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Coronavírus

Venezuela restringe volta de cidadãos que estavam no exterior

2.mai.2020 - Homem aguarda para receber cesta básica fornecida pelo governo da Venezuela durante a pandemia do novo coronavírus - Humberto Matheus/NurPhoto via Getty Images
2.mai.2020 - Homem aguarda para receber cesta básica fornecida pelo governo da Venezuela durante a pandemia do novo coronavírus Imagem: Humberto Matheus/NurPhoto via Getty Images

Do correspondente da RFI em Caracas

06/08/2020 05h29

Diversas medidas vêm sendo aplicadas na Venezuela para conter a covid-19. Um estádio foi transformado em hospital de campanha, blocos de concreto colocados nas vias públicas limitam a circulação, festas estão proibidas e até os próprios venezuelanos estão impedidos de voltar ao país. É uma forma de frear a epidemia que já soma 21.438 casos do novo coronavírus, registrados desde março deste ano, quando a doença chegou ao país.

Sem condições para se manterem no exterior, pelo menos 42 mil venezuelanos estão em território colombiano tentando voltar ao próprio país, de acordo com Juan Fernando Espinoza, diretor da Migração Colômbia.

É na fronteira entre os dois países que centenas deles se aglomeram, aguardando a autorização para ingressar na Venezuela. No entanto, a entrada é restrita por ordem do governo de Nicolás Maduro.

Para o governo bolivariano, essas pessoas são "armas biológicas", já que poderiam elevar o número de casos de covid-19 no país. As autoridades do governo bolivariano classificam o novo coronavírus como "o vírus colombiano", como se a doença tivesse surgido no país vizinho, e não na China, um dos principais apoiadores da Venezuela.

Ao relento, com fome e sem conseguir passar legalmente pela fronteira, esses venezuelanos recorrem a "trochas", como são chamadas as vias ilegais, para voltar para casa. Às vezes, precisam pagar atravessadores ou até mesmo subornar integrantes da Guarda Nacional Bolivariana para poder pisar de novo no país em que nasceram.

Estes venezuelanos são recriminados e chamados pejorativamente de "trocheros". Caso sejam pegos na Venezuela, são levados presos por ordem do governo. Para o bolivariano Freddy Bernal, protetor de Táchira, estado na fronteira com a Colômbia, os "trocheros" são "terroristas biológicos". Até o momento, pelo menos 21 "trochas", as passagens irregulares na fronteira colombo-venezuelana, foram destruídas.

Entre as medidas restritivas, Maduro afirmou recentemente que é preciso "parar o tema dos "trocheros", que contaminaram o país". Números divulgados pelo governo apontavam que havia mais casos "importados" de contaminação do que de transmissão comunitária. Atualmente essa proporção se inverteu. Nas últimas horas foram registrados 632 casos de transmissão comunitária e apenas 52 importados.

Perseguição contra os "trocheros"

Para identificar e buscar os "trocheros", foi criado um email. Por meio desse endereço, são feitas denúncias anônimas informando o nome e o paradeiro desses venezuelanos que retornam de maneira ilegal ao próprio país.

No incentivo à delação está o alerta: "lembre-se que a saúde de todos está em jogo por culpa de irresponsáveis que violam pontos de controle epidemiológico no país. Denuncie!" Maduro afirmou em rede nacional que mais de mil "trocheros" foram encontrados em todo o país.

Soledad García, relatora da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, considera que classificar como "trocheros e apátridas" os venezuelanos que tentam voltar ao país "agrava a situação de vulnerabilidade dos migrantes".

São as Brigadas de Prevenção Popular que fazem as buscas, indo aos endereços denunciados para capturar quem voltou ao país de maneira ilegal.

No melhor dos casos, eles são levados a albergues ou hotéis habilitados pelo governo, onde ficam em observação por até 14 dias. No entanto, há denúncias de que nesses centros de acolhimento faltam água e colchões, e a comida é limitada.

Outros cidadãos capturados não têm a mesma sorte. Cerca de 13 "trocheros" foram processados e deverão cumprir entre seis e dez anos de prisão. De acordo com o Observatório Venezuelano de Prisões, nos últimos dias cerca de 49 detentos foram detectados com a Covid-19.

É proibido se contaminar

A Direção de Manutenção da Ordem Interna da Guarda Nacional Bolivariana, braço das Forças Armadas, lançou uma advertência. O funcionário que por "negligência" for contaminado com a covid-19 terá um procedimento administrativo aberto e será severamente punido.

Há algumas semanas, pelo menos 160 militares testaram positivo para o novo coronavírus. Cerca de 12 integrantes da cúpula do chavismo, entre eles Diosdado Cabello estão contaminados. Esta semana o vice-almirante Luis Somaza Chacón morreu em decorrência do vírus.

Para receber infectados, o governo bolivariano adaptou, com 1.200 camas, o Poliedro de Caracas, uma espécie de Maracanãzinho, onde eram realizados shows, jogos e os concursos do Miss Venezuela. Como chefe deste hospital de campanha foi designado o ex-jogador de beisebol e cantor Antonio Álvarez, mais conhecido pelo apelido de Potro Álvarez.

É obrigatório o uso de máscaras nas ruas do país. No estado de Miranda, que engloba a Grande Caracas e onde estão boa parte dos infectados, esta semana foi instaurado um rodízio. É preciso obedecer o dia da semana determinado pelo final numérico da carteira de identidade para poder ir aos supermercados.

Em Caracas, nos bairros com maior número de infectados, foram colocados blocos de concretos nas ruas para impedir a circulação de veículos e dificultar o trânsito de pessoas. Em todo o país estão proibidas reuniões, sob pena de prisão. No último fim de semana, cerca de 140 pessoas foram presas em flagrante ao participarem de festas clandestinas.

Para a primeira-dama, Cília Flores, "é preciso assumir a quarentena como forma de vida".

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