PUBLICIDADE
Topo

Camilo Vannuchi

Professores da USP indicam Júlio Lancellotti a prêmio espanhol

Retrato do padre Júlio Lancelotti durante distribuição de alimentos na Paróquia Sao Miguel Arcanjo, no bairro da Móoca - Ricardo Matsukawa/UOL
Retrato do padre Júlio Lancelotti durante distribuição de alimentos na Paróquia Sao Miguel Arcanjo, no bairro da Móoca Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

21/01/2021 02h51

A ideia partiu do professor Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Juntamente com Flávio Aguiar, professor aposentado de literatura brasileira na mesma universidade e há mais de uma década residindo na Alemanha, Janine propôs à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP que a instituição formalizasse a candidatura do Padre Júlio Lancellotti para os Prêmios Princesa das Astúrias de 2021 na categoria Concórdia.

Até recentemente, os Prêmios Princesa das Astúrias eram chamados de Príncipe das Astúrias - uma alteração sutil, mas repleta de significado. Trata-se de uma das condecorações mais importantes da Espanha, uma espécie de versão nacional do Prêmio Nobel. Ao todo, são oito categorias, que incluem artes, cooperação internacional, letras e esportes. Entre elas, destaca-se a categoria "Concórdia". Segundo o regulamento oficial, são potenciais candidatos nessa categoria as cidadãs e os cidadãos com destacada atuação na defesa e na difusão dos direitos humanos, bem como na "promoção da paz, da liberdade, da solidariedade, do patrimônio mundial e do progresso da humanidade".

"Nesta categoria, o prêmio Princesa das Astúrias é uma espécie de prêmio da Paz, que se dá a pessoas que promoveram aproximação, redução de conflitos e aprimoramento da vida coletiva", diz Renato Janine. "Penso que Padre Júlio Lancellotti é amplamente merecedor pelo trabalho que realiza há décadas no sentido de integrar as populações mais pobres e mais sofridas de São Paulo. Um homem muito corajoso, que enfrenta as maiores dificuldades, sempre com muita galhardia e muita coragem".

Ainda em dezembro, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) aprovou a indicação feita pelos dois professores. O formulário e uma breve coleção de documentos que indiquem o currículo e os principais feitos de Padre Júlio deverão ser protocolados até o dia 4 de março. Até lá, os dois professores propõem ampliar o conjunto de faculdades e universidades que sejam signatárias da candidatura. "O prêmio Princesa das Astúrias seria uma consagração do papel que Júlio Lancellotti tem desempenhado, e também um sinal importante para os países mais pobres quanto à valorização do trabalho de pessoas como ele, inteiramente dedicadas às populações excluídas de modo geral", acrescenta Renato Janine.

#VacinaPadreJulio

Nos primeiros dias de janeiro de 2021, quando o governo do Estado de São Paulo confirmou o início da campanha de vacinação contra a Covid-19 para o final do mês, uma campanha correu as redes sociais propondo que a primeira pessoa a ser vacinada fosse o Padre Júlio Lancellotti. "Deem a primeira vacina para o padre Júlio", dizia um painel com a foto do sacerdote projetado na empena cega de um prédio da região central da cidade. Seu nome acabou preterido por não ser um profissional da saúde na linha de frente do combate à Covid-19 e também por não ter mais de 80 anos. Num gesto acertado do governo paulista, a primeira pessoa a receber a primeira dose de Coronavac no Brasil foi a enfermeira Mônica Calazans, preta e periférica, na linha de frente do combate à doença. Padre Júlio terá de esperar a vez do seu grupo.

Campanha vacina para Padre Júlio Lancellotti - Projetemos/divulgação - Projetemos/divulgação
Campanha nas redes sociais pediu que a primeira vacina contra a Covid-19 fosse aplicada no Padre Júlio Lancellotti
Imagem: Projetemos/divulgação

Aos 72 anos, o responsável pela Paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, é padre desde 1985 e foi um dos fundadores da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, em 1977, antes mesmo de ser ordenado. Desde 1993, Padre Júlio coordena a Pastoral do Povo de Rua. Os desabrigados, os desassistidos, os dependentes químicos, as travestis, os desajustados, os presos, os marginalizados, são esses os sujeitos que Padre Júlio acolhe, conforta e alimenta em seu trabalho diário pelas ruas da cidade mais populosa da América do Sul.

