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Balaio do Kotscho

Quem quer vacina? Eles estão brincando com nossas vidas

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

28/10/2020 16h09

As vacinas são nossa única esperança para combater a pandemia do coronavírus e permitir que a gente possa voltar a levar uma vida normal, com segurança e liberdade, sem medo.

Mas no Palácio do Planalto e nas redes sociais ainda tem gente que não acredita.

Acabei de ver agora vídeo em que um bando de alucinados, com bandeiras e camisetas amarelas, queima máscaras e brada contra a vacina, em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo.

Esse é o resultado da guerra por protagonismo em torno da vacina, travada pelas mais altas autoridades da República, que transformaram o debate num programa de auditório, onde só falta o Silvio Santos entrar gritando:

"Quem quer vacina? Quem quer vacina?"

Todos eles, de Bolsonaro a Fux, de Doria a Maia, estão brincando com as vidas de 212 milhões de brasileiros, um querendo aparecer mais do que o outro.

Depois de Luiz Fux oferecer o plenário do Supremo Tribunal Federal, que ele preside, para pacificar a questão sobre a obrigatoriedade ou não da vacina, a confusão só aumentou.

Em resposta a Fux, o presidente disse que não é um juiz quem vai decidir sobre isso, mas o Ministério da Saúde _ ou seja, ele mesmo, já que o general de plantão só obedece às suas ordens.

Depois de passar um tempo desaparecido, Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, entrou em campo para dizer que a decisão sobre a vacina cabe ao Executivo e ao Legislativo, também dando um chega pra lá no empavonado Fux.

De olho em 2022, para se apresentar como alternativa a Bolsonaro, o governador paulista João Doria resolveu bater de frente com o capitão, dizendo que, em São Paulo, quem manda é ele, e a vacina será obrigatória.

Como não dá para imaginar que a polícia obrigue uma pessoa a se vacinar na marra, ameaçando levá-la para a cadeia, talvez seja o caso de adotar medidas de bom senso para defender o interesse coletivo, sem desrespeitar as liberdades individuais.

Basta pedir uma prova de que a pessoa foi vacinada para ter acesso a locais públicos, por exemplo, como já fazem muitos países, que só deixam entrar quem se vacinou contra a febre amarela.

Aqui mesmo, no Brasil, para receber o Bolsa Família, as famílias precisam apresentar, em contrapartida, o cartão atualizado de vacinação dos seus filhos.

Bastaria pedir aos torcedores uma prova de que foram vacinados para poderem entrar nos estádios de futebol, quando for autorizada a sua reabertura.

O mais absurdo de tudo isso é que essa guerra das vacinas foi deflagrada no Brasil antes mesmo que elas existam, devidamente aprovadas pela OMS e pelas agencias nacionais de saúde de cada país.

Nós, jornalistas, acabamos fornecendo holofotes, espaços e microfones para que os pais da pátria subam ao palco em busca de aplausos dos seus seguidores, como se os brasileiros tivessem sido reduzidos a macacas de auditório nas tardes de domingo.

No "novo anormal" em que vivemos, nesta realidade virtual das redes sociais, até questões de vida ou morte para a população são tratadas com a maior leviandade, disseminando a desinformação e a insegurança sobre a importância das vacinas contra a Covid-19.

Não importa se a vacina é branca, vermelha ou amarela, o que precisamos é que ela nos proteja do vírus.

Quem quer vacina? Eu quero! Não aguento mais ficar em casa.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.