Governo e oposição se preparam para início do diálogo na Venezuela

CARACAS, 09 Abr 2014 (AFP) - O governo e a oposição da Venezuela preparam para esta quinta-feira a primeira sessão de um diálogo de paz que contará com a observação de representantes da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Vaticano, após dois meses de protestos que já deixaram 39 mortos.

O governador do estado de Miranda (norte) e líder opositor Henrique Capriles confirmou que irá à reunião, pouco depois de o governo do presidente Nicolás Maduro ter convidado formalmente o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, para ser "testemunha de boa-fé" durante as conversas.

"Digo isto ao nosso povo: vou amanhã (quinta) para defender a verdade, porque com a verdade não temo, nem ofendo. Se quiser abrir este espaço, vamos lá", afirmou o governador Capriles, em um ato público.

Na véspera, em um inédito encontro entre Maduro e a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), divulgado pelos chanceleres da Unasul, ficou acertado o início da nova tentativa de diálogo. O encontro deve ser transmitido por todos os meios de comunicação.

"Todos vejam a rede (a transmissão), porque eu lhes asseguro que, se essa reunião for no (palácio presidencial de) Miraflores, quando for nossa vez de falar, tremerá em Miraflores, porque diremos a verdade ao governo para que o país abra os olhos", disse Capriles, que faz parte da ala moderada da MUD.

Durante os protestos, o líder opositor se empenhou em criticar a gestão de Maduro na crise econômica, com a inflação mais alta da América do Sul e a escassez de produtos básicos, assim como a violência no país. Esses problemas se tornaram parte da agenda das manifestações.

"A verdade é que as coisas não vão bem, e aqui precisa ter uma mudança", afirmou Capriles, derrotado por Maduro nas eleições de 14 de abril de 2013, por uma apertada margem de 1,5% dos votos.

Essa foi a menor diferença entre a oposição e o chavismo em uma eleição nos últimos 15 anos.



- Representante do Vaticano estará presente - Nesta quarta, o governo venezuelano também convidou formalmente o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, para que seja "testemunha de boa-fé" do diálogo, junto com os chanceleres de Brasil, Colômbia e Equador, conforme combinado na reunião preparatória de terça-feira.

"Desejamos transmitir o convite do presidente Nicolás Maduro a Sua Santidade, o papa Francisco, com o propósito de que participe dos processos de diálogo entre representantes do governo e da oposição venezuelana, por intermédio da designação de sua pessoa como testemunha de boa-fé", declara o chanceler Elías Jaua em carta enviada a Parolin.

Parolin foi núncio na Venezuela antes de assumir como secretário de Estado. Sua presença na reunião foi uma das condições acertadas entre governo e oposição.

Na agenda a ser discutida, a MUD incluiu uma anistia para libertar pelo menos 100 pessoas detidas ao longo dos dois meses de manifestações. A oposição também espera que o governo aceite o "desarmamento sob supervisão internacional" dos chamados "coletivos", os grupos civis identificados com o governo.

Na terça à noite, Maduro deixou clara sua rejeição a ambos os pontos. "Aqui vai ter justiça, não vai haver impunidade. Tenham certeza disso (...) é a única forma de haver paz", disse ele sobre o pedido de anistia.

Sobre os "coletivos", o presidente negou que estejam armados e insistiu em denunciar uma campanha de desprestígio.

Como prioridades do governo, Maduro antecipou que proporá a retomada da luta contra a criminalidade e o estímulo a um plano de desenvolvimento econômico.

Esse primeiro acordo MUD-governo foi rejeitado por um setor da oposição, principalmente, do partido Vontade Popular. Seu líder Leopoldo López está preso há quase dois meses, acusado de promover a violência nas manifestações.

Os protestos da oposição começaram em 4 de fevereiro, por iniciativa de estudantes de San Cristóbal, no estado de Táchira (oeste), e se espalharam por várias cidades no país.



- Brasil agiu nos bastidores para promover diálogo - O chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, que está em Caracas, revelou nesta quarta-feira que Brasília realizou uma ação discreta mas eficiente, durante meses, para promover o diálogo na Venezuela.

"Estou satisfeito com o fato de que meses de ação do governo brasileiro, realizada de maneira discreta mas contínua, tenha rendido frutos, no sentido de que tanto o governo quanto a oposição pediram ao Brasil que fosse um dos facilitadores do diálogo", disse Figueiredo.

O chanceler brasileiro está em Caracas como membro da missão da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para promover o diálogo, ao lado de seus homólogos de Colômbia, María Angela Holguín, e Equador, Ricardo Patiño.



- Eleição para substituir prefeitos destituídos - O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) convocou nesta quarta eleições para o dia 25 de maio nos dois municípios onde os prefeitos opositores foram destituídos sob a acusação de negligência durante os protestos contra Maduro.

As eleições ocorrerão nos municípios de San Diego, no Estado de Carabobo, e em San Cristóbal, no Estado de Táchira, após as destituições dos prefeitos opositores Enzo Scarano e Daniel Ceballos, respectivamente.

Os dois prefeitos foram condenados a 10 meses e um ano de prisão, respectivamente, por não impedir a violência durante os protestos em suas cidades.

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