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Bolsonaro joga para sua plateia e prejudica Brasil, dizem especialistas

Presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto - Ueslei Marcelino/Reuters
Presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Raquel Miura

Correspondente da RFI em Brasília

06/05/2021 09h37Atualizada em 06/05/2021 11h39

O Brasil está de joelhos implorando por vacinas contra o novo coronavírus e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mais uma vez usou o microfone para levantar teorias da conspiração e tirar o foco do caos sanitário e das apurações na CPI da Covid.

Ontem, Bolsonaro chegou a sugerir uma guerra química como uma hipótese para explicar a pandemia e disse que o país de origem do vírus é o que tem registrado maior crescimento do PIB hoje.

"Considero que as declarações do presidente Bolsonaro, falando que o vírus nasceu na China e que isso favoreceu aquele país, criam óbices diplomáticos. E para o Brasil isso não é nada favorável, porque o Brasil é grande dependente dos insumos, principalmente para a vacina neste momento", afirmou à RFI Brasil o analista internacional Alexandre Uehara, da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

"Já tivemos problemas com isso, apesar de haver declarações do governo chinês e do governo brasileiro de que o atraso no envio dos insumos não foi por causa de problemas diplomáticos, mas na verdade a gente entende que sim. Portanto as declarações não contribuem em nada para as relações entre o Brasil e a China ", completa.

Para Uehara, o mal-estar constante com ataques do clã Bolsonaro à China pode trazer prejuízos não apenas com relação à vacina contra a covid-19, mas também a produtos importantes da nossa balança comercial.

"Hoje o Brasil tem na China o principal mercado para minério de ferro, soja e petróleo. E são três produtos que são exportados também por outros concorrentes", lembra.

"Não havendo boa vontade por algum motivo, a China pode deixar de importar do Brasil. No caso do ferro, por exemplo, tem a Austrália, perto da própria China. No do petróleo tem todo o Oriente Médio. E no caso da soja tem os Estados Unidos, que pelo acordo fechado com Donald Trump, era para a China importar dos Estados Unidos, o que impactaria a nossa balança comercial de maneira bastante negativa", conclui.

Não foi apenas sobre a China as polêmicas lançadas pelo presidente esta semana. Ele também mandou recados, de cunho autoritário, ao Supremo Tribunal Federal ao mencionar que poderá assinar um decreto que impede o fechamento de templos e comércio determinado por alguns governadores e prefeitos, e que não aceitará ser barrado pelo Judiciário.

"Peço a Deus que não tenha que baixar esse decreto, mas, se baixar, ele será cumprido, com todas as forças que todos os meus ministros têm. E não será contestado esse decreto. Não ouse contestar, quem quer que seja", afirmou o presidente.

'Eu autorizo'

No último fim de semana, um grupo de manifestantes pró Bolsonaro entoou o grito "eu autorizo", que deixa no ar a sugestão de uso da força para um golpe antidemocrático.

O cientista social Robson Savio Reis Souza, da PUC Minas, avalia como bravata a ameaça a instituições democráticas com uso das Forças Armadas, mas com impacto grande na base fiel do presidente, que faz muito barulho nas redes sociais.

"O presidente Bolsonaro sempre utiliza uma estratégia de tensionamento social, principalmente para manter mobilizada a sua base de apoio mais radical, os setores ligados à extrema direita. Esse discurso de sempre estar ameaçando as instituições, o próprio Supremo, acaba tendo uma repercussão junto a esses segmentos que formam sua base de apoio social", diz Souza.

Souza diz que Bolsonaro construiu um discurso como se ele fosse o único herói capaz de combater o inimigo, na tentativa de permanecer no poder.

"É um discurso muito potente para sinalizar a seus apoiadores que ele está no comando, que ele decide, que ele é uma espécie de salvador que vai resolver os grandes problemas do Brasil", salienta.

"Então boa parte desses discursos, sob o ponto de vista das instituições da democracia, são meras bravatas. Mas eles acabam tendo uma grande função de mobilização dessas bases sociais e de movimentos que o bolsonarismo faz nas redes sociais, onde há um grande engajamento desses grupos", ressalta.

No meio político muitos veem a artilharia de Bolsonaro como tentativa de desviar os holofotes dos trabalhos na CPI do Senado. Encaixa-se nesse ambiente de apreensão, especialmente com interrogatórios de pessoas próximas ao presidente, o pedido do Exército para que o depoimento do general Eduardo Pazuello fosse adiado.

Depois de andar sem máscara em shopping, o general e ex-ministro agora alega que teve contato com pessoas que tiveram resultado positivo para a covid-19, e por isso não participou da audiência marcada para essa última quarta-feira. A oitiva ficou para o dia 19 de maio. Antes deles estão previstos, entre outros, fabricantes de vacinas como a Pfizer e o ex-chanceler Ernesto Araújo.

Os ex-ministros que falaram esta semana, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, destacaram a pressão do governo por remédios sem eficácia.

"Obviamente eles estando numa CPI, estão de certa forma cautelosos em relação àquilo que dizem, porque tudo pode ser eventualmente averiguado. Mas há um conjunto de informações, tanto do ex-ministro Mandetta como do Teich, que deixam claro que quem interferia e mandava ao fim e a cabo nas ações do Ministério da Saúde durante todo o período era e é o Bolsonaro", destacaram.

"E ele simplesmente fazia do ministro da Saúde um preposto do que era seu entendimento, sobre o que é política de saúde, sobre o que é a pandemia. Bolsonaro interferia o tempo todo no Ministério da Saúde, assim como ele faz em outros tantos ministérios, principalmente para agradar suas bases fundamentalistas e radicais da sociedade. Não à toa ficou famosa aquela frase do ex-ministro Pazuello, que disse que Bolsonaro mandava e ele, obedecia".

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