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Chico Alves


Twitter de Bolsonaro não pode servir de brinquedinho para o filho

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/10/2019 10h59

Com a mesma irresponsabilidade com que um adolescente joga na rede um meme sobre futebol, o operador do Twitter do principal mandatário da nação criou uma crise institucional. O lamentável vídeo em que Jair Bolsonaro é representado por um leão, cercado de hienas, obrigou o discreto ministro Celso de Mello a reagir. Não poderia mesmo passar em branco.

Na cena, veículos de imprensa, OAB, partidos oposicionistas, feministas, CNBB e até o Supremo Tribunal Federal ameaçam Bolsonaro. A menção ao STF levou o decano a criticar o presidente pelo seu atrevimento sem limites e dizer que tal comportamento caracteriza falta de estatura presidencial.

Como aconteceu em várias outras ocasiões, o tuíte foi apagado pouco depois. Hoje, em entrevista ao Estado de S. Paulo, o presidente pediu perdão. "Me desculpo publicamente ao STF, a quem por ventura ficou ofendido. Foi uma injustiça, sim, corrigimos e vamos publicar uma matéria que leva para esse lado das desculpas. Erramos e haverá retratação."

Mesmo que Jair tenha assumido a culpa ("a responsabilidade final é minha"), a suspeita de autoria recai sobre Carlos Bolsonaro, que já cometeu antes impropriedades semelhantes. Ele tenta defendê-lo, dizendo que mais gente tem a senha. Algo que só piora a situação.

A conta de Twitter de um Presidente da República não pode ser como um brinquedinho emprestado ao filho pelos bons serviços prestados na campanha eleitoral. Nesses novos tempos, as redes sociais se tornaram meios oficiais de comunicação. Mensagens mal empregadas podem gerar atritos com outros países, causar alarde em situação de emergência ou agravar a crise institucional que o Brasil já vive.

Não é possível que a cada travessura digital, o pai Bolsonaro apareça para tentar aplacar os ânimos e dizer "Foi mal aí", como acontece quando um filho travesso risca a parede do prédio ou agride um coleguinha.

É preciso lembrar, inclusive, que Carlos não tem cargo formal no governo federal. Ele é vereador no Rio de Janeiro e deve ter relevantes assuntos para tratar na Câmara Municipal carioca.

Postar no Twitter um vídeo de inspiração autoritária não pode ser visto como um erro infantil. É preciso que a responsabilidade pela mensagem seja apurada e o autor punido.

Se não for assim, em breve Bolsonaro voltará a enfrentar críticas por causa de alguma postagem tresloucada e mais uma vez terá que repetir: "Foi mal aí". Certamente, o presidente tem problemas mais importantes para resolver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves