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Internacional

Desarmamento norte-coreano e incentivos dos EUA: os temas cruciais da cúpula

26/02/2019 15h34

Andrés Sánchez Braun.

Seul, 26 fev (EFE).- A esperada segunda cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte dará a oportunidade para se conhecer em que grau o país asiático está comprometido com sua desnuclearização e, a partir daí, que concessões o governo americano estaria disposto a fazer para incentivar o desarmamento.

A primeira cúpula do ano passado em Singapura entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente americano, Donald Trump, terminou com uma declaração que, apesar de ser um grande passo para solucionar o enfrentamento que os dois países mantêm desde 1950, quase não serve para assentar as bases de um processo de desnuclearização.

No documento, de apenas uma página, as partes estipularam uma melhora das relações e "trabalhar para a desnuclearização da península coreana", ao mesmo tempo em que Washington se comprometeu a oferecer "garantias de segurança" para a sobrevivência do regime, sem acrescentar mais nada a respeito.

A ausência de coordenadas evitou que o processo de desarmamento mostrasse avanços consistentes até agora, já que a Casa Branca exigiu que Pyongyang colocasse sobre a mesa relatórios concretos para desmantelar seu programa nucelar, e o regime respondeu que o fará se o governo Trump implementar "medidas correspondentes".

Já a Coreia do Norte mostrou-se favorável a inutilizar "permanentemente" - e sempre que houver incentivos dos EUA - seu centro de pesquisa nuclear de Yongbyon, lugar no qual o regime fabricou o combustível para as seis bombas atômicas que testou até o momento.

Trump e sua equipe, por sua vez, parecem ter aliviado a retórica inicial sobre a necessidade de que a desnuclearização norte-coreana deve ser "total, verificável e irreversível", com o presidente garantindo que "não há pressa" e se mostrando satisfeito com o simples fato de que Pyongyang deixou de realizar testes de armamentos.

De qualquer forma, a maioria dos analistas coincide em apontar que é impossível que esta segunda cúpula resulte em um roteiro detalhado, mas que existe a possibilidade de acordos sobre medidas que sirvam para começar a traçar um plano em grande escala.

"Uma segunda cúpula precisa gerar mais do que apenas boa vontade política", explicou à Agência Efe Jenny Town, analista do Stimson Center de Washington e editora do site especializado em Coreia do Norte, "38north.org", que diz esperar "poucas medidas concretas" na cúpula que acontece em Hanói (Vietnã) nos dias 27 e 28 de fevereiro.

Entre essas medidas, Town diz que poderia haver "um compromisso para deixar de produzir material físsil (em Yongbyon) e permitir a revisão das instalações, e até mesmo planos para desmantelar tais instalações. Isso seria um primeiro passo importante".

Por sua vez, Cho Jin-goo, professor de Estudos Orientais da Universidade de Kyungnam, na Coreia do Sul, afirma de forma contundente que esta cúpula "gira em torno do fechamento do complexo de Yongbyon".

O acadêmico acredita que se "foram esclarecidas medidas concretas sobre os programas de urânio enriquecido, o tema sobre o qual os EUA querem averiguar mais e não puderam até o momento, isto seria considerado uma demonstração de sinceridade norte-coreana para a desnuclearização".

A respeito das medidas "correspondentes" que o país asiático reivindica e que os EUA poderiam lhe conceder, James McKeon, analista do Centro de Controle e Não Proliferação de Armas de Washington, estima que "o alívio gradual de sanções, ao estilo do que foi feito no acordo nuclear com o Irã, seria certamente o principal objetivo".

Nesse aspecto, os analistas consideram praticamente impossível que os EUA se comprometam a impulsionar o relaxamento das sanções impostas pela ONU como punição pelos testes norte-coreanos, mas, tal como afirma Town, é possível que "algumas isenções para projetos de cooperação intercoreana" sejam implementadas.

Entre esses projetos destacam-se o complexo hoteleiro do monte Kumgang e o polígono industrial de Kaesong, que ficam em território norte-coreano e estão fechados desde 2008 e 2016, respectivamente.

Os dois lugares representam uma fonte estável de receitas para o regime, que nos últimos meses manifestou enorme interesse em reativá-los para dar impulso aos programas de desenvolvimento econômico que Kim Jong-un defende.

"Entre as possíveis 'medidas correspondentes' seriam incluídas disposições para melhorar a relação bilateral como a abertura de escritórios de representação - missões diplomáticas de grau inferior - ou uma declaração política que ponha fim à Guerra da Coreia (que foi concluída com um cessar-fogo e não com um acordo de paz)", opinou Cha Du-hyeogn, pesquisador do Instituto Asan de Seul.

O regime, consciente do que aconteceu em países como o Iraque, vê neste último elemento um importante mecanismo que poderia garantir sua sobrevivência.

Sobre essa questão, Cho também considera possível que os EUA façam uma declaração de paz "em nível político, que depois passaria para um marco multilateral (o cessar-fogo que encerrou a Guerra da Coreia em 1953 foi assinado por Pyongyang, Washington e o chamado Exército Popular Voluntário chinês) para a assinatura de um tratado de paz".

Em todo caso, e faltando avanços nas declarações públicas tanto no que concerne a desnuclearização como o processo de paz, todos os especialistas consultados coincidem em assinalar que, em nenhum caso, Washington contempla colocar sobre a mesa, por enquanto, a retirada ou a redução de suas tropas presentes na Coreia do Sul (28.500 efetivos). EFE

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