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Balaio do Kotscho

O cometa chegou: o que assusta os Bolsonaros e os militares são as milícias

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/06/2020 15h17Atualizada em 21/06/2020 16h55

Ao contrário do que aconteceu nas muitas outras crises envolvendo Bolsonaro & Filhos, desta vez a prisão de Fabrício Queiroz não mobilizou a junta militar dos generais Heleno, Braga e Ramos, que ocupam o Palácio do Planalto para proteger o presidente.

Desde a prisão, na quinta-feira, os militares não deram um pio em defesa de Bolsonaro.

O que assusta os Bolsonaros neste caso não é o esquema de "rachadinhas" no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual no Rio e, Queiroz, o operador financeiro do gabinete, recolhia parte dos salários dos funcionários para pagar os boletos do chefe, como mostram as investigações. .

Isso é o de menos nessa história. O que o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio descobriram é a extensa rede de relações do gabinete do filho do presidente com as milícias cariocas, como consta do pedido de prisão de Queiroz.

Para um dos mais respeitados criminalistas do país, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, "caso a investigação escancare a relação entre a família Bolsonaro, Queiroz e as milícias, as Forças Armadas abandonarão o governo".

Em entrevista à TV 247, o criminalista disse que esta é a reflexão mais importante que devemos fazer no momento:

"Tenho a firme convicção de que o Exército brasileiro, que cumpre um papel constitucional (...) não vai aceitar a milícia coordenando o Brasil. O generalato brasileiro jamais admitirá ser tutelado por um grupo de milícia. Penso que quando começar a destampar essa panela vai aparecer muita coisa".

Para quem viu os filmes "Tropa de Elite 1 e 2", de José Padilha, com roteiro de Bráulio Mantovani, não chega a ser uma novidade o poder político que as milícias conquistaram no Rio, após o fim do longo reinado dos bicheiros e, depois, dos traficantes, no crime organizado. Nos anos 1990, os milicianos assumiram o comando e passaram a dar as ordens, mandando prender e soltar.

Profético, o "Tropa 2" projeta em suas cenas finais um avião sobrevoando Brasília para mostrar até onde o poder das milícias poderia chegar.

O controle das milícias sobre vastos territórios do Rio de Janeiro, onde a lei que impera está na ponta do fuzil automático, foi revelado primeiro numa CPI comandada na Assembleia Legislativa fluminense pelo então deputado estadual Marcelo Freixo, que inspirou o filme.

Parece ficção, mas é tudo real. As organizações criminosas recrutam boa parte da sua mão de obra em egressos da Polícia Militar, de onde saíram Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), chefe do Escritório do Crime de Rio das Pedras, que foi morto numa ação da polícia na Bahia, no começo do ano.

"Capitão Adriano", como era chamado, tinha a mãe e a ex-mulher trabalhando no gabinete de Flávio Bolsonaro, levadas pelas mãos de Queiroz.

Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco, que está preso, também foi da Polícia Militar e era vizinho de condomínio dos Bolsonaros, o agora famoso Vivendas da Barra, de onde ele saiu para cometer o crime, que até hoje não tem mandante.

É um emaranhado de relações perigosas. Paulo Emilio Catta Preta, que era advogado de Adriano da Nóbrega, foi agora indicado por Frederick Wassef, o "Anjo" da família Bolsonaro, para fazer a defesa de Fabrício Queiroz. Está tudo em casa.

Segundo o juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal, que pediu a prisão de Queiroz, já há provas suficientes para aceitar uma peça acusatória, o que tornaria Flávio Bolsonaro réu pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, da qual seria o líder.

Bem que Queiroz tentou alertar os comparsas que as investigações estavam preparando "uma pica do tamanho de um cometa", conforme áudio revelado pela Folha.

O cometa chegou.

"O mandado de prisão fala em obstrução de Justiça. Significa que existe uma investigação de organização criminosa. O crime de obstrução de Justiça é muito grave. Então nós temos que pensar que talvez tenha chegado aí um caso muito mais grave, que é a milícia. Talvez aquela pergunta que a gente fazia `onde está o Queiroz?´, consiga responder a outra pergunta que ainda resta: quem mandou matar Marielle? Talvez nós tenhamos chegado ao começo de um fio de novelo", constata o criminalista Almeida Castro.

Até onde este novelo pode chegar?

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.