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Chico Alves

Moro queimou imagem de herói, diz editora americana do The Intercept

Betsy Reed, editora-chefe do site The Intercept nos Estados Unidos - The Intercept / Divulgação
Betsy Reed, editora-chefe do site The Intercept nos Estados Unidos Imagem: The Intercept / Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/10/2019 12h36

Em meio à publicação da série Vaza Jato, que há quatro meses revela o vazamento de diálogos entre o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava Jato, a editora-chefe americana do site The Intercept, Betsy Reed, encontra motivos para elogiar as instituições do Brasil. "A proteção à imprensa na Constituição mostrou ser forte e nos protegeu de consequências ruins", avalia ela, referindo-se ao trabalho dos jornalistas de sua redação brasileira, que têm Glenn Greenwald à frente.

De passagem pelo Rio de Janeiro, Betsy falou nessa entrevista exclusiva à coluna sobre como as revelações mudaram o conceito dos americanos sobre a maior operação anticorrupção já feita no país. "Começaram a surgir perguntas: isso tem a ver realmente com corrupção ou com política?", relata. Ela considera que Moro queimou a imagem internacional que tinha de herói da democracia brasileira. O que não implica dizer que Lula seja inocente.

Betsy admite que foi surpreendida pela virulência das críticas do presidente Jair Bolsonaro a Glenn Greenwald no início da publicação da série, que incluiu ameaça de deportação. Diz que as críticas ao jornalista que citaram informações pessoais, como seus filhos adotivos no casamento com o deputado David Miranda (PSOL-RJ), nunca foram vistas nos Estados Unidos.

A jornalista acredita que a Vaza Jato é um caso emblemático porque "expõe a corrupção de quem se propõe a lutar contra a corrupção" e espera que o trabalho jornalístico resulte em melhorias no sistema e no comportamento de juízes e procuradores:

UOL - Antes das revelações da Vaza Jato, como era vista a Operação Lava Jato nos Estados Unidos?

Betsy Reed - Em geral Lava Jato era percebida como algo importante para a democracia brasileira, algo admirável, já que atingiu pessoas que estavam no centro do poder e sofreram penalidades. Nos Estados Unidos tivemos a crise financeira em 2008, foram cometidos todo tipo de crimes financeiros e ninguém foi parar na cadeia. Nesse nível, Lava Jato estava sendo vista como algo louvável. Claro que com o impeachment de Dilma e o julgamento de Lula começamos a ver que era algo mais complexo, começaram a surgir perguntas: isso tem a ver realmente com corrupção ou com política? Acho que para nós nos EUA, para Glenn e para a equipe aqui do Brasil, a Vaza Jato confirmou suspeitas que as pessoas já tinham, mas que nunca foram provadas. Foi chocante.

Que conceito passou a ter da Lava Jato a partir dessa série de reportagens?

Depois dos vazamentos percebi que tudo era muito pior do que eu imaginava. O partidarismo e a corrupção no processo judicial envolvido era pior do que eu esperava que fosse.

Esperavam alguma punição ou questionamento mais forte do juiz e dos procuradores por parte dos órgãos fiscalizadores da Justiça?

Não sabíamos exatamente o que esperar. Achamos que haveria grande impacto, mas vocês têm ainda Bolsonaro no poder e Moro como um super-ministro da Justiça. Enquanto essas pessoas estiverem controlando o sistema de prestação de contas é difícil prever se vão responder pelo que fizeram. Até o momento não aconteceu o que nós esperávamos, como Dallagnol ir embora ou Moro sair do poder. Porém, um grande debate foi estimulado.

Algo que achei bastante positivo e me impressionou em primeiro lugar foi que a proteção à imprensa na Constituição Brasileira mostrou ser forte e nos protegeu de consequências ruins. Isso era uma dúvida que tínhamos: "O que acontecerá conosco depois dessas denúncias?" Os americanos têm um grande orgulho quanto à primeira emenda (que, na Constituição dos Estados Unidos, defende a liberdade de imprensa), mas uma coisa que aprendi dessa experiência é que o Brasil tem uma proteção ainda maior em certos aspectos aos jornalistas e a suas fontes. Isso é uma coisa muito boa. Se olharmos esse episódio como uma espécie de teste para as instituições democráticas brasileiras, de certa forma foi algo bastante positivo. Temos que esperar os impactos de longo prazo. Acho que pode haver consequências bem sérias.

Apesar da Vaza Jato, a popularidade de Moro continua em alta.

Temos o aqui o mesmo problema que há em outros lugares: as pessoas acreditam que os fins justificam os meios. Isso é claramente o que o grupo da Lava Jato acreditava. Achavam que estavam cumprindo a missão deles, estavam fazendo a coisa certa e isso justificaria quebrar as regras. É um problema sério.

Nos Estados Unidos também há muita gente acreditando que os fins justificam os meios?

O que a gente vê na política americana é uma polarização total, parecida com o que acontece aqui. Veja o que Trump e republicanos estão fazendo, olhe como se comportam. Eles basicamente não têm qualquer princípio além de fazer o que for preciso para aumentar o poder e ganhar de novo a eleição. Usam a máquina da Justiça para isso, tentam influenciar a Ucrânia, tentam usar o Departamento de Justiça para isso. Acredito que há instituições liberais, comprometidas com o Estado de Direito, mas as coisas estão muito estratificadas politicamente.

Do que veio à tona pelos vazamentos, qual revelação a sra. considera a mais grave?

