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Balaio do Kotscho

Eleições 2022: o favoritismo de Lula, a frente ampla de FHC e nosso futuro

Lula e FHC juntos, em almoço promovido este ano por Nelson Jobim, que foi ministro dos dois - Ricardo Stuckert/Divulgação
Lula e FHC juntos, em almoço promovido este ano por Nelson Jobim, que foi ministro dos dois Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/09/2021 16h25

"É bom que se crie uma frente ampla. Que haja diversidade de opiniões, mas que sejam todas a favor da democracia. Eu não discrimino o PT. O PT não é intrinsecamente contra a democracia. Nunca foi".

Esta declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao Globo, no dia seguinte à nova pesquisa Ipec, sucedâneo do antigo Ibope, que aponta o derretimento de Bolsonaro e o crescente favoritismo do ex-presidente Lula para se eleger já em primeiro turno em 2022, me fez voltar à campanha de 1989, ano da primeira eleição direta para presidente da República após a ditadura.

Havia 22 candidatos, entre eles, Mario Covas, do PSDB, partido que subiu ao palanque de Lula no segundo turno daquela eleição, vencida pelo outsider Fernando Collor de Mello, apoiado pela maioria da grande mídia, o mercado financeiro e o empresariado mais reacionário do campo e da indústria, os mesmos setores que derrubaram Dilma Rousseff e elegeram Bolsonaro.

Dois anos depois, PT e PSDB estavam novamente juntos nos palanques da campanha pelo impeachment de Collor, o "caçador de marajás", que seria cassado por corrupção.

A partir da eleição seguinte, em 1994, os dois partidos se revezaram no poder ao longo de mais de duas décadas, até o advento do fenômeno Bolsonaro, um ex-capitão e deputado folclórico, mais outsider do que Collor, que passou por vários partidos, e hoje não tem nenhum para disputar a reeleição, cada vez mais distante em todas as pesquisas.

Não importa como chegamos até aqui, nesse beco aparentemente sem saída, após a catástrofe do atual governo, enterrado esta semana no vexame planetário promovido no púlpito da ONU e nas ruas de Nova York. Mas já dá para ver sinais de luz no final do túnel.

Está na hora de começarmos a pensar seriamente no futuro, no pós-Bolsonaro, no desafio da reconstrução do país sobre os escombros deixados pelo exército de ocupação bolsonarista, um acidente de percurso, o desastre ferroviário e civilizatório que já deixou quase 600 mil mortos.

A um ano e alguns dias da próxima eleição, o que a pesquisa do Ipec nos mostra é Lula com o dobro de intenções de votos de Bolsonaro, em qualquer cenário, e o governo do presidente apoiado por apenas 22% do eleitorado, em queda livre, como já havia mostrado o Datafolha

Os outros pré-candidatos não passam de um dígito e, todos somados a Bolsonaro, ficam abaixo de Lula, que tem entre 45% e 49% das intenções de voto.

Claro que tudo pode mudar, daqui a meia hora ou na semana que vem, mas todas as pesquisas deste ano mostram uma tendência constante, apontando para uma vitória de Lula já no primeiro turno e a derrota de Bolsonaro para qualquer um, se houver segundo turno, e se ele chegar lá.

"Não importa quem convoque. Havendo uma convocação que seja possível de participar, dizer o que pensa é bom", disse FHC na entrevista sobre as próximas manifestações da oposição, marcadas para os dias 2 de outubro e 15 de novembro.

Lula ainda não disse nada sobre essa frente ampliada que está sendo costurada por partidos de esquerda como PT, PSOL, PCdoB, PDT e PV, junto com outros de centro, como Cidadania, Rede e Solidariedade, além de movimentos sociais e centrais sindicais. .

Tenho certeza, pelo que conheço dos dois, que Lula não teria o menor problema em subir no palanque ao lado de FHC, e vice-versa, o velho amigo que lhe passou a faixa presidencial, depois de derrotá-lo em duas eleições no primeiro turno.

O mesmo já não dá para dizer de João Doria e Ciro Gomes, que continuam surfando na onda antiga do antipetismo, a principal bandeira de Bolsonaro em 2018.

Por isso, não acredito numa frente tão ampla contra o bolsonarismo, que deveria ser o inimigo comum, como foi a ditadura na campanha das Diretas Já, em 1984.

Naquele ano, todas as lideranças democráticas (Ulysses, Brizola, Lula, Tancredo, Montoro e FHC) se uniram nos palanques, sem disputas pessoais.

Restaram vivos deste período, como líderes de expressão nacional, apenas Lula, novamente candidato a presidente, e FHC, que hoje se dedica somente a defender seu legado e sua história, em defesa da democracia.

Me lembro de Lula fazendo campanha para FHC nas portas de fábricas, em 1978, por uma vaga no Senado, na sublegenda do MDB, e dos dois se despedindo emocionados, na porta do elevador do Palácio do Planalto, após a transmissão do cargo de presidente, em 2003, na transição mais civilizada da história da República.

Cabe agora a Lula, antes de botar o bloco na rua, reconstituir pontes detonadas no golpe de 2016, com o empresariado, a grande mídia e os partidos de centro-direita, não só para vencer as eleições, mas para poder tomar posse e, principalmente, para governar em paz, no momento mais dramático da nossa história recente.

Para isso, basta parar de falar em "regulamentação da mídia", algo que o povo nem sabe do que se trata,e só açula o antipetismo, e em outros temas polêmicos do passado, como o direito ao aborto, uma questão já pacificada pelo STF.

Em vez de olhar no retrovisor para seu público interno, é preciso focar mais no futuro, olhar para a frente e apresentar propostas e projetos concretos, para uma população massacrada pela falta de emprego, de comida e, principalmente, de esperança.

Bater em Bolsonaro hoje é chutar cachorro morto, só serve para dar cartaz a ele.

O que a maioria do povo quer agora é virar logo esta página triste da nossa história e voltar a sonhar com dias melhores, pisando em terra firme.

Basta saber ler as pesquisas, que não decidem eleições, eu sei, mas ajudam a enxergar para onde queremos ir e como chegar lá.

É o futuro de 212 milhões de brasileiros que estará em jogo em 2022, não o passado.

Vida que segue.