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Balaio do Kotscho

De volta ao lugar onde Lamarca foi emboscado e fuzilado no sertão baiano

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

17/09/2021 14h47

"Ah, o senhor está falando do acontecido?"

Eu nunca tinha ouvido essa palavra tão abrangente e, ao mesmo tempo, indefinida: "acontecido". Pode ser qualquer coisa, tudo ou nada. O que aconteceu, simplesmente.

Era o que eu escutava sempre que perguntava a algum morador de Brotas de Macaúbas, na região de Bom Jesus da Lapa, no sertão da Bahia, o que conseguia lembrar dos últimos dias de vida de Cirilo, nome de guerra do capitão Carlos Lamarca, um dos principais líderes da luta armada no Brasil, emboscado e fuzilado por tropas do Exército, há exatos 50 anos, às quatro horas da tarde do dia 17 de setembro de 1971.

Vinte anos depois, quando estive lá pelo "Jornal do Brasil", também já falecido, para reconstituir os derradeiros passos do guerrilheiro que assombrava as Forças Armadas, de onde havia deserdado para combater a ditadura militar, os moradores da pequena cidade baiana ainda faziam um ar de espanto, temiam falar sobe o assunto. Era como se tivessem selado um pacto de silêncio para todo o sempre. Ninguém tinha visto nem ouvido nada.

Mas, a muito custo, consegui arrancar algumas palavras do carcereiro Genésio Nunes de Araújo, que foi quem delatou o esconderijo de Cirilo e Zequinha aos homens do major Nilton Cerqueira, então chefe do DOI-CODI da Bahia, depois promovido a general e que mais tarde seria eleito presidente do Clube Militar. .

"Um homem veio me contar que viu dois cabras deitados debaixo de uma árvore. Meu coração me contou que eram eles mesmos. Eu não queria matar ninguém. Avisei o major e fui andando até a Veraneio, nem vi nada. Só ouvi. Foi ligeiro, duas cargas de tiro. O major Cerqueira entrou na Veraneio e só me disso isso: `Terminou aqui a nossa missão´. Aí ele pegou uma nota de cem e meteu no bolso da minha camisa. Falou que era para eu tomar tudo em cachaça. Aceitei".

Genésio morava na mesma rua, a três quadras de distância, da casa da família de José Campos Barreto, o Zequinha, o último companheiro do capitão, que morreu fuzilado ao lado dele. Mundo pequeno: as famílias da vítima e do algoz eram vizinhas.

Com o título "Sertão baiano lembra morte de Lamarca vinte anos depois", a reportagem do JB relatava:

"Assim terminou, às quatro horas da tarde do dia 17 de setembro de 1971, a guerra que não houve, no alto sertão baiano, entre o capitão Carlos Lamarca e seu companheiro Zequinha, o metalúrgico José Campos Barreto, contra 215 homens, aviões e helicópteros do Exército, Marinha, Aeronáutica, DOI-CODI, DOPS e Polícia Federal, reunidos na Operação Pajussara, encerrando um dos últimos capítulos da luta armada contra a ditadura militar, do Brasil dos anos 70.

A testemunha mais próxima do acontecido, Deonila Maria dos Santos, não sabe nem dizer a idade. Aparenta mais de 70. `Fui criada sem pai. Ninguém nunca disse a idade que eu tinha, não posso saber´. Foi neste fim de mundo perdido no meio da caatinga, no povoado de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos, a 615 quilômetros de Salvador, junto ao casebre de Deonila, sob a copa de uma baraúna, que há vinte anos acabou um ciclo da nossa história."

Como na época do "acontecido" vigorava a mais feroz censura à imprensa, a ideia inicial do jornal era preparar um caderno especial com reportagens sobre episódios do período de governo do general Emilio Garrastazu Médici, que o país tinha sido proibido de conhecer.

Mas, apesar do vasto material recolhido por mim e pelo colega Zuenir Ventura, o grande "Mestre Zu", tão bom jornalista como professor e escritor, o caderno especial foi reduzido a duas páginas para o jornal de domingo. Na sexta-feira, só sobrava uma página, e Zuenir desistiu de escrever a parte dele: "Ricardo, pode ficar com a página pra você, porque eu já avisei que estou fora dessa história. Vou guardar comigo o material que pesquisei". Não sei o que o velho amigo fez com a sua pesquisa.

Sem outra saída, fui cortando o texto a machadadas, fiz os títulos, escolhi das fotos, recolhi as muletas (tinha quebrado o tornozelo) e fui-me embora tomar uma cerveja com os amigos.

Apesar da tristeza, minha e do Zuenir, por falta de mais espaço, o JB acabou sendo o único jornal naquele domingo a publicar algo sobre a data; os outros, não deram nada.

O resto é história, deste país que não tem memória.

Capitão Carlos Lamarca deve ter sido mesmo um personagem importante porque foi citado pelo menos 33 vezes em discursos no plenário da Câmara dos Deputados pelo pelo também capitão Jair Bolsonaro, desde 1995 até o fim do seu último mandato como deputado federal, em 2018, segundo levantamento da BBC Brasil. No ano seguinte, assumiria a Presidência da República.

Bolsonaro tinha 15 anos naquela época, mas garante até hoje que ajudou a combater a guerrilha de Lamarca no Vale do Ribeira, em São Paulo, região onde nasceu (ver matérias de Eduardo Reina aqui no UOL).

Vida que segue.