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Chico Alves


"Tem que assumir que está indo para direita", diz Lupi sobre Tabata

Tabata Amaral, a troca de partido e os bastidores do Roda Viva

UOL Notícias
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

15/10/2019 12h38

Resumo da notícia

  • PDT suspendeu Tabata Amaral por não votar com partido
  • Deputada federal foi a favor da reforma da Previdência
  • Ontem, ela afirmou que vai pedir seu mandato na Justiça
  • Para o presidente do partido, parlamentar se "faz de vítima"

O presidente do PDT foi dormir na noite de ontem sem saber que a deputada Tabata Amaral anunciara em entrevista no programa Roda Viva que iria entrar na Justiça para conseguir desligamento do partido sem perder o mandato. Carlos Lupi estava num voo de Belém para o Rio de Janeiro. Apenas na manhã de hoje, ao ver o vídeo no UOL, tomou conhecimento da novidade.

14.out.2019: A deputada federal Tabata Amaral é a entrevistada do Roda Viva - Reprodução/TV Cultura
14.out.2019: A deputada federal Tabata Amaral é a entrevistada do Roda Viva
Imagem: Reprodução/TV Cultura
A deputada e o partido estão em rota de colisão desde que Tabata votou a favor da reforma da Previdência. Acabou suspensa juntamente com outros sete parlamentares da legenda que fizeram o mesmo.

Em entrevista à coluna, Lupi não se mostrou surpreso com a atitude e desmente que ela tenha sofrido discriminação da direção pedetista.

"Quando acontece uma suspensão, toda a representação partidária fica suspensa. É o que acontece com ela e os outros sete. Para isso existe a punição prevista em estatuto e em lei. Se não for assim, para que serviria a punição?" Ele diz que a deputada sabia da convocação para a apresentação do relatório da Comissão de Ética e por isso quis se antecipar.

O dirigente do PDT afirma que a origem dos problemas é o fato de a deputada não ter lido o estatuto do partido, onde consta que a defesa do trabalhador é um princípio básico da agremiação.

"Nunca poderíamos votar em uma reforma da Previdência que penaliza somente os trabalhadores que ganham até três salários mínimos", afirma. Para Lupi, ela quer se passar por vítima, mas mostra o mesmo apego ao mandato que é a marca dos chamados políticos tradicionais.

UOL - A atitude da deputada Tabata Amaral, de anunciar que ia pedir desligamento do partido em pleno programa Roda Viva, sem avisar à direção da legenda, o deixou surpreso?
Carlos Lupi - Ela está distante da gente há muito tempo. A mim não causa estranheza. A Tabata é fria, ela quer se passar por vítima. Fala isso para que esqueçamos que ela votou contra o trabalhador. Eu não nasci ontem, nasci anteontem. Ela é muito bem assessorada, tem gente muito forte e poderosa atrás dela, recebe orientação de advogados renomados, para que se faça de discriminada, vítima.

Contra um partido tido como ultrapassado, a nova. Contra alguém que é tido como caudilhesco, a democrata... Eu já vi esse filme. Só que eles cometem alguns erros fatais. Primeiro, ela nunca leu os estatutos do partido. Quando alguém se filia a uma legenda deveria ler o estatuto. Se fizesse isso, iria ver que no do PDT a defesa do trabalhador é o princípio básico da nossa existência.

O que ela quer é manter o mandato. É a preocupação que todo político tradicional, antigo, a velhacaria, tem: manter o status quo, manter o mandato. Esse é o eixo de toda a questão. É a vítima, a perseguida, a coitadinha e quer manter o mandato.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e Ciro Gomes - Pedro Ladeira-10.out.2018/Folhapress
O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e Ciro Gomes
Imagem: Pedro Ladeira-10.out.2018/Folhapress
A deputada diz que avisou ao partido que iria votar a favor da reforma.
Somente no dia da votação ela foi na sede nacional me comunicar isso. Inclusive fizemos uma reunião da bancada, tentando demovê-la. Cada um tem direito de cultivar uma visão de mundo, mas quando você se filia a um partido que tem a nossa tradição deve reconhecer a nossa coerência, goste-se ou não.

A defesa do trabalhador é a razão da nossa existência. Isso foi explicado, eu me humilhei nas reuniões, falei para ela: "pelo amor de Deus, isso (a Reforma da Previdência) é contra a sua origem, isso vai contra as nossas pensionistas. Onde tem um ponto para mexer com marajás, com o Poder Judiciário, com os grandes salários do Tribunal de Contas, do próprio Legislativo e do Executivo? Não tem um artigo sequer sobre isso". Mesmo depois de ter falado, conversado muito, ela respondeu que estava convencida da sua posição. Eu vou fazer o quê?

Tabata disse que não houve novas reuniões para tentar rediscutir o fechamento de questão, apesar de solicitadas.
Tenho as atas. Ela participou de pelo menos oito ou dez reuniões, algumas das quais o Ciro Gomes participou, exatamente sobre isso. A deputada votou com Bolsonaro contra o trabalhador, tem que assumir que está indo para direita e não consegue explicar isso. Oitenta por cento da reforma da Previdência é em cima de quem ganha até R$ 3.000. Esse é o fato.

E quanto à acusação de discriminação, de que não participava de comissões?
Quando acontece uma suspensão, toda a representação partidária fica suspensa. É o que acontece com ela e os outros sete. Para isso existe a punição prevista em estatuto e em lei. Se não for assim, para que serviria a punição? Ela não é impedida de estar em uma comissão, mas aquelas que são indicação do partido ela não vai poder continuar, por estar suspensa.

Ninguém quer impedir a deputada de falar. Inclusive, tem feito colunas e vários artigos contra a gente. Tabata ofendeu a gente em vários momentos, em rádio, em televisão. Acho muito interessante ela entrar com ação para pedir o mandato. Quando arguir a discriminação, vamos ver quem tem razão.

Por qual motivo ela tomou a decisão de anunciar ontem?
Porque já foi feita a convocação para a reunião da Comissão de Ética do partido com a Executiva para apresentar o parecer, está marcada para o dia 22.

Já foi feito o edital, a deputada foi informada e por isso quis antecipar o processo. Mas não há proposta de expulsão, porque é isso que eles querem, para tentar manter o mandato. Vamos discutir qual tipo de suspensão vai ser aplicada.

Ela quer usar isso para voluntariamente sair e não perder o mandato. Quer dar uma espécie de aviso prévio judicial, mas nosso estatuto é muito claro quanto a condutas como a dela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves