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Balaio do Kotscho

CNBB de dom Walmor precisa saber que crime hediondo é estuprar criança

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

19/08/2020 14h33

A degradação ética e moral do país, em que toda barbaridade é rapidamente normalizada, e os valores são virados de cabeça para baixo, atinge agora a direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na figura do seu presidente, dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte.

Numa inacreditável nota publicada em sua página no Facebook sobre o estupro sofrido por uma menina de dez anos, que estava grávida quando procurou socorro, causando comoção no país, dom Walmor teve a coragem de escrever o seguinte:

"Lamentável presenciar aqueles que representam a Lei e o Estado, com a missão de defender a vida, decidirem pela morte de uma criança de apenas cinco meses, cuja mãe é uma menina de 10 anos. Dois crimes hediondos".

Lamentável, senhor bispo, é acusar os médicos que salvaram a vida da menina e não fazer nenhuma referência ao tio criminoso e às pessoas que se recusaram a socorrê-la em São Mateus, no Espírito Santo, onde a família dela mora, obrigando-a a viajar até o Recife, para fazer um aborto legal autorizado pela Justiça.

Dom Walmor foi ainda mais longe em sua ignorância sobre a medicina e as leis do país, ao afirmar na nota:

"A violência sexual é terrível, mas a violência do aborto não se explica, diante de todos os recursos existentes e colocados à disposição para garantir a vida das duas crianças".

Quem garante isso? Fique sabendo, dom Walmor, que no nosso país são feitos em média seis abortos legais por dia em meninas de 10 a 14 anos que foram estupradas e corriam risco de vida. Nunca vi nota da CNBB sobre esta barbaridade praticada cotidianamente sob os nossos olhos. O que a Igreja tem feito para evitar que isso aconteça?

O pior é que não é só dom Walmor quem pensa assim na Igreja.

"Tínhamos condições de manter as duas vidas. Essa é a posição da Igreja", decretou dom Ricardo Hoepers, presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB, em entrevista à Rede Aparecida.

Dom Antonio Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, só disse "lamentar a morte da menina de cinco meses", a idade do feto. Ele estava mais preocupado que "o mandamento destacado por Jesus foi mais uma vez desrespeitado".

Aferrados apenas ao direito canônico, em nenhum momento os bispos dedicaram uma palavra de afeto e solidariedade diante do terrível sofrimento enfrentado pela menina, que foi perseguida por fanáticos religiosos ao chegar no Recife, e teve que ser levada para o hospital no porta-malas de um carro, agarrada a um bicho de pelúcia. .

"Assassino!, "Aborteiro", "Demônio", "Por que o senhor não mata seus filhos?", ainda teve que ouvir, na porta do hospital, o médico Olímpio Moraes, que salvou a vida da menina.

Walmor, Hoepers e Saburido são responsáveis também pelas cenas de histeria das turbas de celerados que queriam invadir o hospital, quando os dados da menina e a sua localização foram vazados na internet pela extremista bolsonarista Sara Geromini, alcunhada Sara Winter, depois que assessores da ministra Damares Alves foram ao Espírito Santo para acompanhar o caso.

Esse trágico episódio vai aprofundar mais ainda a divisão na Igreja Católica, depois da última eleição que elegeu dom Walmor Azevedo, com a CNBB rachada de alto a baixo entre bispos conservadores bolsonaristas e bispos progressistas, que seguem a orientação do papa Francisco.

Há poucas semanas, 152 bispos brasileiros enviaram uma carta ao papa Francisco, que não foi encampada pela direção da CNBB, denunciando o atual governo pelo desmazelo no combate à pandemia do coronavírus, que já ceifou mais de 110 mil vidas.

Como católico que estudou em colégio de padres, ex-membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo (nos tempos de dom Paulo Arns) e participante de um Grupo de Oração há mais de 40 anos, sinto vergonha do que foi feito da minha igreja.

Um dos integrantes desse Grupo de Oração, meu amigo Guilherme Salgado Rocha, de Juiz de Fora (MG, publicou carta hoje no Painel do Leitor da Folha com um desabafo:

"Uma menina de dez anos! (...) Meu Deus, grande parte da Igreja Católica e o pior dos evangélicos juntos no mesmo hediondo protesto contra o aborto. E a grotesca Sara Winter no meio dessa tenebrosa transação. Permitam-me, por favor, me afastar da Igreja?".

Milhões de católicos já se afastaram nestes últimos anos, abrindo espaço para o crescimento das seitas fundamentalistas que lucram com a fé dos humildes, e agora chegaram ao poder.

Foi-se o tempo da Igreja Católica de dom Paulo, dom Helder, dom Luciano e dom Pedro, e tantos outros, que dedicaram seu apostolado a lutar pela vida e pela liberdade, pela terra e pela moradia, pela solidariedade e a justiça, contra o arbítrio e a morte sob tortura.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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