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Amaury Ribeiro Jr

Brasil é "maior lavanderia de dinheiro do mundo", diz ex-doleiro

O ex-doleiro Vinícius Claret, conhecido como "Juca Bala", em entrevista ao UOL - Amaury Ribeiro Jr/UOL
O ex-doleiro Vinícius Claret, conhecido como "Juca Bala", em entrevista ao UOL Imagem: Amaury Ribeiro Jr/UOL
Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

20/10/2020 04h00Atualizada em 20/10/2020 15h58

Ex-sócio do doleiro Dario Messer, Vinícius Claret, que assinou a colaboração premiada com o MPF (Ministério Público Federal) que originou a operação "Câmbio, Desligo", da Lava Jato, está convicto de que a falta da fiscalização do Banco Central e da Receita Federal transformou o Brasil na "maior lavanderia de dinheiro do mundo". "Enquanto não sair uma lei proibindo o pagamento de boletos por terceiros, a lavanderia vai continuar solta", afirma.

Segundo Claret, que concedeu entrevista exclusiva ao UOL no Rio de Janeiro, doleiros e todos os tipos de "lavadores" estão mandando mais do que nunca recursos para o exterior por meio de importações falsas. O suposto empresário manda o dinheiro para fora por meio dos canais legais do sistema financeiro, sob o argumento de que está importando bens, mas os bens nunca chegam ao Brasil. "Como não há um 'compliance' [checagem sobre conformidade das regras] nessas empresas, o dinheiro vai e a mercadoria nunca chega", disse o ex-doleiro.

Claret residiu no Uruguai, considerado um país que protege bastante as contas bancárias no anonimato, ligadas a empresas chamadas "Safi" (Sociedades Anônimas Financeiras de Investimento). Ele disse que a situação no Brasil não se compara com a do país vizinho. "No Uruguai, apesar de o país permitir a abertura de contas offshores [protegidas pelo sigilo] a fiscalização é muito mais rígida."

O ex-doleiro falou ao UOL em um restaurante na Barra da Tijuca na última sexta-feira (16). A duas semanas de se livrar da tornozeleira eletrônica, Claret quer esquecer o passado. Assim que terminar uma série de palestras que vem dando para procuradores da República e delegados de polícia em todo país e finalizar seu trabalho social num hospital do Rio, Claret pretende voltar ao Uruguai.

Mas voltar a operar com dólar, nem pensar, diz ele.

Claret diz se arrepender de delação

O ex-doleiro, que aos 60 anos ainda se arrisca a pegar umas ondas no surfe, quer voltar a trabalhar em sua loja de vendas de pranchas. Claret, que ficou mais de um ano preso no Uruguai, disse que foi traído por Messer, que fugiu para o Paraguai deixando-o sem dinheiro sequer para contratar advogado.

Ele disse ainda que se arrepende de ter assinado o acordo de colaboração premiada.

O Messer mandou assinar o acordo e sumiu para o Paraguai. Me dói ter entregado pessoas amigas. Mas não estou nem aí por ter ajudado a colocar o Cabral na cadeia.

Quando pessoal da Odebrecht falou, "já era tarde"

Claret argumentou que, ao ser subcontratado pelos doleiros Marcelo Chebat e Renato Chebat para transferir dólares para a Suíça, não poderia imaginar que o destino final do dinheiro tinha como objetivo lavar recursos da corrupção do ex-governador do Rio Sérgio Cabral.

"Só soubemos quando o pessoal da Odebrecht começou a falar, aí já era tarde."

Claret acredita que Cabral e os aliados do governador afastado do Rio, Wilson Witzel, podem ter usado esquemas semelhantes para lavar dinheiro.

No caso de Cabral, a Transexpert e depois a Fênixx, empresa de transporte de valores, se encarregavam de levar para o escritório de Messer o dinheiro e boletos de terceiros, comprados no mercado, a fim de ocultar a origem ilícita dos valores.

Lavando dinheiro em boletos

"Nós pagávamos esses boletos e, diante de uma comissão, fazíamos a transferência para as contas dos Chebat na Suíça. Mas o dinheiro já estava em nossas contas [no mesmo paraíso fiscal]."

Claret disse que o dinheiro obtido com o pagamento dos boletos era usado para comprar mais dólares e reais. Usada de forma pioneira por Dario Messer, a Fênixx, de acordo com as investigações do MPF, se encarregava de lavar também o dinheiro de aliados de Witzel.

Só que, em vez de usar o escritório de Messer, a própria Fênixx pagava os boletos e enviava o dinheiro por meio de offshore no Uruguai.

Enquanto não sair uma lei proibindo o pagamento de boletos por terceiros, a lavanderia vai continuar solta.

Empresas de importação de fachada

O ex-doleiro defendeu uma fiscalização mais rígida sobre os sócios das empresas de importação sediadas no Brasil. Ele lembrou que o principal doleiro delator da Operação Lava Jato, Alberto Youssef, se "apropriou" de uma empresa de importação em São Paulo só para mandar dinheiro ao exterior.

Essas supostas empresas de importação são usadas, conforme apurado pela Lava Jato, apenas para remeter o dinheiro para empresas supostamente sediadas no exterior. Ao chegar lá, o dinheiro transita por outras contas controladas por doleiros.

Ao Ministério Público Federal, a Receita argumentou que todas as cargas das empresas novas ou que envolvem grandes valores, supostamente com o material da importação, são fiscalizadas na chegada ao Brasil. O argumento não convence Claret. "Essas pequenas empresas, mediante o pagamento de uma taxa, na verdade importam por meio de empresas que têm uma cota maior de importação", disse o ex-doleiro.

Passe do Ronaldo Fenômeno

Ao se lembrar da época em que trabalhava com o maior doleiro do país, primeiro como funcionário e depois como sócio, Claret disse sempre dava risada por ter emprestado ao empresário Reinaldo Pitta o dinheiro para comprar o passe do jogador Ronaldo Fenômeno do clube de futebol São Cristóvão.

"O Messer queria ele mesmo ter comprado o passe, mas foi proibido pela família", disse Claret. Ele contou que, a fim de não pagar comissões para terceiros, Messer abriu um banco em nome do sócio Enrico Machado, o Evergreen Bank, nas Bermudas, um paraíso fiscal no Caribe.

De acordo com ex-doleiro, Enrico teria vendido o banco e "sumido" com US$ 30 milhões que Messer lá escondia. "Foi aí que o império de Messer começou a desmoronar."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.