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Balaio do Kotscho

Nem golpe nem impeachment: acordão deixa Bolsonaro solto

Jair Bolsonaro e Michel Temer em evento no ano passado - Henrique Barreto/Futura Press/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro e Michel Temer em evento no ano passado Imagem: Henrique Barreto/Futura Press/Estadão Conteúdo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/09/2021 17h50

O Brasil virou uma outra coisa que ninguém sabe bem o que é."
Washington Olivetto, autoexilado em Londres

O medo dele era ser preso, mas Bolsonaro e seus generais ficam onde estão, garante o grande acordão costurado entre os Poderes, sob as bênçãos de Michel Temer, o golpista que virou pacificador. A Faria Lima respira aliviada. Este é o trágico resumo da Semana da Pátria.

Na ponta do lápis, ainda faltam 474 dias para essa agonia acabar, com a posse de um outro presidente, qualquer um, se deixarem ter eleições e respeitarem o resultado.

Depois do fracasso do autogolpe e da carta de rendição ao Judiciário assinada por Jair Bolsonaro, não se fala mais em impeachment nem em qualquer punição pelos crimes em série cometidos pelo capitão no levante do 7 de Setembro.

"Perdoá-lo seria como soltar o curandeiro João de Deus se ele pedisse desculpas às dezenas de mulheres que violentou", escreve hoje Ascânio Seleme na coluna "Desculpas não inocentam", no Globo.

Mas o ministro Gilmar Mendes, do STF, acha que "é preciso acreditar na boa fé de Bolsonaro". Quem, em sã consciência, ainda pode acreditar nisso? Parece brincadeira...

Deixamos de ser uma democracia no Golpe de 2016 e ainda não somos uma ditadura.

Aquele Brasil que o amigo Washington Olivetto deixou para trás, em boa hora, não existe mais. Não somos mais nada aos olhos do mundo.

É tudo tão desalentador que os mesmos grupos responsáveis pela chegada de Bolsonaro ao poder vão protestar contra ele na avenida Paulista, neste domingo, num comício da patética Terceira Via, que busca desesperadamente um candidato.

Se depender deles, o presidente pode dormir tranquilo, depois de dias de insônia.

O fato é que hoje não temos nem governo nem oposição, nenhum projeto de país, qualquer esperança de que as coisas possam mudar tão cedo. Vamos nos arrastando, apenas tentando sobreviver, um dia de cada vez.

Resta apenas o vazio e a lembrança das quase 600 mil vítimas desta insanidade, da destruição da Amazônia, da educação e da cultura, entregues a um bando de bárbaros saqueadores, cafajestes que declararam guerra ao próprio país, onde o presidente faz acordos até com um tal de Zé Trovão, homiziado no México, para se segurar na cadeira e não ser atropelado pelos caminhoneiros.

Aonde foi parar o Brasil feliz e confiante que existia aqui, admirado pelo mundo, não faz muito tempo, onde não se vivia sobressaltado com o medo do amanhã, como nos tempos da ditadura militar, tão exaltada pelos atuais ocupantes do poder?

O que fizemos do nosso país?

Até quando vamos aguentar tanta humilhação?

A semana que termina apenas aumentou a incerteza sobre o nosso futuro.

Qual Brasil sobreviverá até as próximas eleições?

Quanto tempo levará para reconstruir o país?

Não dá para ficar batendo palmas para ver louco dançar à beira do abismo e achar que tudo isso é normal.

Perdão pelo desabafo, mas também não dá pra ficar com o grito preso na garganta.

Bom fim de semana.

Vida que segue.