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Cocô de aves marinhas pode valer milhões de dólares, diz estudo da UFG

Dejetos produzidos por algumas aves marinhas podem valer milhões de dólares - Getty Images/EyeEm
Dejetos produzidos por algumas aves marinhas podem valer milhões de dólares Imagem: Getty Images/EyeEm

Do UOL, em São Paulo

06/08/2020 14h27

Dejetos produzidos por algumas aves marinhas — em outras palavras, o cocô de gaivotas, pelicanos e pinguins — podem valer milhões de dólares, de acordo com estudo conduzido na UFG (Universidade Federal de Goiás) apresentado hoje em matéria da CNN norte-americana.

Considerando que a fonte dessa riqueza é inesgotável, isso pode se traduzir em cerca de meio bilhão de dólares ao ano, ou o equivalente a R$ 2,6 bilhões, segundo um novo artigo publicado na revista Trends in Ecology & Evolution, assinado por pesquisadores brasileiros.

Isso ocorre porque as fezes das aves marinhas, também conhecidas como guano, podem ser usadas como fertilizante comercial e são vitais para a contribuição de nutrientes aos ecossistemas marinhos.

Importância "traduzida" para público em geral

Em um esforço para aumentar a conscientização sobre a importância das aves marinhas e conservar seus habitats, os cientistas se propuseram a quantificar as contribuições das aves marinhas e ilustrar o custo real do declínio de suas populações, valorizando seus resíduos.

"A produção de guano é um serviço ecossistêmico feito por aves marinhas sem nenhum custo para nós. Posso ir a uma ilha, coletar o guano e vendê-lo a preço de mercado como fertilizante", disse o coautor do estudo Marcus V. Cianciaruso, professor de ecologia da UFG.

"Como existe essa importância científica e biológica, é possível quantificar os serviços dos ecossistemas de aves marinhas em um idioma que o público em geral e os formuladores de políticas possam começar a entender".

Embora apenas algumas espécies de aves marinhas produzam guano atualmente comercializado no Peru, Chile e outros países, o desperdício de outras aves contribui com nutrientes vitais para os ecossistemas marinhos e também é importante para as economias costeiras.

As funções corporais das aves marinhas são a maneira natural de bombear nutrientes "entre os habitats marinho e terrestre", descrevem Cianciaruso e o co-autor Daniel Plazas-Jiménez, estudante de doutorado na universidade.

"Elas liberam altas concentrações de nitrogênio e fósforo através de suas fezes, causando importantes mudanças ambientais nesses ecossistemas", segundo o estudo.

Nos ecossistemas de recifes de coral, os nutrientes depositados no guano podem aumentar a biomassa dos peixes de recife — uma medida do número de peixes em um recife e seu tamanho — em até 48%, de acordo com a pesquisa. Isso é importante para a pesca e o turismo em lugares como Caribe, sudeste da Ásia e a Grande Barreira de Corais, na Austrália.

Os pesquisadores estimaram o valor anual do nitrogênio e fósforo depositado nesses ecossistemas pelo cocô de aves marinhas calculando o custo para substituí-los por nutrientes artificiais.

"Fizemos uma estimativa muito conservadora de que 10% dos estoques de peixes nos recifes de coral dependem de nutrientes das aves marinhas", disse Plazas-Jiménez. "De acordo com as Nações Unidas e o governo australiano, o retorno econômico anual da pesca comercial nos recifes de coral é superior a US$ 6 bilhões. Portanto, 10% desse valor é de cerca de US$ 600 milhões por ano."

"No entanto, como as espécies de aves marinhas estão fortemente ameaçadas, essa função [deposição de nutrientes] também está ameaçada", disse Plazas-Jiménez à CNN.

"Para enfrentar essas ameaças, é necessário que o público em geral, os setores econômicos e os formuladores de políticas se envolvam na conservação das aves marinhas."

Muito mais do que cocô

Os pesquisadores da Universidade Federal de Goiás também observaram que as aves marinhas oferecem muito mais do que funções corporais.

O turismo e a observação de aves são indústrias cada vez mais importantes em muitas partes do mundo, e o valor das contribuições das aves marinhas para os ecossistemas marinhos aumentaria ainda mais se todas as outras funções em nossos ecossistemas fossem quantificadas.

"Em algumas áreas, os pescadores seguem aves marinhas para encontrar lugares para pescar", disse Plazas-Jiménez. "Para esse pescador, as aves marinhas são tudo."