Carlos Madeiro

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Reportagem

Cabras viveram 3 séculos em Abrolhos sem água potável: 'tesouro genético'

Uma história que perpassou ao menos três séculos chegou ao fim no Arquipélago dos Abrolhos, costa sul da Bahia. As cabras e bodes selvagens que viveram —e afetaram o meio ambiente— desde o século 17 foram retiradas e estão sendo avaliadas por pesquisadores, que querem entender como elas sobreviveram em um local sem água potável.

A presença desse rebanho da ilha Santa Bárbara (única que ainda restava animais) era incompatível com o santuário de reprodução para aves marinhas, incluindo espécies ameaçadas de extinção, como a grazina-do-bico-vermelho. Ao todo foram capturados 27 caprinos e levados para a UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), em Itapetinga, onde serão estudadas pela primeira vez.

Segundo o professor Ronaldo Vasconcelos, do curso de Zootecnia da UESB e que vai coordenar os estudos com esses animais, trata-se de "um verdadeiro tesouro genético". "Esse plantel sobreviveu com resistência muito intensa, porque a ilha não tem água potável. A fonte de água doce da ilha é quando chove. É uma resistência espetacular", explica.

Durante esse período, ele cita que houve época em que o rebanho tinha mais de 200 animais.

A duração desses animais lá, acredita Ronaldo, só foi possível porque eles são animais de fácil adaptação a locais secos. "Elas devem sobreviver bebendo um pouco de água salgada", relata.

Operação para capturar cabras e bodes em Abrolhos (BA)
Operação para capturar cabras e bodes em Abrolhos (BA) Imagem: Jessyca Teixeira/ICMBio Abrolhos

Ao chegarem na universidade, as cabras foram colocadas em quarentena, já que precisavam passar por um isolamento até serem vacinadas, vermifugadas e passassem por um estudo de comportamento. "É um ambiente completamente diferente do que estavam", diz.

O primeiro processo agora é fazer o trabalho de caracterização racial desse material, para que a gente possa ter uma referência fenotípica, morfológica do que nós encontramos. A partir daí, vamos direcionar as formas de cruzamento, pesquisas na área de nutrição.
Ronaldo Vasconcelos

Na universidade, junto com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), será feita também uma reprodução dos animais para que o rebanho cresça. O destino final desses animais, diz Ronaldo, é incerto.

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Você tem um recurso genético distinto em processo de isolamento durante esses anos todos e que deve ter desenvolvido algumas habilidades. Se me perguntar qual o direcionamento desse material, nós não temos resposta: pode ser para carne, para leite, mas vir a ser base de um novo material que possa ser cruzado ou não. As respostas, a gente só começa a obter agora.
Ronaldo Vasconcelos

Por que elas eram um problema

"As cabras se adaptaram muito bem ao meio, mas o ambiente não se adaptou a elas", diz o chefe do Núcleo de Gestão Integrada Abrolhos do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Erismar Rocha.

Erismar afirma que a presença dos caprinos causava três tipos de impactos:

  • Eles consomem a vegetação nativa de forma voraz;
  • A aceleração do assoreamento, com a compactação do solo e causando um conjunto de erosões. Esse processo diminui a fertilidade, gerando áreas de solos rasos;
  • A incompatibilidade da relação desses animais com as aves marinhas e seus ninhos, que ficam no chão. Havia, por exemplo, pisoteio e quebra de ovos.
Aves no Arquipélago de Abrolhos (BA)
Aves no Arquipélago de Abrolhos (BA) Imagem: Lucas Cabral/ICMBio
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Como foram parar lá?

A história desses animais remonta ainda à época das navegações colonizadoras, quando os caprinos eram uma fonte de alimentação com facilidade de adaptação a ambientes inóspitos. "Era um hábito dos navegadores largar esses animais em ilhas para que tivessem uma reserva de proteína na rota de navegação", explica Erismar.

Com o passar dos anos, manter esses animais por essa finalidade perdeu o sentido. "Ambientalmente, desde a criação da unidade de conservação sabíamos que elas eram um problema e teríamos que erradicar", diz.

