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Salles passando a boiada: área igual a Salvador queima todo dia no Pantanal

Ministro do Meio Ambiente acompanha as queimadas no Pantanal. E só - Reprodução/Twitter/rsallemma
Ministro do Meio Ambiente acompanha as queimadas no Pantanal. E só Imagem: Reprodução/Twitter/rsallemma
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

07/10/2020 17h17

Enquanto continua em Brasília o reality show da nomeação de Kassio Marques para o STF e da busca de um novo nome e de recursos para substituir o Bolsa Família, o Brasil assiste, impassível, à tragédia da destruição do Pantanal, sob o alto comando de Jair Bolsonaro e do sinistro Ricardo Salles, o destruidor do Meio Ambiente.

Fora de controle, as queimadas provocadas por fazendeiros já consumiram um quarto dos 15 milhões de hectares do bioma, ou seja, 3,9 milhões de hectares, reduzidos a cinzas, desde 1º de janeiro até o último sábado, um território que corresponde ao estado do Rio de Janeiro.

Alguém pode imaginar a região mais bonita do Brasil, com todos seus cartões postais, inteira queimando?

A cada 24 horas, o fogo consome mais 73,7 mil hectares, uma área do tamanho da cidade de Salvador, como informam Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida, na Folha.

Os baianos poderiam conviver com uma cena dessas? Será que isso não é capaz de chocar mais ninguém?

Esses dois bravos repórteres da Folha testemunham diariamente, há vários meses, o avanço da destruição das queimadas na Amazônia e no Pantanal, diante da omissão criminosa do governo federal, que continua procurando culpados, como aconteceu na pandemia do coronavírus, eximindo-se de qualquer responsabilidade.

Um problema "não-imediato"

Plantado em São Paulo, onde responde a vários processos, do tempo ainda em que era secretário de Geraldo Alckmin, o antiministro do Meio Ambiente dignou-se, finalmente, a sobrevoar a região no último sábado, e fez uma descoberta incrível: "Há muitos focos de incêndio".

Não anunciou providência nenhuma, mas, na terça-feira, o secretário-adjunto nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Rooney Matsui, encontrou dois culpados: os governos estaduais e o Supremo Tribunal Federal pela demora no envio de algumas dezenas de homens da Força Nacional para combater os incêndios, já no final de setembro, meses após o início das queimadas.

Vejam o que o adjunto teve a coragem de dizer para justificar tamanha incúria:

"Há uma questão judicial que acabou tornando a questão não tão imediata, uma decisão de 24 de setembro, do plenário do STF, que impediu a ação unilateral da Força Nacional, ou seja, sem solicitação ou anuência do estado".

Não tão imediata? Vai explicar isso para os povos indígenas guató e bororo, que viram metade de suas terras transformadas em cinzas.

Enquanto isso, no ar condicionado...

"Nós nunca teremos a dimensão do que perdemos esse ano", lamenta o presidente do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), Angelo Rabelo.

Para ele, essa tragédia pode ser considerada "um dos eventos climáticos extremos que mudaram a história do planeta".

Como a fumaça não chega aos gabinetes refrigerados de Ricardo Salles em São Paulo e Brasília, ele continua no comando da maior destruição ambiental já registrada no país, cortando os recursos humanos e financeiros para as operações de combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia e no Pantanal.

Esta semana, o ministro até encontrou tempo para treinar num clube de tiro de Brasília, no horário do expediente.

Quais serão seus próximos alvos? Ninguém vai fazer nada para conter esse destruidor do futuro, que ameaça não só o Brasil, mas o mundo, passando a boiada?

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.