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Chico Alves


Bebianno defende que Eduardo Bolsonaro seja cassado por cogitar novo AI-5

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

31/10/2019 17h14

Há algum tempo, o ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, vem alertando em suas entrevistas para as declarações dos filhos do presidente Jair Bolsonaro e de integrantes de sua equipe que sinalizam o desejo de ruptura institucional. Diante da entrevista do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) à jornalista Leda Nagle, Bebianno acredita que é preciso dar fim à escalada ameaçadora.

"Se Jair não dá esse basta, o Congresso tem que dar", afirma o ex-ministro, que recentemente anunciou seu ingresso no PSDB, em entrevista à coluna. "Diante dessa fala do Eduardo, que não é a primeira, o mandato dele tem que ser cassado, na minha opinião"

Com a experiência de quem circulou pelas altas cúpulas militares durante a campanha presidencial, para ajudar a quebrar a resistência que muitos oficiais da ativa tinham a Bolsonaro, o ex-ministro e hoje desafeto do presidente não acredita que os oficiais apoiem qualquer tipo de golpe. Mas avalia que a simples tentativa já seria suficiente para provocar uma tragédia no país.

Com todas as turbulências criadas pelo próprio governo, Bebianno acredita que o trabalho de recuperação econômica que atribui a Paulo Guedes fica prejudicado. "Para Guedes conseguir isso precisa de um ambiente minimamente tranquilo, harmônico. Só que o presidente Jair Bolsonaro puxa a corda para o lado oposto, criando sempre muita turbulência".

UOL - Como o sr. recebeu essa ameaça de ruptura institucional defendida pelo deputado Eduardo Bolsonaro?

Gustavo Bebianno - É mais uma crise que se abre. Ou seja, é um governo, que, como dizia o general Santos Cruz, é uma fábrica de crises. O PT e a oposição simplesmente não precisam trabalhar, o próprio governo gera crise atrás de crise contra si próprio.

A situação me faz lembrar a antiga Loteria esportiva, em que o apostador tinha três opções: coluna A, coluna B e coluna do meio. Nesse ritmo, com essas crises sucessivas e infinitas, resta a seguinte pergunta: vai governar como? Existem três alternativas. Dá uma de Jânio Quadros e vai renunciar, dizer que está impossível governar e vai embora, coluna A. Tem a coluna B: vai sofrer impeachment porque está em guerra com todo mundo, dando elementos para sofrer ataques, como a manutenção do gabinete do ódio dentro do Palácio, que pode gerar o impedimento. Ou a coluna do meio: vai partir para uma ruptura institucional, porque pela via democrática não vai aguentar, não tem como, é insustentável.

Não consigo enxergar uma quarta via e isso me preocupa. Qual é a proposta: botar o Brasil numa guerra civil? Derramamento de sangue?

Como vê a postura do presidente Bolsonaro diante de falas radicais como essa?

Me parece que o presidente está fazendo justamente o contrário do que prometeu durante toda a campanha. Ele criticava o PT pelo fato de o partido ter rachado o país. O PT criou e alimentou o "nós contra eles", coisa que não havia no Brasil, até então. Uma das promessas de campanha era exatamente unificar o Brasil. E o que a gente vê na prática? Justamente o estímulo a essa divisão , e de uma forma muito mais beligerante que o próprio PT fazia. Como é que faz? Um lado vai ter que exterminar o outro? Isso para mim se chama guerra civil.

De que forma essas declarações ameaçadoras afetam o governo?

Isso tudo me parece uma loucura. Parece que há dois governos. De um lado, o governo Paulo Guedes. De outro, o governo Jair Bolsonaro. O governo Paulo Guedes tenta construir algo de positivo para o país, superando as dificuldades que existem, como desemprego, etc... Só que para Guedes conseguir isso precisa de um ambiente minimamente tranquilo, harmônico. Só que o presidente Jair Bolsonaro puxa a corda para o lado oposto, criando sempre muita turbulência, conflitos gratuitos e mostrando até um certo nível de desequilíbrio emocional, se colocando sempre como vítima.

Não é com gritos, com xingamentos, com guerras que o Brasil vai se equilibrar. É muito preocupante esse quadro de crises sucessivas que a gente testemunha.

Com a fala do Eduardo, mais uma vez fica claro o mal que esses dois filhos, Eduardo e Carlos, fazem ao governo e ao pai. Eles vão ajudar a destruir por completo o governo Jair Bolsonaro. Ou o Jair toma uma postura firme e bota os dois em seus devidos lugares, ou ele vai mostrar que não tem capacidade de governar o país. Se não consegue governar nem os dois filhos...

O sr. circulou bastante nas altas cúpulas militares nos tempos da campanha eleitoral. Como acredita que os oficiais da ativa recebem essa declaração?

Acho que é mal recebida essa fala. Em todo o convívio que eu tive com a ala militar, todos, sem exceção, se mostraram muito patriotas, defensores da Constituição e da democracia. Tenho certeza que eles não compactuam com esse tipo de ideia. No entanto, o que eu também percebo é uma tentativa da família de manutenção da linha direta com níveis hierárquicos mais baixos. Isso é um ponto de interrogação. Da mesma forma, a preocupação que eles sempre tiveram de manter uma boa relação com as polícias militares dos estados. Realmente não sei o que eles têm em mente. Acho que um golpe não se sustenta, não se consolida. Mas a simples tentativa já seria suficiente para causar uma tragédia no Brasil.

Qual a solução para dar fim a essa série de ameaças?

Isso está indo numa escalada, tem que ter um basta. Na minha opinião, Eduardo deveria ser cassado. Se o Congresso não der resposta imediata nesse nível, a escalada vai continuar. Em benefício da democracia brasileira, é preciso que se dê um basta. Já que Jair não dá esse basta, o Congresso tem que dar. Diante dessa fala do Eduardo, que não é a primeira, o mandato dele tem que ser cassado, na minha opinião.

Chico Alves