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Imprensa sob ataque do bolsonarismo: o que temos para comemorar?

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/05/2020 15h05Atualizada em 25/05/2020 20h41

(Atualizado às 20h40)

No próximo dia 1º de junho, comemora-se o Dia da Imprensa, mas os jornalistas brasileiros nada têm a comemorar, só a temer pelo seu futuro, diante dos constantes ataques do governo miliciano-militar.

Principal alvo do "gabinete de ódio" que governa o país, ao lado do Judiciário, as ameaças aos jornalistas começaram nas redes sociais, e logo transbordaram para as ruas, com agressões físicas e verbais, tornando nosso trabalho uma atividade de risco.

Tudo começa logo cedo, a cada dia, quando o presidente da República aparece no "curralzinho" do Palácio da Alvorada para açular seus devotos contra os repórteres, que são ofendidos por fazerem perguntas consideradas desagradáveis.

É ali que Bolsonaro se comunica diretamente com seu fiel eleitorado, em lives ou com comentários, em seguida, nas suas redes sociais para falar da sua realidade paralela.

Estimulados pelo exemplo que vem de cima, desde o início do governo os bolsominions se sentem liberados para agredir os profissionais e seus veículos, chamados de "lixo" pelo presidente.

Só na semana passada, uma repórter da TV Bandeirantes, em Brasília, levou uma bandeirada na cabeça e um cinegrafista da TV Globo foi agredido com o tripé da câmera, em Barbacena (MG).

Fotógrafos são chutados como cachorros nas manifestações antidemocráticas em apoio ao governo, sob os uivos e aplausos da matilha enfurecida, mas nada se compara ao que fez no sábado o dono do SBT (Sistema Bolsonarista de Televisão), Señor Abravanel, também conhecido por Silvio Santos, o mais sabujo dos sabujos.

Ao receber uma reclamação de Fábio Wejngarten, chefe da Secom, porque o presidente não gostou da reportagem sobre o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, Silvio Santos não teve dúvidas: para evitar problemas, simplesmente mandou suspender a exibição do telejornal do SBT e dispensou a equipe na tarde de sábado.

É a primeira vez que vejo o dono censurar a própria emissora sem dar maiores satisfações ao distinto público.

Boa parte dos palavrões do presidente e seus ministros naquele show de horrores exibido quase na integra, por ordem do STF, foram dirigidos à imprensa, o que só mostra que estamos no caminho certo, cumprindo nosso papel.

A mesma Folha, chamada de "bosta" pelo presidente, abriu espaço no fim de semana para Fábio Wejngarten comemorar com um artigo na nobre página três os feitos dos 500 dias de governo Bolsonaro.

Ainda não temos censura prévia como nos tempos da ditadura militar, mas a pressão sobre as empresas de mídia é feita sorrateiramente, com ameaças até aos anunciantes, e com a distribuição da propaganda oficial dirigida de acordo com os interesses políticos do governo, sem respeitar a mídia técnica, proporcional à audiência ou circulação dos veículos.

Para quem tem saudades dos anos de chumbo, lembro que os jornalistas não eram apenas censurados, mas presos, torturados e mortos, como aconteceu com Vladimir Herzog, em 1975.

Colegas meus simplesmente "desapareciam" de um dia para outro da redação do Estadão, onde eu trabalhava, ou da faculdade de jornalismo da ECA-USP, onde eu estudava. Muitos nunca mais voltaram.

É isso que está por trás do discurso armamentista, claramente fascista, de Bolsonaro, que não esconde sua admiração por ditadores e torturadores.

Fico pensando no que diriam hoje Clóvis Rossi, Audálio Dantas e Nirlando Beirão, meus bons amigos, que também resistiram e sobreviveram à ditadura, mas morreram de tristeza com a destruição do país depois do advento do bolsonarismo.

Jornalistas como eles e tantos outros que não estão mais aqui dedicaram suas vidas e carreiras para defender a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia, hoje novamente ameaçada.

Por isso, não podemos nunca abrir mão do direito de contar o que está acontecendo, mesmo que isso desagrade o poder e os seus seguidores mais fanáticos.

Nunca fui tão xingado e ofendido na minha vida como na área de comentários deste blog.

Mas, enquanto deixarem, estarei todos os dias aqui escrevendo o que penso e manterei aberto o espaço para as opiniões dos leitores.

Essa é a grande conquista da internet, o espaço democrático onde somos todos emissores e receptores de informações e opiniões,

Deveríamos fazer bom uso dessa ferramenta para combater sempre as mentiras oficiais e as fake news em geral que colocam em risco, não só a democracia, mas as nossas vidas ameaçadas pela pandemia.

Por oito anos (1968-1976), trabalhei sob a censura do AI-5 no Estadão, e não tenho a menor saudade daquele tempo.

Temos, sim, um motivo para comemorar: até aqui, preservamos a nossa liberdade e a da sociedade de ser informada.

Essa tem que ser uma luta de todos, jornalistas e leitores.

Vida que segue.

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Colaborou Mariana Kotscho

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Balaio do Kotscho