Em tempos de pandemia, Júlio Lancellotti reforçou sua presença junto à população em situação de rua. O risco de contágio da Covid-19 não o demoveu daquela que considera sua missão de vida: a proteção dos direitos dos mais vulneráveis. Ao contrário, Padre Júlio respondeu ao avanço do novo coronavírus com maior dedicação e empenho em seu trabalho pastoral. "Na pandemia, os irmãos de rua esperavam que eu estivesse aqui e não posso traí-los", afirmou, em entrevista ao El País Brasil.

Irmãos de rua

Para Padre Júlio, a atenção ao povo da rua não se confunde com caridade. Não se trata de dar sopa, mas de reconhecer a humanidade, a cidadania e os direitos humanos dos sem-teto, dos detentos, dos enfermos, dos droga adictos, da população LGBT. "É impossível não ver que esse povo está crucificado por um sistema injusto; crucificado pela polícia, pela tortura; crucificado pela violência, pela especulação imobiliária", ele diz no livro O Jesus das ruas na trajetória do Pe. Júlio Lancellotti, escrito por Paulo Escobar no ano passado. "É uma cruz muito pesada a que esse povo carrega".

Em 2020, enquanto Padre Júlio ignorou as recomendações para que ficasse em casa em razão da idade e manteve a rotina de ir ao encontro do povo da rua com sua máscara anti-Covid - normalmente, um modelo com respirador e filtros que retêm partículas tóxicas e oxônio -, uma nova onda de ameaças e perseguições foi deflagrada contra ele. Em janeiro, três jovens em situação de rua relataram que policiais teriam afirmado a eles, em tom ameaçador, que "a hora do Padre Júlio vai chegar". Em setembro, um político conservador, deputado estadual e então candidato a Prefeito de São Paulo pelo Patriota (partido de direita, Arthur do Val o chamou de "cafetão da miséria" em sua conta no Twitter. O argumento é que o vigário do Povo de Rua usaria a pobreza para se beneficiar e se projetar. "O que o Padre Lancellotti faz é deplorável", escreveu o agressor. Outro candidato, o então prefeito Bruno Covas, que seria reeleito em novembro, chamou Padre Júlio de "incômodo": um incômodo "necessário para a Prefeitura não perder o foco".

Dias depois, câmeras de segurança registraram quando um motoqueiro o agrediu verbalmente, proferindo palavrões e o acusando de defender os "nóias", gíria utilizada no Brasil para se referir aos dependentes químicos que consomem crack nas ruas. Padre Júlio registrou um boletim de ocorrência. Segundo ele, os ataques feitos por candidatos à Prefeitura o faziam se sentir cada vez mais em risco. "Então, quero deixar claro: se me acontecer alguma coisa, se alguém me atingir, se eu for atingido por alguém, vocês sabem de quem é a culpa, sabem de quem cobrar", alertou em vídeo.

Papa Francisco sobre Padre Júlio: "mensageiro de Deus"

O episódio motivou um telefonema do Papa Francisco em 10 de outubro de 2020, um sábado. Na conversa, o sumo pontífice relatou ao vigário da Mooca que havia recebido algumas fotografias do trabalho realizado por Lancellotti junto à Pastoral do Povo de Rua em São Paulo. Disse que sabia das dificuldades enfrentadas e pediu a Padre Júlio que não desanimasse. No dia seguinte, durante a oração do Angelus, celebração realizada ao meio-dia de domingo diante da Praça São Pedro, no Vaticano, o papa contou sobre o telefonema da véspera. "Ontem à tarde", narrou, em italiano, "consegui telefonar para um idoso, um padre italiano que é missionário da juventude no Brasil, mas sempre trabalhando com os excluídos, com os pobres. Ele vive a velhice em paz: consumiu sua vida com os pobres. Esta é a nossa Mãe Igreja, este é o mensageiro de Deus que vai às encruzilhadas das estradas". Francisco se equivocou quanto à nacionalidade de Padre Júlio, que é filho de italianos, mas nasceu no Brasil.

Reconhecimento pela atuação em defesa dos Direitos Humanos

Três semanas antes do telefonema do papa, ainda em setembro, sugeri nas redes sociais que Júlio Lancellotti fosse indicado ao Prêmio Dom Paulo Evaristo Arns de Direitos Humanos, conferido pela Prefeitura de São Paulo. A proposta "viralizou" e, em poucas semanas, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania recebeu o número recorde de 16.643 formulários com indicações de pessoas para serem homenageadas com o prêmio. Dessas, 15.598 sugeriram o nome do vigário episcopal do Povo da Rua, nada menos que 94% das indicações feitas.

