PUBLICIDADE
Topo

Blocos de rua

Primeira a abraçar LGBTs, banda Redonda celebra 45 anos embaixo de chuva

Foliões curtem Banda Redonda na noite de segunda-feira - Nelson Antoine/UOL
Foliões curtem Banda Redonda na noite de segunda-feira Imagem: Nelson Antoine/UOL

Carlos Minuano

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/02/2019 11h37

Conhecida por sua resistência nos tempos da ditadura, a Redonda, primeira banda carnavalesca de São Paulo, que celebra esse ano 45 anos de folia, teve na noite de segunda-feira (25) a garra outra vez colocada à prova. Uma forte chuva começou no exato momento que foliões se aglomeravam em torno do carro de som em frente ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet (rua Theodoro Baima, 94). 

Além da chuva, que não parecia disposta a dar trégua, dezenas de sacos cheios de água foram arremessados dos prédios. Talvez um protesto ao barulho dos foliões, que insistiam em seguir com o Carnaval, mesmo numa segunda-feira com o tempo fechado e logo após um fim de semana com muita festa pelas ruas.

A Prefeitura, segundo os organizadores da banda, até sugeriram mudar a data, para que o desfile ficasse dentro do chamado calendário oficial. Claro que a proposta foi recusada. É tradição. "Nisso não se mexe", esbraveja o vice-presidente da Redonda, o produtor cultural, Edson Lima.

Desde os seus primórdios a banda Redonda sai na segunda-feira que antecede o Carnaval por ser, na época de sua fundação, o dia de folga dos atores, que eram a maioria no grupo.

Como se não bastassem a chuva, os sacos de água arremessados, o som também demorou um tanto para ser afinado e o atraso foi inevitável. Mas nada parecia ser capaz de abalar a alegria do grupo e ninguém pareceu se importar que a entrega dos prêmios e homenagens, previstos para 19h30 terem acontecidos depois de 20h30 e que o desfile saisse após 21h. Foi uma noite de festa.

Trofeu Banda Redonda

Um dos homenageados com o trofeu Banda Redonda foi o compositor Eduardo Gudin, 68, parceiro e amigo do pai do samba paulista, Adoniram Barbosa (1910-1982).

Gudin tem no currículo algo em torno de cinco décadas dedicadas à música brasileira. Amigo também do fundador da banda Redonda, o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), ele fez questão de comparecer à festa, apesar de uma gripe repentina.

O compositor reclama da invasão quase autoritária dos trios eletricos de artistas famosos. "São Paulo está importando essas coisas". Para ele, isso aumenta a importância da Redonda, que insiste em manter a tradição do bom e velho Carnaval de marchinhas e sambas antigos.

A primeira mulher a interpretar um samba-enredo na inauguração do sambódromo do Anhembi em 1991, Maria Bernadete, 68, mais conhecida como a Tulipa Negra do Samba, também foi homenageada. Ela não conhecia a Redonda, mas afirma ter virado fã. "É o autêntico Carnaval de raiz."

A banda prestou ainda tributo a César Vieira, nome artístico de Idibal Almeida Piveta, um dos fundadores do grupo Teatro Popular União e Olho Vivo, que também atuou como advogado defendendo presos políticos durante a ditadura militar, entre os anos de 1968 e 1980. Aos 88 anos e apesar de andar com dificuldade, marcou presença na festa. "A Redonda é importante porque ela é povo e canta para o povo", declarou.

O atual presidente da Redonda, o radialista Moisés da Rocha, concorda em gênero, número e grau. Para ele, a sensação é de dever cumprido. "O povo que vem aqui faz parte de uma resistência cultural, muito importante ainda mais neste momento do país, de tantas ameaças e incertezas."

LGBTs

Além de pioneira do Carnaval de rua em São Paulo, a Redonda também foi uma das primeiras a abraçar a comunidade LGBT, que até hoje representa grande parte dos foliões da banda. A travesti Tânia Vasconcelos, 54, que acompanhou o cortejo deste ano ao lado da amiga Yasmim Finco, 39,  conta que há 30 anos não perde um desfile. Mas ela afirma que enfrentou muita repressão no passado.

"Havia ainda um rastro da ditadura, com muito preconceito e homofobia", disse a travesti. "Gosto de me fantasiar com pouca roupa, para mim Carnaval é liberdade e expressão do corpo, mas logo no meu primeiro desfile um policial me mandou ir para casa colocar mais roupa ou me levaria presa, fui, coloquei um shortinho bem curto e voltei", relembra animada.

"A ideia de acolher a comunidade LGBT vem desde o começo da Redonda", observa o vice-presidente da banda, Edson Lima. "Plínio Marcos ia pelas boates da rua Nestor Pestana chamar as travestis para o desfile, com isso criou-se uma tradição que segue até hoje, drags e travestis, por exemplo, ficam esperando no Teatro Municipal e de lá se juntam ao grupo, o mesmo ocorre nos bares da avenida São João."

Público menor

Talvez por causa da chuva, teve quem calculasse um público menor no desfile deste ano. Em anos anteriores a banda já arrastou multidões. No cortejo de 2018 foram cerca de 10 mil foliões, segundo Cleusa Thesolin, da Abasp (Associação de Bandas Carnavalescas de São Paulo). Para ela, megablocos dos fins de semana estão roubando parte do público. "Quem saiu ontem não deve estar aqui hoje."

"Estamos ainda na fase do crescer em quantidade, mas acho que devagarinho vamos ajustando para a qualidade", comenta Kiko Barros, filho de Plínio Marcos fundador da Redonda, que esteve presente no desfile desta segunda-feira. Para ele, isso não macula a virtude da banda. "A essência é essa, manter a tradição do samba paulista no Carnaval e fazer um enfrentamento a essa folia massificada que avança na cidade."  

Nesta quarta-feira, 27, tem a Banda do Candinho e Mulatas no Bixiga (Bela Vista). A concentração é de 12h às 18h e o desfile que segue até 0h começa na rua Santo Antonio, quase na esquina com a rua 13 de Maio. O desfile deste ano homenageia Martin Luther king, ícone da luta contra a descriminação racial no mundo.c

Blocos de rua