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A 156 dias da Olimpíada, Japão inicia vacinação contra covid-19 em meio à desconfiança da população

Profissional da saúde recebe dose da vacina da Pfizer/BioNTech contra covid-19 no Hospital Chiba Rosai em Ichihara, no Japão - Kazuhiro Nogi/AFP
Profissional da saúde recebe dose da vacina da Pfizer/BioNTech contra covid-19 no Hospital Chiba Rosai em Ichihara, no Japão Imagem: Kazuhiro Nogi/AFP

Juliana Sayuri

Correspondente da RFI no Japão

17/02/2021 06h00

O Japão iniciou a campanha de vacinação contra covid-19 na manhã de hoje. Até o fim de fevereiro, devem ser imunizados cerca de 40 mil profissionais diretamente envolvidos no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Último país do G7 (grupo das nações mais industrializadas do mundo) a iniciar a imunização, o Japão aprovou a vacina desenvolvida pelo laboratório norte-americano Pfizer em parceria com a empresa alemã BioNTech no último domingo (14). O primeiro lote, contendo cerca de 400 mil doses, já desembarcou no país.

O governo assegurou a compra das duas doses suficientes para os 126 milhões de habitantes do país: 72 milhões da Pfizer/BioNTech, 60 milhões da AstraZeneca/Oxford e 25 milhões da Moderna. As vacinas elaboradas por AstraZeneca e Moderna ainda estão no processo de aprovação no arquipélago.

Segundo o calendário divulgado, depois desta primeira fase de fevereiro serão vacinados 3,7 milhões de profissionais de saúde a partir de março, 36 milhões de idosos a partir de abril, 8,2 milhões de indivíduos de grupo de risco e 2 milhões de profissionais de instituições dedicadas a idosos depois de abril - totalizando, portanto, cerca de 50 milhões de habitantes, o equivalente a 40% da população até maio.

Em data indefinida, na sequência serão imunizados indivíduos de 16 a 64 anos. Crianças e adolescentes de até 16 anos não estão contemplados no calendário. Residentes estrangeiros estão incluídos na campanha, seguindo o mesmo cronograma estipulado aos cidadãos japoneses.

Após as 20 mil primeiras injeções neste mês, priorizadas para médicos e enfermeiros de 100 hospitais, o governo pretende divulgar detalhes sobre a eficácia e os efeitos colaterais da vacina, que é gratuita, mas não é obrigatória.

Campanha de informação

O governo também pretende realizar uma campanha de informação para encorajar a imunização, visto que, historicamente, a sociedade japonesa tem certa resistência à ideia.

Em janeiro, o primeiro-ministro Yoshihide Suga, de 72 anos, disse que "daria o exemplo" e estaria entre os primeiros a tomar a vacina.

Em fevereiro, o ministro Taro Kono, de 58 anos, responsável pela campanha de vacinação, endossou a importância do imunizante como "a melhor arma" no combate ao novo coronavírus. "Esperamos que muitas pessoas se vacinem com a compreensão dos benefícios e dos riscos", declarou.

No entanto, segundo uma pesquisa da empresa britânica Ipsos Mori com 13 mil pessoas em 15 países, divulgada no fim de janeiro, os japoneses estão entre os mais hesitantes quanto às vacinas contra a covid-19: 17% declararam desejar firmemente tomar a vacina, um percentual bastante baixo se comparado a 66% no Reino Unido e 68% no Brasil. Na França, foram 29%.

No Japão, 62% manifestaram preocupação com os efeitos colaterais dos imunizantes, 32% não confiam na eficácia e 7% são contra todo tipo de vacinas.

De acordo com a última pesquisa da agência japonesa Kyodo News, divulgada no dia 7, 63,1% dos entrevistados querem ser vacinados, enquanto 27,4% não querem.

A vacina da Pfizer/BioNTech, a primeira a ser administrada no Japão, registrou 94% de eficácia geral, segundo dados preliminares de um estudo desenvolvido em Israel, o país que lidera a imunização contra a covid-19 no mundo todo. Até agora, foram registrados efeitos colaterais comuns, mas leves, como dor no braço (84%), cansaço (63%) e dor de cabeça (55%), indicou um levantamento feito pela FDA nos Estados Unidos.

Impasses de logística

Iniciada a campanha de imunização, o Japão pode enfrentar uma série de obstáculos: receber as doses dos fabricantes (que têm alta demanda no mundo todo), armazená-las adequadamente, distribuí-las para as províncias, que vão repassá-las aos municípios e, enfim, engajar a população para se vacinar.

Nos próximos dias, o governo divulgará detalhes sobre a distribuição das doses nas 47 províncias japonesas - 10 delas sob estado de emergência desde janeiro, decretado devido à disparada de casos de covid-19 e das pressões no sistema de assistência médica desde dezembro.

As cidades deverão fornecer informações e emitir notificações individuais aos residentes sobre as instituições médicas que vão administrar as vacinas, a elegibilidade e a ordem de prioridade dos residentes.

Os lotes de vacinas devem ser armazenados em freezers especiais em torno de 75°C negativos e, se retirados, devem ser mantidos refrigerados e utilizados no prazo de cinco dias. Em dezembro, o governo anunciou que iria adquirir 10,5 mil ultracongeladores, mas depois não divulgou mais informações sobre a chegada dos equipamentos especiais.

Outro impasse de logística é a falta de seringas especiais para maximizar o número de doses da vacina da Pfizer/BioNTech: cada frasco pode render seis injeções, mas a sexta e última só é possível se for utilizada uma seringa diferente, com êmbolos estreitos.

Se a sexta injeção ficar de fora das contas, pode-se desperdiçar 24 milhões de doses, que poderiam imunizar 12 milhões de pessoas. "Ainda estamos tentando garantir essas seringas especiais", disse o secretário-chefe de gabinete do governo, Katsunobu Kato.

Imunizar a população é uma prioridade do governo japonês, determinado a realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio, cuja abertura está marcada para 23 de julho.

Entretanto, segundo a mais recente pesquisa da NHK, 16% dos entrevistados apoiam o calendário previsto para os Jogos, 39% defendem remarcá-los novamente e 38% cancelá-los de vez.

Diante da demora para iniciar a imunização, os impasses logísticos para implementá-la, a resistência da sociedade japonesa a aderir à campanha e a expectativa de Olimpíada, teme-se um agravamento da pandemia no país que, até agora, contabiliza 418 mil casos (23,5 mil deles ativos) e 7,1 mil mortes.

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