Topo

CarnaUOL

Blocos de rua


Foliões de festa liberal de SP se preparam para 'Carnaval da resistência'

Foliões se divertem na festa Pilantragi - João Castellano/UOL
Foliões se divertem na festa Pilantragi Imagem: João Castellano/UOL

Anahí Martinho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/01/2019 18h29

Sob o coro de "ele não", o  DJ soltou "Like a Prayer", da Madonna, na pista externa da Casa das Caldeiras, na zona oeste de São Paulo, neste domingo (20).

Maiôs coloridos, bolhas de sabão, purpurina e muito beijo na boca davam o tom da festa Pilantragi, evento já tradicional entre o público liberal e majoritariamente LGBT da capital paulista.

Nem Jair Bolsonaro na presidência nem João Dória no governo do Estado parecem intimidar os foliões que se preparam para o Carnaval de rua de São Paulo. O espírito geral é de celebração da diversidade, enfrentamento da repressão e resistência.

"A festa vai continuar. Vai ser uma festa bonita de qualquer forma. E de resistência, acima de tudo", aposta Everton Menezes. "O folião é quem manda no Carnaval. O folião é quem faz a festa, independente do governo. E fazer festa, o brasileiro sabe fazer até nas piores situações. A criatividade surge do caos."

Na mesma linha otimista, o produtor Ítalo Clarindo acredita que a festa servirá para marcar um contraponto à repressão moral.

"A gente vive tempos difíceis, mas vamos resistir. O Carnaval representa exatamente o oposto do 'Coiso'. É sobre liberdade, é sobre ser livre, beijar menino, beijar menina. Quem é dos nossos vai se sentir mais livre. E quanto mais livre, mais você se opõe ao senso comum. Quero que o Carnaval tenha um viés de oposição", aposta.

Medo de opressão

Beijar menino e beijar menina está liberado no espaço fechado de festas como a Pilantragi, mas nos blocos de rua, a situação pode não ser tão favorável. Há quem prefira conter seus impulsos amorosos, com medo de sofrer opressão nas ruas. "Vou paquerar no bloco, mas beijar só lá em casa", brinca André Gomes.

A ameaça principal não é o governo, em si, mas o clima de ódio e moralismo ideológico. Andar sempre em grupos é palavra de ordem, principalmente entre mulheres e LGBTs.

Banho de espuma foi uma das atrações da festa -  João Castellano/UOL
Banho de espuma foi uma das atrações da festa
Imagem: João Castellano/UOL

"Vai ter repressão, mas vamos lutar contra", aposta a foliã Ana Borges. Já seu amigo Gabriel Guratti acredita que a união entre minorias fará da festa ainda mais especial.

"Justamente por causa dele [Bolsonaro] é que este vai ser o melhor Carnaval!", se entusiasma. O amigo Bruno Ferreira endossa: "A minha esperança é de que seja incrível. Vai ser para jogar na cara deles".

Já a funcionária pública Mariana Cury sente que a tensão moral pode atrapalhar a folia. Para ela, é preciso ocupar os espaços públicos e ampliar a dose de resistência.

"Com esse governo, não dá para ter boas perspectivas de nada. A gente só espera que as pessoas possam sair na rua e se divertir, porque esse é o intuito do Carnaval. A população tem que começar a ocupar as ruas, ocupar o espaço público", defende.

Uma das atrações da Pilantragi, o DJ Tiago Costa afirma que tem notado uma energia de resistência e união nas festas em que toca samba, funk e "brasilidades" em geral.

O ator Ronaldo Saad concorda: "As pessoas estão mais unidas, as festas estão mais intensas. Quanto mais eles pressionam a gente, melhores são as festas. Será o Carnaval da resistência", completa.

Mais Blocos de rua