Rússia se exalta na Páscoa ortodoxa como "ultima reserva moral" da Europa

Arturo Escarda.

Moscou, 1 mai (EFE).- A Páscoa Ortodoxa celebrada neste domingo na Rússia serve, para muitos líderes deste país, como uma oportunidade para exaltar a elevada moral que atribuem a seu povo ao compará-lo com o 'decadente' Ocidente.

Em recente 'linha direta' com os cidadãos, o presidente russo, Vladimir Putin, voltou a fazer menção aos nexos espirituais que "fazem invencível" o povo russo e contrapôs a Rússia com o Ocidente, onde, segundo disse, "muitos países estão perdendo sua identidade".

Várias vezes, o Kremlin envia uma clara mensagem: os fluxos migratórios que afetam a Europa e os guetos de imigrantes nas periferias de suas cidades, em sua maioria alheios à cultura europeia, causam um dano irreparável à identidade nacional que a Rússia não vai permitir.

A "propaganda homossexual de Estado", que segundo os líderes russos reina no Ocidente até o ponto de avassalar a família tradicional, também é inaceitável para um país que, nos discursos de seus líderes, parece a última reserva moral da Europa.

Há muitos anos o Kremlin anda de mãos dadas com a Igreja Ortodoxa Russa na defesa com veemência da família tradicional, que deve ser numerosa para garantir a sobrevivência e a grandeza da nação.

A Igreja, ressaltou hoje Putin em sua felicitação aos russos pela Páscoa, "faz uma grande contribuição ao fortalecimento das bases morales da sociedade e da educação das novas gerações".

Os hierarcas religiosos, por sua vez, seguem de pés juntos a política externa do Estado, seja para defender a intervenção militar de Moscou na Síria, apoiar a anexação da Crimeia ou se colocar ao lado dos separatistas pró-Rússia no ortodoxo leste da Ucrânia.

Embora a Rússia seja um Estado aconfessional, a fé ortodoxa se transformou de fato na religião oficial, avalizada inclusive pelo teoricamente opositor Partido Comunista, que parece ter esquecido o ateísmo beligerante que incentivava nos tempos da União Soviética.

"Lhes garanto que, se Cristo vivesse agora, se uniria a nós, porque sofreu pelos pobres", disse recentemente o líder dos comunistas russos, Gennady Ziuganov, condecorado há dois anos com a Ordem de Honra das mãos de Kirill, o patriarca da igreja russa.

Hoje, no Domingo da Ressurreição, que coincidiu com o Dia do Trabalho, uma das primeiras referências que Ziuganov fez durante a tradicional manifestação dos comunistas por Moscou foi sobre a reconciliação de seu partido com a Igreja Ortodoxa "já durante a Grande Guerra Pátria", como os russos chamam seu conflito com a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

"Stalin convidou todos os hierarcas, e nos anos da guerra foi celebrado um concílio. Foram restituídos muitos seminários. Foi um passo na direção adequada", lembrou.

Alguns analistas argumentam que após perder, com a queda do comunismo, sua identidade soviética - ateia e internacionalista, pelo menos no papel -, os russos adotaram uma identificação com a fé ortodoxa como um elemento que os diferencia claramente do resto do mundo.

Apesar de em 1991 apenas 19% da população se definir como cristã ortodoxa, "hoje em dia praticamente todo mundo se identifica com essa fé", disse Natalia Zorkaya, pesquisadora do prestigiado centro de pesquisas Levada.

Mas, ao mesmo tempo, ano após ano todas as pesquisas indicam que apenas 3% dos russos seguem com rigor o grande jejum prévio ao Domingo da Ressurreição, e pouco mais de 10% vão às missas religiosas oficiadas durante a Semana Santa.

"Esta atitude aponta uma identidade étnica. Ortodoxo significa russo. Tem relação com a crise de identidade na consciência de massas dos russos após a desintegração da URSS. Trata-se, no entanto, de uma identificação formal, que não está acompanhada dos elementos que caracterizam o autêntico crente", explicou Zorkaya.

A Igreja Ortodoxa celebra a Páscoa no primeiro domingo depois da lua cheia após o equinócio de primavera no hemisfério norte, segundo o calendário juliano.

Devido a esta particularidade astronômica, a Páscoa Ortodoxa coincide com a celebrada pelos cristãos de rito ocidental apenas a cada três ou quatro anos.

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