Eu acho que é o conluio entre Moro e os procuradores. Soubemos como eles trocaram informações, a forma como Moro dava orientações, como aconselhava. Ficou claro que Moro não era um juiz imparcial. Acho que isso é o requisito mais básico para um processo judicial isento.
Até agora, nem Moro nem os procuradores admitiram qualquer conduta inadequada.

É chocante que eles tenham mantido o posicionamento de que não fizeram nada de errado., Mais uma vez estão fazendo jogo político. Eles não vão admitir nada, a menos que sejam forçados a isso. Se as evidências forem aceitas em um tribunal, talvez sejam obrigados a responder pelo que fizeram. Antes que isso aconteça, não acredito que vão fazê-lo.

Nesse momento, no Brasil e nos EUA, graças às redes sociais e à mídia de um modo geral, pessoas como Trump, Moro e Bolsonaro falam apenas para o público que concorda com eles e ignoram os que não concordam. É o que vemos com Trump e está funcionando para ele. Parece que só agora o presidente americano está pagando o preço do que fez. Mas Moro conseguiu queimar a imagem internacional dele como herói da democracia brasileira. Acredito que, internacionalmente, essa fama foi bastante afetada pela Vaza Jato. No mundo todo.

E qual o nível de desgaste da imagem de Lula nos Estados Unidos, depois da Lava Jato?

Antes, havia muita admiração por Lula na esquerda num nível mais amplo, pelo sucesso na redução das desigualdades. É um problema que temos num nível muito extremo, que nunca esteve nesse nível nos EUA. Foi uma espécie de modelo para nós. Ele atraiu admiração por causa disso. Depois, com o julgamento e a prisão dele, foram levantadas dúvidas sobre Lula. Agora, há uma reavaliação de que talvez seja um caso mais complexo. Não acredito que as pessoas presumam que ele seja necessariamente inocente, mas certamente vêem que ele foi derrubado deliberadamente. Para qualquer pessoa que se importe com Justiça e com um processo correto, isso é uma ideia a ser condenada.

A sra. divulgou nota em resposta a ataques de Jair Bolsonaro a Glenn. Ficou surpresa com o tom usado pelo presidente?

Sim. Bolsonaro ameaçar um de nossos jornalistas com cadeia? Isso foi chocante. Nas redes sociais, os seguidores dele pediram a deportação de Glenn Greenwald, espalharam um monte de mentiras sobre ele (Glenn), isso foi preocupante. Mas houve também uma solidariedade global que surgiu a partir daí e isso nos tocou muito. Tivemos apoio vindo de diversas partes do mundo. Houve grande eventos no Rio e São Paulo em apoio a ele. Recebemos ataques, mas também recebemos bastante apoio.

O ponto mais baixo foram os ataques que citavam os filhos de Glenn e do deputado David Miranda (PSOL-RJ)?

É um nível de ameaça pessoal que nunca havíamos visto antes nos Estados Unidos. Foi uma coisa muito séria. Adotamos medidas para protegê-lo e ele acredita firmemente na importância de continuar a publicar essas matérias.

Houve um ato em que as pessoas gritavam "Glenn, eu te amo". Não é uma distorção que as pessoas vejam um jornalista como herói?

Concordo que não é saudável focar em apenas uma pessoa. Também não é uma visão precisa de como o trabalho jornalístico funciona. Glenn foi o profissional que originou, mas ele trabalhou muito de perto com a equipe de jornalistas brasileiros. Glenn deixou isso claro. Mas acredito que isso é uma reação natural, pois as pessoas tendem a acreditar em histórias em torno de um herói, a pessoa corajosa que enfrenta. Mas é preciso entender que nenhum jornalista conseguiria ter feito isso sozinho. Isso requereu uma equipe incrível de advogados, por exemplo, para nos ajudar a destrinchar como poderíamos publicar o material, quais seriam as consequências, que tipo de material seria o mais importante. Há editores, muitas pessoas envolvidas.

Esse tipo de "idolatria" pode ser um indício de que nossas instituições não funcionam como deveriam e muitos concentram esperanças demais na imprensa?

O jornalismo é tido como quarto poder. Precisa existir como verificador para manter as instituições sob vigilância. Elas sempre vão precisar dessa verificação, dessa supervisão. Nunca vão ser saudáveis o suficiente para não precisar. Essa instituições sempre querem ser mais secretas do que deveriam ser. Está no DNA delas. Você precisa de jornalistas para impor a transparência.

Sim, essa reação mostra uma falta de saúde das instituições. Nenhuma pessoa importante foi demitida por causa dessas denúncias, isso mostra que há algo errado no nível institucional. Mas sou otimista e acho que o debate está acontecendo de forma vigorosa no Brasil e tem a comunidade jurídica como apoiadora, porque vê o que aconteceu como uma afronta a tudo o que foi construído nas décadas após a ditadura militar.

Qual a o resultado final acredita que será alcançado com a série de reportagens da Vaza Jato?

Mostrar que esse processo que as pessoas acreditavam ser uma coisa justa e na verdade foi distorcido por objetivos políticos. Só ter essa compreensão já terá sido uma contribuição significativa. Espero que, como consequência, aconteçam também melhorias no sistema e no comportamento de juízes e procuradores. Isso pode tê-los assustado. Certamente assustou os procuradores, sabemos que ficaram assustados. Isso pode dar uma forcinha para eles fazerem o trabalho deles de forma diferente. Acreditamos que não há nada mais importante que a luta contra a corrupção. isso é fundamental na nossa missão: mostrar a corrupção. Esse é um caso emblemático porque expõe a corrupção de quem se propõe a lutar contra a corrupção. Esperamos que haja melhoria no sistema para que o processo de luta contra a corrupção se torne justo, essa é a nossa meta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.