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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A mentira está no DNA das Forças Armadas no Brasil

Ministro da Defesa, General Braga Netto, em foto de fevereiro de 2018, na ocasião da intervenção federal na segurança do Rio. Ele publicou nota de repúdio à declaração do senador Omar Aziz, segundo o qual "membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatruas" - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ministro da Defesa, General Braga Netto, em foto de fevereiro de 2018, na ocasião da intervenção federal na segurança do Rio. Ele publicou nota de repúdio à declaração do senador Omar Aziz, segundo o qual "membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatruas" Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

08/07/2021 14h16

General Braga Netto, o senhor e seus correligionários que me perdoem, mas eu sei o que vocês fizeram no verão passado. E no anterior também.

A mentira, ilustre general, está no DNA das Forças Armadas no Brasil. Ela corrói há pelo menos cinquenta anos a credibilidade da instituição que o senhor venera. Ela não é apenas circunstancial, como demonstrou o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, ao convocar a Polícia Legislativa para dar voz de prisão ao ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, por mentir ao negar o pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina à empresa Davati Medical Supply - condição para fechar um contrato de aquisição de 400 milhões de doses da AstraZeneca, em fevereiro, conforme revelou a Folha de S.Paulo. Circunstancial foi o pedido de prisão. A profusão de mentiras, ao contrário, é estrutural e histórica.

Não adianta fazer escândalo, senhor Ministro da Defesa. Não adianta divulgar nota de repúdio nem reclamar publicamente de Omar Aziz. O senador não atacou as Forças Armadas. O que ele fez foi defender as Forças Armadas da corrosão da qual o senhor e os chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica têm sido cúmplices. Quem tem atacado sistematicamente as Forças Armadas são os senhores, ao tomá-las de assalto, expô-las ao ridículo, repetir mentiras cada vez mais abusivas e levianas e passar pano para a incompetência e a corrupção que se alastram por suas fileiras.

Arrisco dizer que as Forças Armadas nunca estiveram tão atoladas em evidências de corrupção, descaso, incompetência e mentiras quanto agora, sob o atual governo. Mentira é afirmar, sob juramento, que um encontro agendado aconteceu por acaso. Mentira é agir deliberadamente contra a saúde pública, é usar a dor de meio milhão de famílias para faturar algum, é desviar dinheiro às custas de tantas mortes. Mentira é poupar o general Pazuello, mentiroso contumaz conforme apontaram agências de checagem. É proteger os parças, os brothers, os manos. É ameaçar, é usar o coturno, a farda e as quatro estrelas para colocar os interesses pessoais e o corporativismo acima dos interesses do país.

A mentira das Forças Armadas é notória. Militares mentiram ao matar e sumir com os corpos de centenas de desaparecidos políticos. Mentiram ao eliminar Zuzu Angel, a corajosa estilista que, cinquenta anos atrás, denunciou incansavelmente o assassinato de seu filho, Stuart Angel, pelos agentes da repressão. Mentiram no atentado do Riocentro, que culminou na morte do sargento Guilherme Pereira do Rosário, há quarenta anos. Mentiram novamente, muito recentemente, em janeiro deste ano, ao adulterarem digitalmente as fotografias feitas num treinamento do Exército para que máscaras - rabiscadas toscamente no Paint Brush - fossem aplicadas sobre os rostos dos participantes. Naquela ocasião, seria muito bem-vinda uma nota pública, assinada pelo senhor ou por um de seus colegas, lamentando o ocorrido e prometendo apurar internamente os responsáveis por colocar cidadãos em risco, contribuir para o contágio de Covid-19 e mentir à população. Uma pena que ninguém se dispôs a escrever uma nota sobre isso. Foram todos duplamente irresponsáveis, ao dispensar a proteção das máscaras e ao mentir, alterando uma foto para dizer que não fizeram o que fizeram.

Ora, general, a mim o senhor não engana. Conheço o modus operandi. Para quem adulterou a fotografia da chacina praticada pelo Exército contra os dirigentes do PCdoB reunidos na casa da Lapa, em 1976, para incluir uma arma ao lado do corpo de Pedro Pomar, qual a gravidade de adicionar máscaras inofensivas a uma fotografia divulgada nas redes sociais? O senhor deveria se envergonhar. Não da declaração de Omar Aziz, mas do desserviço prestado à democracia e às liberdades individuais e políticas. Deveria se envergonhar das verdades sistematicamente negadas por sua turma. Os militares que recorrem ao Paint Brush para omitir um deslize são os mesmos que estufam o peito para dizer que não torturaram, que não sabem onde estão os corpos, que não há documentos com informações inéditas, que a ditadura foi a coisa mais fofa que existiu na face da Terra, pelo menos desde os tempos da escravidão.

A mentira, general, não é apenas estrutural, mas estratégica nas Forças Armadas. Faz parte da ética dos militares esconder, confundir, ocultar. O despiste é um resquício da arte da guerra e, sobretudo, da ditadura. A ética dos sistemas e das instituições autoritárias, como o atual governo do Brasil, é a ética de encobrir os feitos das autoridades e escancarar os dos cidadãos. Para o rei, a privacidade; para a população, a transparência. Sistema de informação, espiões, agentes infiltrados, polícia secreta, polícia política, telefones grampeados, veraneios fazendo a ronda, vale tudo na hora de investigar a vida dos outros. Quanto aos atos das autoridades, carimbo de sigilo e classificação como segredo de Estado. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL