PUBLICIDADE
Topo

André Santana

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem emprego e comida na mesa, 'bolsoarrependidos' tendem a ampliar rejeição

Bolsonaro tem a pior rejeição entre os presidentes, desde Collor de Mello, que renunciou em 1992 - Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro tem a pior rejeição entre os presidentes, desde Collor de Mello, que renunciou em 1992 Imagem: Marcos Corrêa/PR
só para assinantes
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

17/12/2021 13h46

Os números da pesquisa Datafolha divulgados ontem (16) mostram Bolsonaro com a pior avaliação do governo: 53% dos entrevistados consideram a gestão do presidente ruim ou péssima e 60% reprovam a sua reeleição.

Um dos dados mais preocupantes para as aspirações eleitorais do presidente, que acaba de se filiar ao PL após dois anos sem partido, é o número de eleitores arrependidos. A pesquisa mostra que Bolsonaro perdeu 4 de cada 10 votos que recebeu na última eleição.

A inabilidade política e os discursos truculentos proferidos por Bolsonaro ao longo da trajetória parlamentar, e intensificados durante o processo eleitoral de 2018, pareciam suficientes para atestar a incapacidade dele como gestor.

Com o início do governo, as ações de desrespeito ao cargo que ocupa, às instituições da democracia e aos direitos fundamentais só comprovavam o que se esperava.

"Bolsonaro não enganou ninguém", diziam aqueles que imaginavam que o presidente estava se comportando de acordo com a expectativa do seu eleitorado, que não teria, portanto, motivos para surpresa.

Número de arrependidos deve ser bem maior

Mas a quantidade de arrependidos captados pelo Datafolha parece mostrar que há, sim, muitos surpreendidos negativamente pelo pré-candidato à reeleição ao qual depositaram a confiança de gerir o país.

O número daqueles que desejam abandonar o barco bolsonarista por entender o naufrágio como certo tende a ser ainda maior.

Primeiramente porque tem muita gente que não tem a coragem de admitir publicamente a decepção e o arrependimento. Também porque não há nenhum indício de que o presidente irá mudar sua conduta irresponsável diante dos principais temas que afligem os brasileiros no momento: o desemprego, a fome e a pandemia da covid-19 que ainda persiste.

A tendência é de que Bolsonaro seja o primeiro presidente a não receber do eleitor brasileiro uma segunda chance desde que a reeleição foi implantada no país em 1998. Repetirá a história de fracasso do seu ídolo norte-americano, Donald Trump, rejeitado em sua tentativa de permanecer no cargo.

Corrupção e velhas práticas políticas repetidas

Além da péssima gestão das crises econômicas e sanitárias, a decepção do eleitorado pode ter como razão a repetição de velhos vícios da política nacional por aquele que se elegeu com o discurso antipolítica, anticorrupção e anti "tudo isso que taí".

Bolsonaro se mostrou o pior do mesmo.

Denúncias de corrupção diretamente ligadas aos seus filhos e ao próprio presidente; escolha de auxiliares sem competência técnica para atender critérios políticos; conchavos e distribuições de verbas para partidos em troca de apoio em votações; inaugurações e lançamento de programas popularescos com intenção puramente eleitoral são algumas das péssimas condutas reprovadas em governos anteriores e repetidas na gestão Bolsonaro.

Os eleitores esperavam que fosse tudo diferente, convencidos por um discurso demolidor das instituições existentes, embalado por moralismos fundamentalistas. Na prática, perceberam foi a piora das suas condições de vida, das suas possibilidades de consumo e de acesso aos direitos.

Até mesmo no aspecto da segurança pública houve frustação, já que a violência e a criminalidade só aumentam aos olhos inertes do ex-capitão que militarizou seu governo e não conseguiu dar respostas às questões nacionais relacionadas às fronteiras, às circulação de armas ilegais e à ação das organizações criminosas.

Brasileiro votará com a fome e o arrependimento

O humorista Fabio Porchat acertou, em parte, quando disse em entrevista à imprensa portuguesa que o eleitorado brasileiro votará, em 2022, com o estômago. Sim, a fome e a insegurança alimentar que afligem as famílias brasileiras na gestão econômica Bolsonaro-Paulo Guedes são motivos mais do que justos para que os eleitores rejeitem a continuidade deste governo.

Não ter emprego, não ter como adquirir renda para sustentar sua família e pagar suas contas, não ter comida na mesa para alimentar seus filhos, não saber o que vai comer no dia seguinte são razões suficientes para justificar a reprovação ao governo mostrada na pesquisa Datafolha.

Associado a este cenário, o arrependimento conduzirá o voto contrário ao atual presidente.

Até outubro de 2022, mais casos de corrupção virão a público, assim como mais chantagens do centrão, mais erros dos auxiliares diretos e mais bobagens proferidas por Bolsonaro marcarão a derrota eleitoral. Que assim seja!