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Balaio do Kotscho

No Brasil dos 600 mil mortos, inflação, desemprego e fome são as heranças

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/10/2021 17h37

No começo, dizia-se que era preciso cuidar da economia, mais do que da saúde, e todo mundo precisava sair para trabalhar, porque o problema, afinal, nem era tão grave, havia muito exagero da imprensa.

Não cuidaram de uma coisa nem de outra e, agora, no dia em que o país atinge a marca de 600 mil mortos, estamos ameaçados por outra praga, talvez ainda maior e sem prazo para acabar: o total descontrole da economia brasileira, que causa inflação, desindustrialização, falências, desemprego e fome.

Pela primeira vez, desde a implantação do Plano Real, em 1994, a inflação atingiu dois dígitos (10,25%) em 12 meses, a maior para o mês de setembro.

A ameaça à vida trazida pela pandemia está passando. Aos poucos, vamos voltando à vida normal e reencontrando os sobreviventes desta grande tragédia, que em boa parte poderia ter sido evitada, se tivéssemos um governo.

Ao mesmo tempo, somos assolados diariamente com o aumento de todos os preços, da comida aos combustíveis, que hoje tiveram a segunda alta anunciada em dez dias. A gasolina e o gás de cozinha tiveram um aumento de mais 7%; o óleo diesel já havia sido reajustado em 9% na semana passada.

E novas altas ainda virão para "alinhar os preços internos aos do mercado internacional", segundo a Petrobras, a grande empresa nacional que foi retalhada e vendida na bacia das almas para garantir o lucro dos acionistas. É triste lembrar que um dia, nem faz tanto tempo, já fomos autosuficientes em petróleo, e até exportávamos o excedente.

Quem ainda tem emprego, morre de medo de perder; quem não tem, garimpa ossos nos lixões e restos de comida nos restaurantes.

Na véspera, Bolsonaro já havia anunciado que, no próximo ano, poderá haver desabastecimento de comida por falta de fertilizantes importados da China para a agricultura. Só não lembrou que, no seu governo, foram fechadas as fábricas nacionais de insumos.

Até o momento em que comecei a escrever, não ouvi o presidente explicar o que o governo pretende fazer para que isso não aconteça, muito menos uma única palavra de solidariedade que seja às famílias das 600 mil vítimas.

Em breve, morrerá mais gente de fome do que de Covid, mas nem ficaremos sabendo, porque esses são os "invisíveis" do mago Paulo "Offshore" Guedes, que está mais preocupado em salvar a própria pele.

Depois de detonar os programas sociais e os direitos dos trabalhadores, na quinta-feira Guedes mandou cortar 90% dos recursos destinados aos institutos de pesquisa e o seu chefe vetou o projeto para fornecer gratuitamente absorventes higiênicos a mulheres pobres.

Na balbúrdia que se instalou no Palácio do Planalto há mais de mil dias, só se pensa na campanha pela reeleição, cada vez mais improvável, e de onde tirar dinheiro para lançar o novo Bolsa Família, com outro nome, para alavancar a popularidade do presidente.

Não se tem notícia até agora de nenhum plano de ação emergencial do governo para o pós-pandemia, como todos os países estão fazendo, para recuperar os empregos perdidos na pandemia.

Quando essa história começou, em março do ano passado, minhas filhas me proibiram de sair de casa e receber visitas por pelo menos 15 dias.

Otimistas, elas. Pois, hoje, completei 570 dias de quarentena, trabalhando em casa e só saindo para ir a clínicas, laboratórios e hospitais. Como desgraça pouca é bobagem, no meio do caminho, um rim parou de funcionar e tive câncer na bexiga, que está sob controle, depois de duas cirurgias e tratamento pesado de químio e radioterapia.

Perdi vários e bons amigos, parei de fazer reportagens, encontrar os amigos no bar da esquina, viajar para o sítio ou a praia, e agora só estou esperando tomar a terceira dose da vacina para receber a alforria das filhas.

Vi pela janela e pela televisão o país se degradar a cada dia, e cheguei a achar que nada mais seria como antes. Vivo hoje em algum outro país, que já nem sei bem o que é, sem ter saído daqui.

Voltamos ao Mapa da Fome da ONU, caímos para o 14º lugar entre as maiores economias mundiais. Para receber um presidente estrangeiro este ano, precisamos mandar um avião da FAB buscá-lo na África. Assustamos o mundo com as queimadas na Amazônia e no Pantanal, e viramos um país pária, temido nas nações civilizadas. Corremos o risco de ficar sem água e sem luz neste final de ano.

Durante os últimos cinco meses, acompanhamos estarrecidos pela TV as sessões da CPI da Covid, revelando como nossas vidas ficaram nas mãos de um bando de alucinados, irresponsáveis e incompetentes, que atrasaram a compra de vacinas e tentaram fazer bons negócios com elas, às custas do sofrimento de tantos brasileiros, que ainda poderiam estar vivos, e dos milhares que ficaram com sequelas após as internações.

Os 600 lenços brancos estendidos nesta sexta-feira na praia de Copacabana lembram os nossos mortos, mas também acenam com a esperança de resistência cívica, para que os responsáveis por essa catástrofe humanitária, sanitária e econômica, paguem pelos seus crimes, algum dia.

O Brasil não merecia isso, não precisava ter sido assim.

Vida que segue.