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Modelo de isolamento da Suécia contra coronavírus não deve ser seguido pelo Brasil, opina cientista sueco

Horacio Villalobos#Corbis/Corbis via Getty Images
Imagem: Horacio Villalobos#Corbis/Corbis via Getty Images

Claudia Wallin

Correspondente da RFI em Estocolmo

13/04/2020 11h31

Com bilhões de pessoas confinadas no mundo pela quarentena em tempos de coronavírus, a estratégia dissonante adotada pela Suécia tem sido citada por partidários do isolamento vertical no Brasil como um modelo a ser seguido. Mas na avaliação de um dos principais cientistas suecos, uma série de fatores indica que o isolamento horizontal seria o melhor rumo a ser seguido pelo Brasil.

Único país nórdico a não adotar o isolamento horizontal, a Suécia também já lidera o número de mortos pelo coronavírus na região. "A ciência ainda não tem respostas conclusivas em relação à Covid-19. Mas faço aqui uma suposição: países como o Brasil, que apresentam características como alta densidade populacional e outros fatores de forte impacto para os índices de mortalidade, provavelmente deveriam adotar medidas mais restritivas para a contenção do vírus. E a quarentena é uma delas", disse em entrevista à RFI Paul Franks, professor de Epidemiologia Genética da Universidade de Lund (sul da Suécia) e professor adjunto da Harvard Chan School of Public Health em Boston (EUA).

Para incredulidade até de determinados setores da comunidade científica sueca, a Suécia permanece em um cenário pré-coronavírus: restaurantes, lojas, shopping centers, creches e escolas do ensino fundamental continuam abertos, embora seja notável a redução do movimento nas ruas.

A maior parte da população segue as orientações do governo sobre distanciamento social, e o isolamento dos idosos é particularmente recomendado. Em grande número de empresas, o trabalho passou a ser realizado de forma remota.

Em termos dos fatores determinantes para as diferentes linhas de atuação no combate à Covid-19, o professor Paul Franks nota, entretanto, que são diversos os contrastes entre Brasil e Suécia - país que tem uma população de apenas dez milhões de habitantes. Ele observa que um dos principais fatores de risco para a disseminação do vírus é a densidade populacional - que na Suécia, ao contrário do Brasil, é extremamente baixa.

"Já em uma cidade como São Paulo, por exemplo, a densidade populacional é significativamente alta, o que pode acarretar taxas de transmissão do vírus também muito altas", destaca Franks, que foi recentemente listado no ranking mundial do 1% de autores mais citados nas diferentes áreas do conhecimento.

Fator climático

O país escandinavo também apresenta o mais alto índice em toda a Europa de lares habitados por uma só pessoa. Já no Brasil, o elevado número de comunidades carentes - onde famílias inteiras dividem poucos cômodos, e onde há falta de saneamento básico e acesso a água potável - é um fator agravante na luta contra a Covid-19.

"A demografia brasileira difere em alto grau da dinâmica sueca, principalmente em termos da coabitação entre gerações, com um grande número de lares no Brasil em que crianças e idosos dividem o mesmo espaço. Crianças são vetores de propagação do coronavírus, e a coabitação entre gerações também é mais comum na Itália, que apresenta altas taxas de mortalidade entre idosos", acrescenta Franks.

O professor também destaca o fator climático: embora o impacto do clima sobre a disseminação da Covid-19 ainda seja desconhecido, estudos realizados com outros tipos de coronavírus sugerem que altas temperaturas e umidade relativa podem reduzir a transmissão do vírus.

"A Suécia se aproxima do verão, enquanto o Brasil caminha para o inverno", observa ele. É preciso considerar ainda as diferenças culturais entre Brasil e Suécia, diz o especialista sueco - particularmente no que se refere às atitudes em relação à ciência e à confiança nas autoridades.

"A Suécia, e os países nórdicos em geral, acreditam na ciência e são guiados pelo conhecimento científico. E do ponto de vista civil, são sociedades que possuem altos índices de confiança nas autoridades e que seguem majoritariamente e de forma responsável as orientações estabelecidas por elas", ressalta Paul Franks.

Outra consideração a ser levada em conta, segundo ele, é o fator genético. Ainda não se sabe em que medida o DNA contribui para a suscetibilidade ao coronavírus, mas a ciência trabalha com a hipótese de que características genéticas podem tornar a contaminação pelo vírus mais ou menos provável.

Em razão destas diferenças estruturais, o cientista sueco pondera que a estratégia sueca de combate ao coronavírus não seria o melhor exemplo a ser seguido pelo Brasil.

Importância da comunicação pública

Além da adoção da quarentena, igualmente importantes para a contenção da Covid-19 no Brasil são as políticas de comunicação pública sobre a pandemia, alerta o especialista - especialmente em termos de motivar a população a se comportar de forma responsável em nome do bem comum da sociedade. "Comportar-se com responsabilidade diante desta crise em curso é um fator chave para a contenção da Covid-19", destaca ele.

"Certamente, não se trata de um 'resfriadinho'", acrescenta Paul Franks, fazendo menção ao pronunciamento em rede nacional em que o presidente Jair Bolsonaro comparou a contaminação por coronavírus a uma "gripezinha" ou "resfriadinho". Segundo balanço da agência France Presse (AFP), mais de metade da população mundial (4,06 bilhões de pessoas) está atualmente confinada em suas casas por ordem das autoridades para combater a propagação do novo coronavírus.

