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Balaio do Kotscho

Pamonhas, latidos, aviões, obras, sirenes: uma sinfonia de São Paulo, 468

Movimentação de clientes no Restaurante São Domingos na esquina das ruas Aspicuelta e Fidalga, na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista, - Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
Movimentação de clientes no Restaurante São Domingos na esquina das ruas Aspicuelta e Fidalga, na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista, Imagem: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/01/2022 17h00

Podem chamar São Paulo do que quiser, mas esta velha senhora é, acima de tudo, uma cidade do barulho.

Meio século atrás, quando me pediram para escrever um artigo sobre o aniversário da cidade, no velho Estadão, perguntei ao editor: "A favor ou contra?".

A gente sempre perguntava isso porque o jornal tinha uma opinião formada e definitiva sobre qualquer assunto e os redatores davam um jeito de se adaptar ao pensamento "da casa", ou seja, dos donos.

Na dúvida, dei uma de mineiro e escrevi primeiro o título: "Amo essa cidade com todo ódio".

Não me lembro o que escrevi depois, mas se me perguntarem hoje o que mais odeio nesta cidade é certamente o barulho infernal das suas ruas, a qualquer hora do dia, em qualquer lugar.

Merece até uma sinfonia ou uma ópera do genial maestro e pianista João Carlos Martins, o mais paulista dos músicos, sempre agitado, a mil por hora, criando novos sons para os seus concertos, que misturam o clássico com o sertanejo, sem o menor pudor, no mesmo espetáculo. Fica a sugestão, caro amigo João, para o próximo aniversário da cidade.

Neste 25 de janeiro, em que a cidade completa 468 anos, o som mais característico e antigo de São Paulo de que me recordo é o da camionete com alto-falante que vende pamonha aos gritos. Por coincidência, ele está passando agora na porta do meu prédio, como faz todas as segundas-feiras, o que me fez escrever esta crônica da cidade.

No final do ano passado, quando me mudei para cá, um apartamento no 21º andar de rua residencial e tranquila da Vila Madalena, pensei que iria ficar livre dele, depois dos longos anos em que eu o aturei nos Jardins. Sim, no bairro mais cosmopolita do país, ainda se vende pamonha nas ruas com reclames sonoros, como em qualquer cidadezinha do interior.

Pensando bem, São Paulo nunca deixou de ser aquela cidade provinciana onde nasci no final dos anos 1940, logo após o final da Segunda Guerra, que trouxe meus pais refugiados para o Brasil, em busca de paz e trabalho.

Fora do centro, ainda era uma cidade silenciosa, em que quase não se ouvia buzinas e dava para jogar bola e andar de bicicleta no meio das ruas de terra, não muito longe da avenida Paulista.

Nos fins de semana a gente ia passear no Viaduto do Chá, um programa chique, com homens, mulheres e crianças vestidos como se estivessem na Europa, de onde vieram tantas famílias de paulistanos.

Ainda ontem minha filha Carolina, já uma jovem senhora, me perguntou quando a cidade e a Vila Madalena começaram a mudar para se tornar este inferno de concreto e asfalto que é hoje, onde quem pode sai correndo todos os fins de semana para praias ou sítios, em busca de sossego, depois de enfrentar estradas cada vez mais congestionadas.

Do que me lembro, pois já era repórter nessa época, a mudança se deu no início da década de 70 do século passado, na época do "milagre econômico" dos militares, quando legiões de operários nordestinos vieram para cá trabalhar nas obras do metrô e na abertura de grandes avenidas, de espigões que tomaram o lugar de antigas casas geminadas, como aquela onde nasci, na rua Mateus Grou, no bairro vizinho de Pinheiros, hoje um paliteiro de prédios.

Vila Madalena era uma das "três irmãs", junto com a Vila Beatriz e a Vila Ida, os nomes das filhas do português que era dono dessas terras, divididas em chácaras, ao longo da Estrada das Boiadas, por onde passavam as tropas a caminho do matadouro da Vila Clementino.

Cortadas pelo córrego das Corujas, estas antigas chácaras, que se tornaram bairros ocupados por vilas de casas, dariam mais recentemente lugar aos prédios, como esse onde moro hoje. Antes disso, as antigas casas também se tornaram redutos de bares e restaurantes de uma região boêmia, próxima à Universidade de São Paulo, onde se podia ouvir boa música brasileira ao vivo e falar mal do governo.

Como é rota dos aviões que chegam e saem de Congonhas, os sons começaram a se misturar até virar esta sinfonia maluca, que mistura o carro da pamonha com as motos dos entregadores de comida nestes tempos de pandemia, as buzinas dos motoristas nervosos com as britadeiras, os latidos dos cachorros e o bate-estacas das obras, sem falar nas baladas de sexta à noite.

Ah, sim, ouço também um único galo a cantar em algum quintal da antiga vizinhança, todas as manhãs, para lembrar os velhos tempos.

Isto é São Paulo, a cidade do barulho, que está sempre em construção, mas também de muitas coisas boas, a começar pela família, os amigos e o trabalho, que não me deixam sair daqui por nada. E, claro, também os bons botecos que sobrevivem na Vila Madalena... Ninguém é de ferro.

Vida que recomeça.