande instabilidade política e uma profunda crise econômica. Tudo isso colaborou para a perda da confiança popular no governo e nas instituições.

"O governo quer que a população tenha orgulho de ser russa, mas o colapso da URSS cruiou um vazio em parte da sociedade, especialmente nas gerações mais velhas", diz Rutland. "Ao relembrar com frequências as conquistas soviéticas durante a Segunda Guerra, Putin busca justamente preencher esse vazio com um sentimento nacionalista e patriótico".

Para além das fronteiras russas

Alguns analistas consultados pela BBC News Brasil ainda vêem nas escolhas políticas de Putin traços da ambição e buscar por expandir a influência da URSS por novos territórios.

Em 2014, a Rússia sob o comando do presidente anexou a Crimeia ao seu território e provocou reações negativas da comunidade internacional.

Neste ano, a região voltou a ser fruto de preocupação depois de denúncias dos Estados Unidos sobre o envio de mais de 100 mil soldados russos à fronteira com a Ucrânia.

Putin nega qualquer plano de invadir o país vizinho, mas adota uma retórica agressiva ao criticar as negociações para a entrada da ex-república soviética na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A tensão é tamanha que mais de uma dúzia de países pediram a seus cidadãos que deixem a Ucrânia, e alguns retiraram funcionários diplomáticos da capital, incluindo os EUA.

Para Peter Rutland, Putin usa o passado soviético e a tomada da Crimeia em 1941 pela Alemanha nazista para justificar a anexação da península pela Rússia. "Além disso, ele frequentemente retrata alguns atores políticos na Ucrânia como fascistas, descendentes de colaboradores dos nazistas na Segunda Guerra Mundial", diz o especialista.

"Putin gostaria de reproduzir não somente a grandeza da URSS, como também o que ele chama de 'Rússia histórica', que nada mais é que a Rússia czarista", afirma Yevgenia Albats. "Ele gostaria que o território russo incluísse também a Bielorússia, a Ucrânia e talvez até parte do Cazaquistão, como no já incluiu no passado".

"Gosto de dizer que ele é um nacionalista, mas com aspirações imperialistas".

Porém, para Christopher Read, historiador e professor da Universidade de Warwick, no Reino Unido, o termo expansionismo não se aplica ao contexto atual da Rússia, e tampouco deve ser usado para se referir ao governo de Stalin durante a União Soviética.

"Nem Stalin nem Putin são expansionistas em sua política externa. A Rússia perdeu cerca de um terço de seu território desde 1914, o que não seria um bom resultado para uma potência classificada como 'expansionista'", diz.

Mais pragmático, menos conservador

Por sua capacidade de promover o passado soviético russo, ao mesmo tempo em que defende valores religiosos e tradicionais, os especialistas encontram dificuldades em classificar Vladimir Putin em um único espectro ideológico.

Em seu governo, o presidente ampliou o escopo da Igreja Ortodoxa e passou a defender a ideia de que o cristianismo "é a raiz da identidade russa".

Putin ainda demonstra apoio aos "valores familiares tradicionais", condena o casamento homossexual e alimenta a intolerância e homofobia no país. "O casamento é uma união entre um homem e uma mulher", disse em 2020.

O próprio presidente, porém, já foi acusado de manter amantes durante o período em que foi casado com a ex-mulher Ludmila Putina, e de tentar esconder os filhos que foram frutos desses relacionamentos extraconjugais.

Para Peter Rutland, há uma contradição nas atitudes do presidente, que apesar de ser filiado ao partido nacionalista e conservador Rússia Unida, dedica-se a exaltar o passado soviético - e comunista - da Rússia.

"Há uma grande contradição nas ações de Putin, mas a verdade é que o Stalin que Putin descreve não corresponde ao Stalin real - então Putin pode se safar retratando um revolucionário radical como um conservador", diz o professor da Universidade Wesleyan.

Segundo Mohsin Hashim, da Muhlenberg College, Putin não tem uma ideologia própria de governo. "Ele é acima de tudo pragmático", resume.

"Putin não é conservador nem progressista, ele é oportunista", diz a russa Yevgenia Albats. "Ele não está preocupado com ideologia, mas sim com entrar para a história como um herói russo - e fará o que for necessário para isso".