Opinião: Merkel não quer ser a "última defensora do Ocidente liberal"

Anna Sauerbrey*

Em Berlim (Alemanha)

  • Tobias Schwarz/AFP

Ela está concorrendo de novo. A chanceler Angela Merkel anunciou que liderará novamente seu partido, a União Democrata Cristã, na eleição nacional da Alemanha em setembro do ano que vem. Se o partido vencer, ela conquistará um quarto mandato, dirigindo um país cada vez mais tomado pelo populismo e xenofobia.

Mas ao iniciar a batalha, ela também, de certo modo, a encerrou. Hillary Clinton transformou sua campanha em uma defesa dos Estados Unidos contra os males do populismo e do nacionalismo retrógrado. Merkel fingirá que não existe essa guerra. Como sua campanha, iniciada há apenas uma semana, já deixou claro, ela fará tudo o que puder para evitar se posicionar contra ideologias ou a favor delas. E essa pode ser uma medida bastante inteligente.

Após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, comentaristas e autores de políticas na Alemanha se mantiveram ocupados criando quadros exagerados sobre as futuras dificuldades eleitorais europeias. Nessas "Ölschinken" (uma palavra alemã intraduzível para pinturas a óleo kitsch), a eleição nacional alemã é retratada como parte da Grande Guerra de nosso tempo, a próxima batalha entre o cosmopolitismo liberal e o nacionalismo, assim como as eleições na Áustria, França e Holanda. Apesar de haver uma verdade nessa visão apocalíptica, quanto mais dramático for o jogo de luz, pior será para a política liberal.

É fácil dizer que os eleitores estão furiosos. Na verdade, eles estão cansados. Estão cansados da ortodoxia de que a globalização (com sua migração em massa, fuga de salários e desindustrialização) é inevitável. O que mais assustou os alemães durante grande parte de 2015, quando 10 mil refugiados chegavam por dia e as cidades corriam para transformar ginásios de escolas em abrigos temporários, foi a sensação de perda do controle, e a mensagem de seus líderes de que qualquer coisa que não fosse uma aceitação serena representava racismo.

Assim como nos Estados Unidos, políticos populistas despontaram, propondo suas próprias versões do muro de Trump, apesar de que, na Europa atual, essas ideias são ainda mais extravagantes. O brilhantismo de Merkel está em ver uma terceira opção, descartar as ideologias de ambos os lados e buscar um meio-termo pragmático.

Isso significa, por exemplo, desenvolver leis de imigração significativas e benefícios sociais e programas de treinamento para os alemães que perderam seus empregos para trabalhadores na Romênia ou em Bangladesh; uma política externa europeia mais ativa para impedir ou conter futuras crises; e acordos de livre comércio transparentes.

Essa reconciliação também significa abandonar a linguagem de batalha. Em 2015, os alemães foram rápidos em trocar sua penitência pós-Hitler pela superioridade moral. Comentaristas e autores de políticas progressistas careciam da compaixão para ver qualquer outro lado que não o seu próprio e permitiram à extrema-direita retratar ações de caráter humanitário como sendo um projeto impossivelmente caro da elite.

Mesmo agora, após Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia, comentaristas elogiam Merkel (além de gerarem expectativas) como a última líder forte do Ocidente liberal contra as forças das trevas.

Mas a estratégia de campanha dela parece ser abafar esse tipo de conversa, sem rejeitar o compromisso dela com os valores liberais. Em um discurso na semana passada no Bundestag (o Parlamento alemão), ela apresentou uma lista irritantemente abrangente de coisas que o país precisa tratar, da educação à consolidação do orçamento, apenas para cair em um compromisso claro, porém pragmático, com a globalização e com a necessidade de a Alemanha assumir responsabilidade no mundo: "Digo, precisamos partir para esforços coletivos, para multilateralismo. Temos que tentar moldar a globalização juntamente com outros. É isso o que defendo."

Merkel é conhecida por ser alérgica a emoção e grandes discursos. Ela não quer ser a "última defensora do Ocidente liberal", um título que lhe foi dado pelo "New York Times" e repetido extensamente na Alemanha e além. Ela quer ser vista como a administradora meticulosa da segurança e prosperidade da Alemanha, a Angela Merkel que seus eleitores gostavam tanto antes de se voltarem contra ela em 2015.

Sua forte posição de aceitação de centenas de milhares de refugiados foi louvável, mas a prejudicou politicamente. Antes epítome do amplo consenso pós-ideológico alemão, Merkel rapidamente se transformou na figura mais polarizadora da Alemanha. Após a onda de ataques sexuais no Ano Novo em Colônia e outras cidades, atribuídas a imigrantes recentes, sua popularidade despencou, com apenas 46% dos eleitores dizendo que esperavam que ela se candidatasse de novo.

O tempo e a diminuição da imigração parecem ter melhorado suas perspectivas. Na semana passada, 64% dos eleitores entrevistados disseram estar felizes por ela ter decidido concorrer para um quarto mandato. Mas agora ela enfrentará ataques da extrema-direita e precisará mostrar aos eleitores que o voto deles é merecido.

Não será fácil. A Europa está se voltando contra si mesma; crises políticas e econômicas podem estourar na Itália, Reino Unido e França. Ela precisará ser criativa em suas políticas em resposta, uma qualidade pela qual ela não é conhecida.

Mas quem fora ela, tão hábil em se chegar a um meio-termo, a rainha do antidrama, poderia voltar a unir a Alemanha? E que país, a não ser a Alemanha, lar da economia social de mercado, poderia ser um melhor lugar para desenvolvimento de um roteiro para o progressismo social, para uma forma pragmática, contida, de abraçar a globalização?

As políticas liberais progressistas sobreviverão ao ressurgimento do populismo apenas se os liberais progressistas abrirem mão de sua reivindicação de superioridade moral e das políticas elitistas. A eleição de 2017 tratará da reconciliação da Alemanha com a globalização, do casamento de políticas progressistas com posições conservadoras. Deve se tratar do fim da Grande Guerra. Essa pode provar ser a única forma de vencê-la.

*Anna Sauerbrey é editora da página de opinião do jornal "Der Tagesspiegel"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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