O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos foi criado em 6 de abril de 1983 para proteger a região com a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul. O arquipélago é composto por cinco ilhas, mas apenas uma delas habitável: a Santa Bárbara, onde viviam os animais. Ela é a única também sob administração da Marinha

Farol da Ilha de Santa Bárbara, em Abrolhos (BA)
Farol da Ilha de Santa Bárbara, em Abrolhos (BA) Imagem: Marinha do Brasil

Porque a demora?

Erismar cita que, em vários momentos desde a criação da unidade, a retirada dos animais foi discutida pelas autoridades. "Mas elas nunca avançaram por questões burocráticas: era preciso fazer um plano de manejo racional, levando em conta o bem-estar animal e o potencial de pesquisa".

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Sem plano para erradicar, as autoridades fizeram apenas controle populacional: sempre que o rebanho crescia a níveis maiores, havia ações para redução para um tamanho.

Nos últimos 10 anos, diz Erismar, as conversas se intensificaram, e um plano de retirada começou a ser feito em 2023. No começo ano ele foi colocado em prática: foram feitas expedições entre janeiro e março, e a última cabra foi capturada no último dia 15.

A operação que retirou os 27 animais contou com 35 pessoas e a participação de cinco instituições:

  • Marinha do Brasil
  • ICMBio
  • Embrapa
  • ADAB (Agência de Defesa Agropecuária da Bahia)
  • UESB
Operação para capturar animais de Abrolhos durou dois meses
Operação para capturar animais de Abrolhos durou dois meses Imagem: ICMBIo

Foi um grande esforço de todos porque estamos falando de uma área superior a 30 hectares. Foi necessário usar tecnologia, como três drones para mapear onde se encontravam. Houve todo um cuidado para fazer o cerco, participação de veterinários para tentar um nível de estresse controlado dos animais. Em alguns casos, tivemos de sedar para fazer o transporte.
Erismar Rocha

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Com a retirada, tem início agora um processo de recuperação da vegetação. Como há algumas espécies exóticas (não naturais na ilha), Erismar diz que devem ser necessárias algumas ações de manejo para que ela não tome outras áreas. "Isso vai exigir de todos um acompanhamento e verificação, porque vem uma nova dinâmica da vegetação e novas ameaças", pontua.

Sobre Abrolhos

O arquipélago de Abrolhos é composto por cinco ilhas de origem vulcânica:

  • Santa Bárbara
  • Redonda
  • Siriba
  • Sueste
  • Guarita

A Ilha Santa Bárbara é a única habitável e também é a única administrada pela Marinha. Ela fica a cerca de 65 km de Caravelas (BA). Ela é importante para o monitoramento de embarcações, a salvaguarda do patrimônio histórico-cultural e a manutenção do radiofarol de Abrolhos.

Já as demais ilhas fazem parte do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, de responsabilidade do ICMBio, que tem uma área total de 879 km². Seus principais ecossistemas são recifes, que devem ser preservados pelas suas formações únicas em forma de pináculos, conhecidas como chapeirões.

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Area de proteção ambiental marinha de Abrolhos na costa do sul da Bahia
Area de proteção ambiental marinha de Abrolhos na costa do sul da Bahia Imagem: Rubens Cavallari/Folhapress

Reportagem

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23 comentários

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Jeronimo Gomes de Oliveira Filho

Nos dias de hoje é altamente louvável que ainda existam governos e instituições agindo nesse sentido depois de tanto "passar a boiada" ... que o santuário se recupere cada vez mais como lar/maternidade daquelas aves.

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Marcelo Soares de Oliveira

Um detalhe da matéria é o uso incorreto da expressão "água potável" para definir água "doce" que são as de rios e lagos,  por exemplo, das quais os animais se utilizam para dessedentação. Água potável é aquela destinada ao consumo humano (mas nada impede que seja disponibilizada para animais), atendendo aos padrões de qualidade que, no Brasil, estão definidos na portaria 888 do ministério da saúde. Esta água é aquela tratada, clorada e fluoretada...

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Luis Henrique Rezende Arouche de Toledo

Parabéns pela matéria, muito interessante mesmo. Mas precisamos fazer um elogio ao nosso governo, que levou mais de 4 décadas para aprovar a retirada de 30 cabras de uma Ilha. 

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