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Chico Alves


Cronologia do descaso do governo com a tragédia ambiental do Nordeste

Voluntários tiram placas de óleo das praias do Nordeste - Clemente Coelho / Instituto Bioma Brasil
Voluntários tiram placas de óleo das praias do Nordeste Imagem: Clemente Coelho / Instituto Bioma Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

21/10/2019 09h08

Há quase 50 dias, Sidney Marcelino Silva não dorme direito. Desde 2 de setembro, quando as primeiras manchas de óleo grosso apareceram na praia de Porto de Galinhas e arredores, em Pernambuco, ele começou a alertar as autoridades. Diante da falta de resposta do governo federal, Silva passou a mobilizar moradores do litoral para que a própria comunidade fizesse a limpeza do mar e da areia. O trabalho extenuante muitas vezes começa antes do nascer do sol e termina depois da meia-noite.

Gestor ambiental e coordenador voluntário de um grupo que começou em 2008 a lutar pela preservação da natureza litorânea, o rapaz de 26 anos se mostra inconformado com a indiferença do Ministério do Meio Ambiente diante da maior tragédia ecológica do Nordeste. "Tudo isso poderia ter sido evitado se o governo federal tivesse atuado quando começamos a fazer os alertas", lamenta.

Desde os primeiros sinais do vazamento nas praias, Silva acorda de olho no monitoramento que aponta o melhor local para fazer a limpeza. Nos últimos dias, seu grupo e mais de 200 voluntários definiram Cabo de Santo Agostinho como a área indicada para o mutirão. O trabalho consiste em tirar da areia as placas de óleo e acondicioná-las em bolsas, recipientes de plástico ou galões de metal. A prefeitura se encarrega de levar o material para um aterro.

No primeiro dia, acharam que as manchas eram originadas de vazamento de óleo de uma refinaria local. No dia seguinte, quando apareceram numa outra praia, concluíram que era algo muito maior.

"Fomos os primeiros a publicar as informações no Instagram, já no dia 3 de setembro. Desde o início, marcamos os órgãos ambientais responsáveis: Ministério do Meio Ambiente, Ministério Público, até o presidente da República", conta Silva. No dia 11 de setembro, enviaram ofício ao Ministério Público Federal. Até agora, não houve qualquer ajuda vinda de Brasília.

O ambientalista diz que o governo estadual tenta fazer o monitoramento para acompanhar o movimento das manchas, mas não tem recursos adequados para isso. As prefeituras também se dispõem a apoiar, mas a estrutura precária não é a ideal. O governo federal é realmente a instância que tem infraestrutura para atuar nessa emergência. "Só agora começam a mobilizar a Marinha, mas não há nenhuma embarcação off shore aqui para trabalhar nisso", diz.

A população segue retirando no braço esses resíduos. Lidando com a substância tóxica, os voluntários correm riscos de saúde na tentativa de garantir não só a proteção do meio ambiente, mas a manutenção de sua única fonte de renda, seja pela pesca ou pelo turismo.

Ao criar há 11 anos, junto com amigos, o grupo Salve Maracaípe, Silva tinha o objetivo de lutar contra a invasão de áreas de preservação ambiental por empreendimentos imobiliários voltados para pessoas de alta renda. "Nunca imaginamos lidar com um problema dessas proporções", afirma.

Para o ambientalista, a omissão do governo federal é desumana. "É preciso que os governantes cumpram o papel deles, não podem ignorar o país desse jeito", desabafa. "A esperança que fica é de ver o povo arregaçar as mangas para resolver o problema. Além do trabalho de limpeza, estão doando dinheiro para comprar comida e acessórios como luvas e botas. A população está apontando o caminho da solução, falta o governo seguir".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves