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Presidente surfista: Bolsonaro agora enfrenta os bolsonaristas

Bolsonaro e Toffoli matam a saudade da velha política com um abraço de urso - Reprodução/CNN
Bolsonaro e Toffoli matam a saudade da velha política com um abraço de urso Imagem: Reprodução/CNN
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

05/10/2020 16h09

Sempre em busca de uma boa onda para surfar na crista, Bolsonaro agora resolveu arrostar bolsonaristas que o elegeram em 2018, já de olho em 2022.

Em confronto aberto do presidente com sua antiga base de apoiadores, a hashtag #BolsonaroTraidor foi o assunto mais comentado no Twitter neste domingo.

Saem de cena os parlamentares broncos do PSL, os terraplanistas de Olavo de Carvalho, os marombados das academias militares, da polícia e da milícia, os bispos da grana de Silas Malafaia, os agroboys de Ricardo Salles, as madames oxigenadas e aloprados em geral, para dar lugar aos antigos donos do poder de sempre, recebidos em lautos cafés da manhã, churrascos e pizzas na corte de Brasília.

Os antigos inimigos do Congresso e do STF, que os bolsonaristas até outro dia queriam fechar em atos antidemocráticos, dos quais Bolsonaro chegou a participar, agora viraram aliados, com o Centrão de abre-alas e mestre de cerimonias.

O capitão cansou de guerra. Tudo agora é festa em Brasília — beijos, abraços e tapinhas nas costas sem fim, sorrisos em lugar de carrancas.

Bolsonaro rasgou o último paetê da fantasia de antissistema que usou em 2018 e, por baixo do glitter, ressurgiu o velho político do baixo clero do Centrão, de onde, na verdade, ele nunca saiu.

As lágrimas de Sara

Sara Winter, a porta-bandeira da extrema-direita alucinada, bolsonarista de primeira hora, perdeu a paciência.

"Estou cansada. Cansada de ficar calada enquanto vejo o governo a que dei minha vida entrar com uma (...) no meu (...)", desabafou no Twitter, chorando, e se tornou um dos assuntos mais comentados do dia.

A gota d´água para esses devotos radicais, mas sinceros, foi o abraço de urso que Bolsonaro deu em Dias Toffoli, o ex-presidente daquele STF, que "não deixava Bolsonaro governar".

Nadando de braçada num país em que as lideranças de oposição submergiram, o presidente resolveu partir para o deboche.

Café com Maia

"Sabem com quem eu tomei café da manhã agora, alguém sabe? Rodrigo Maia. E daí? Estou errado? Quem é que faz a pauta da Câmara", perguntou aos apoiadores que o aguardavam nos jardins do Alvorada nesta manhã de segunda-feira.

Quando um devoto perguntou se era difícil governar com o STF, ele desconversou. "Não entro no detalhe, não entro no detalhe. É um Poder que respeito".

Respeita tanto que nomeou para uma vaga no Supremo Tribunal Federal o desconhecido juiz federal Kassio Marques, só porque toma tubaína com ele e está "100% alinhado" com o presidente.

Nas mesmas redes sociais que o elegeram, graças a uma indústria de fake news, Bolsonaro agora é atacado por nomear alguém "ligado ao PT", que liberou a compra de lagostas e vinhos caros para o STF e votou pela permanência do terrorista Cesare Battisti no Brasil, além de ser desarmamentista.

"Um montão de militar serviu no governo do PT"

Para defender o indicado, o presidente chegou a argumentar que ele era "católico e tem uma certa vivência na área militar", como se isso fosse pré-requisito para ser ministro do STF.

"Acusam ele de ser comunista: ´Ah, ele trabalhou com o PT´. Pô, o Tarcísio de Freitas (ministro da Infraestrutura) trabalhou com o PT. Parece que o ministro da Defesa também trabalhou com o PT. Um montão de militar serviu no governo do PT", lembrou o presidente aos seus seguidores.

Não foi contra toda "essa gente" que Bolsonaro se candidatou em 2018, na crista da onda antipetista?

Mas eram outros tempos. Os ventos e as marés mudam as ondas dos surfistas da política.

É muita pizza, gente

O que mais me chamou a atenção no alegre encontro de palmeirenses na casa de Toffoli, com a presença também do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que vai comandar a "sabatina" de Kassio Nunes, foi a quantidade de comida. Segundo a Folha, foram encomendadas 16 pizzas.

É muita pizza para pouca gente. Vão todos ficar gordos.

Nesta sua nova encarnação "paz e amor", Bolsonaro mudou até o cardápio no café da manhã com Rodrigo Maia (um pequeno banquete, sem leite condensado), o penteado e o figurino. Quem veste o presidente agora é o estilista Ricardo Almeida, o mesmo de Lula.

Toda essa repaginação do poder, que assusta os antigos devotos da seita bolsonarista, e a briga entre os ministros Paulo Guedes e Rogério Marinho, tem um único objetivo: descobrir de onde tirar o dinheiro para mudar o nome do Bolsa Família, sem furar a tal lei do teto, que já está desabando.

O resto é intriga da imprensa.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.