Suécia lidera número de mortos entre nórdicos

Adepta de estratégia mais liberal de contenção da Covid-19, a Suécia lidera atualmente o número de mortos pelo coronavírus em comparação com os vizinhos nórdicos que adotaram a quarentena. Estatísticas oficiais desta segunda-feira mostram que a Suécia contabiliza 899 mortes, e 10.483 casos confirmados da doença.

Embora seja provavelmente cedo para constatar um efeito claro das intervenções adotadas sobre as taxas de mortalidade, estatísticas do dia 12 de abril mostram que o índice de vítimas na Suécia representa 88 mortes por cada milhão de habitantes, ao passo que a Dinamarca registra 47 mortes por milhão e a Noruega 24 mortes em um milhão. Na Finlândia o índice é ainda mais baixo, com dez mortos por um milhão de habitantes.

Com base no painel mundial de dados da Johns Hopkins University sobre a Covid-19, os cálculos comparativos entre os países nórdicos são do especialista brasileiro Antonio Ponce de Leon, professor titular de Estatística e Epidemiologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor visitante regular do Instituto Karolinska da Suécia.

A partir de uma perspectiva científica, Paul Franks avalia que os países nórdicos podem ser um laboratório poderoso para a comparação entre diferentes estratégias de combate à pandemia - dadas as semelhanças culturais, econômicas, políticas e demográficas entre Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. "Não houve até agora nenhuma catástrofe absoluta na Suécia em termos de fatalidades. Mas pode-se argumentar que seria possível salvar mais vidas", ressalta Franks. A taxa de transmissão do vírus é importante - uma vez que quanto mais rápido ele se espalha, mais condensado será o índice de mortalidade e mais alto será o pico de sobrecarga que os hospitais terão que enfrentar.

O objetivo central das políticas para a supressão da epidemia é minimizar o número de internações hospitalares diárias e manter o funcionamento operacional do sistema de saúde. Quando a sobrecarga excede a capacidade, os hospitais entram em colapso. Por isso, todos os países nórdicos conduziram simulações detalhadas para estimar até que ponto os hospitais deverão estar preparados.

Segundo Franks, essas simulações mostram que os índices podem talvez se mostrar semelhantes nesses países, resultando em cerca de 528 a 544 mortes por cada milhão de habitantes. Mas ao contrário dos vizinhos, a Suécia deve enfrentar o impacto do surto mais cedo e ao longo de um período mais curto, com a maioria das mortes ocorrendo dentro de semanas, e não de meses.

É importante assinalar que os vizinhos nórdicos também estão mais bem preparados: a Suécia tem o número mais baixo de leitos de tratamento intensivo por cem mil habitantes (5.8), em comparação com a Dinamarca (6.7), Noruega (8.0) e Finlândia (6.1).

Todos os nórdicos, porém, estão menos preparados do que a Alemanha (que possui mais de 29 leitos por 100 mil habitantes) e são comparáveis à Grã-Bretanha (6.1 leitos por 100 mil habitantes). Há também críticas na Suécia em relação a equipamentos de proteção inadequados usados por profissionais de saúde, embora o fornecimento de materiais tenha sido aumentado nos últimos dias.

O país também está triplicando sua capacidade hospitalar, e o governo anunciou desde a primeira hora da crise uma rede de proteção econômica dos cidadãos, com medidas como o subsídio de até 90 por cento do salário de trabalhadores afastados dos empregos. "Se a estratégia da Suécia se provar correta e o sistema hospitalar não se aproximar do colapso, os demais países nórdicos deverão por sua vez constatar que a pressão sobre seus hospitais se dará dentro dos limites da sua capacidade. Mas caso contrário, os profissionais de saúde da Suécia vão enfrentar a batalha de suas vidas", adverte Paul Franks.

Argumentos contra o isolamento horizontal

Mas há também fortes argumentos a favor da estratégia sueca, pondera o cientista Paul Franks. A pressão psicológica exercida sobre as pessoas em quarentena pode ser considerável. Os efeitos da restrição intensiva da liberdade de circulação de pessoas também diminuem ao longo do tempo, à medida em que a desobediência social aumenta.

Existem ainda numerosos argumentos de teor econômico. "Implementar medidas de contenção mais brandas, como fez a Suécia, e que têm sido respeitadas pela maioria dos cidadãos, pode ser mais eficaz do que intervenções mais rígidas que são desprezadas com frequência por cidadãos", nota o especialista.

Existe ainda o risco permanente de ressurgimento da epidemia, até que possa ser atingida a imunidade coletiva. "A Suécia deve atingir a imunidade de grupo mais rapidamente, e portanto é possível que o país venha a ter menos surtos novos do vírus em relação a seus vizinhos nórdicos", diz Franks. Resta saber se a estratégia menos draconiana adotada pela Suécia se mostrará correta.

"Para ser moralmente justificável, penso que a estratégia mais liberal adotada pela Suécia deve proteger de forma particular os mais idosos, porque se os grupos mais vulneráveis forem contaminados, muitos vão morrer. E a Suécia não adotou todas as medidas possíveis no início da crise para proteger por exemplo os asilos de idosos, onde há disseminação do vírus", aponta Paul Franks.

Na semana passada, a rádio pública sueca Sveriges Radio afirmou que foram detectados casos de coronavírus em um terço dos asilos da capital sueca, Estocolmo. No fim de semana, o presidente americano, Donald Trump, explicou porque os Estados Unidos não seguiram o modelo sueco de combate ao coronavírus: "Se tivéssemos seguido a estratégia sueca, poderíamos ter dois milhões de mortos", disse Trump.

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