Em evento para poucos convidados no dia 11 de dezembro, Padre Júlio recebeu o prêmio das mãos da Secretária Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Ana Cláudia Carletto, e lembrou sua convivência com o então arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, patrono do prêmio da Prefeitura, nos anos 1970 e 1980. Prometeu colocar o troféu numa carroça de catadores e levá-lo para a "maloca" dos moradores de rua. "Para que saibam que eles existem, que eles têm direito de viver, que eles são pessoas, que eles são seres humanos", discursou.

O premiado também aproveitou a ocasião para repetir o apelo aos secretários e demais servidores do Executivo Municipal: que a Guarda Civil Metropolitana deixe de bater nos moradores de rua, de retirar os pertences daquela população, uma agressão ainda muito frequente na cidade. "Não é possível que o rapa continue tirando cobertas, barracas, comida, documentos, remédios dos moradores de rua", reclamou. "A nossa cidade está vivendo uma emergência, uma crise humanitária".

Ainda em dezembro, Padre Júlio foi homenageado com o Prêmio de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo (USP). Em anos anteriores, a extensa trajetória de Júlio Lancellotti o fizera merecedor de outras homenagens, entre as quais se destaca o Prêmio Direitos Humanos 2007, oferecido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ocasião em que foi ovacionado no Palácio do Planalto.

Trajetória de Padre Júlio

Júlio Renato Lancellotti nasceu em São Paulo, em 27 de dezembro de 1948. Ingressou adolescente no seminário, mas, contestador, foi expulso aos 19 anos, já no noviciado. Foi trabalhar como auxiliar de enfermagem e formou-se em pedagogia, atuando como professor por mais de uma década, primeiro na alfabetização de crianças e, em seguida, como docente de história da educação no ensino superior. Só mais tarde, aos 32 anos, retomou a atividade religiosa. No final dos anos 1970, trabalhava como educador na antiga Febem, incomodado com a violência aos quais os menores infratores eram submetidos, quando se afastou para se juntar a Dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar de São Paulo, nas atividades da recém-criada Pastoral do Menor. A experiência culminou em sua volta à atividade religiosa, agora para ficar. Em 1980, logo após a visita do Papa João Paulo II ao Brasil, Dom Luciano perguntou a Júlio Lancellotti quando teria a satisfação de ordená-lo. Júlio ingressou no curso de teologia em 1981 e foi ordenado em 20 de abril de 1985, pelo próprio Dom Luciano.

Além de Dom Luciano, Júlio Lancellotti teve outro mentor que logo se tornou sua maior referência na defesa dos direitos humanos: o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo entre 1970 e 1998. Foi Dom Paulo que trouxe para a arquidiocese o compromisso com a "opção preferencial pelos pobres", expressão cunhada na primeira metade dos anos 1960 durante o Concílio Vaticano II.

Dom Paulo foi responsável por implantar o que ficou conhecido como Operação Periferia, instalando quase uma centena de centros comunitários por toda a região metropolitana, uma forma de aproximar a igreja das casas e do cotidiano das pessoas. Foi neste processo que se criaram ou se fortaleceram a Pastoral do Menor, a Pastoral Carcerária, a Pastoral Operária e a Pastoral do Povo de Rua.

Nos anos 1990, sensibilizado com o avanço do HIV e especialmente preocupado com o cuidado das crianças soropositivas que haviam perdidos suas mães para doença, Padre Júlio criou a Casa Vida I e, em seguida, a Casa Vida II, locais em que abrigou centenas de meninos e meninas ao longo da década. Além de acolher essas crianças, a iniciativa ajudou a romper preconceitos e a ampliar o conhecimento sobre a Aids.

Com o mesmo espírito de zelo e responsabilidade social demonstrado na atuação junto às crianças soropositivas e aos menores infratores, Padre Júlio estendeu seu acolhimento aos usuários de crack e às travestis e transexuais nos anos 2000, sempre buscando o enfrentamento da dor, da miséria e da exclusão, bem como a emancipação dessas pessoas e sua inserção social, como sujeitos de cidadania e direitos. A pandemia do novo coronavírus só fez ampliar o compromisso, a ousadia, a entrega e, sobretudo, a absoluta urgência de fortalecer o trabalho de Padre Júlio Renato Lancellotti, o vigário do povo da rua, "o mensageiro de Deus que vai às encruzilhadas das estradas".