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Chico Alves


"Terreiros são polos de consciência negra", diz babalorixá Adailton Moreira

Adailton Moreira, babalorixá do Rio de Janeiro - Divulgação
Adailton Moreira, babalorixá do Rio de Janeiro Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/11/2019 04h00

Não é apenas por questão de fé que as religiões de matriz africana devem ser valorizadas. Os terreiros guardam referências culturais essenciais para que a população negra reconheça sua identidade. É esse o pensamento de Adailton Moreira, babalorixá do respeitado terreiro de candomblé Ilê Omijuarô, localizado em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Mestre em Educação, ele é o sucessor da yalorixá Mãe Beata de Iemanjá. "É uma luta cotidiana para manter vivos elementos e identidade do povo negro que é bombardeado constantemente para negar sua ancestralidade africana", explica Moreira à coluna.

O discurso político segue a linha de Mãe Beata. O babalorixá é uma das principais vozes a cobrar providências do Estado contra os frequentes ataques a terreiros localizados em comunidades pobres do Rio. Muitos espaços religiosos foram incendiados e depredados. Adeptos foram agredidos e expulsos desses locais. "A violência contra os terreiros é uma extensão do que acontece à população negra em todos os níveis", acredita.

Moreira denuncia que alguns pastores de igrejas neopentecostais atuam dentro do sistema penitenciário não para ajudar, mas para converter presos. Quando libertados, voltam ao tráfico e continuam religiosos. "O que a gente vê são alguns pastores abençoando armas de traficantes", diz o babalorixá:

UOL - Qual a importância dos terreiros para a Consciência Negra?

Adailton Moreira - As religiões de matriz africanas são por si só um núcleo de resistência muito grande dessa consciência negra. Na verdade, as religiões são o que sobra desse sequestro dos povos do continente africano para cá. Aqui resistem alguns aspectos que se perderam ao longo da história e permanecem nas comunidades de terreiro, como a língua, a culinária, a dança, a própria organização política dos terreiros. O local de matriz africana não tem só a fé, tem pertencimento ancestral que cria uma identidade negra.

Religião é muito pouco para expressar o que sejam esses núcleos de resistência africana no Brasil. As comunidades de terreiro têm uma filosofia própria, uma organização política própria, muitas vezes confundidas com a religião. Esse olhar salvífico que as pessoas têm sobre as religiões de matriz africana, fazendo também um pouco de relação mercadológica com a fé, acho um problema muito sério.

O ponto principal não é a fé, mas o pertencimento. É uma luta cotidiana para poder manter vivos elementos e identidade do povo negro que é bombardeado constantemente para que negue a dignidade e a valorização de sua ancestralidade africana. O fato de sermos constantemente perseguidos por mais de três séculos, termos sido sequestrados, de sofrermos várias influências nefastas a nossa identidade, e conseguirmos estar aqui até hoje não foi só por causa da fé. É um núcleo de reexistência constante. Digo que não é só religião de matriz africana, é motriz também. Há uma força por trás disso tudo que nos faz estar vivos e que nos fez chegar aos tempos de hoje.

O que acha das críticas que classificam as religiões afro como selvagem por causa dos animais oferecidos em sacrifício?

É um modelo higienista e branco de pensar. O mercado tira culpas. Nossa carne é sacralizada, o animal tem um sentido comunitário para todos. Qual a diferença de uma carne de um ritual africano para uma carne que é vendida no mercado? O mercado que adoece, que vende carne para todos a um preço exorbitante, que tem a carne cheia de hormônios... Enquanto a nossa carne é coletiva, não tem preço, o animal é comprado por todos e todas, é uma relação de partilha que esse pensamento individual, de distanciamento entre pares... é como se no mercado a carne não fosse de um animal. Esse animal tem um sentido maior, tem uma vida por trás disso tudo. Aquele animal não é morto em vão. Não faz parte de uma cadeia mercadológica, do consumo pelo consumo, não faz parte de um fast food.

Como vê as constantes menções desrespeitosas à sua religião?

Vivemos em um momento político fascista e obscurantista no mundo inteiro. O Brasil não poderia estar à parte disso tudo,ainda mais com a política que nós temos hoje aqui. Se já não respeitam aos povos originários, imagine a cultura negra. Além do mais, o chamado Estado Democrático de Direto garante direito para quem? Foi criado por quem?

Os ataques de traficantes aos terreiros localizados em comunidades pobres continuam?

Os ataques continuam, o recado já foi dado. É a linha do terror. É para se calar, para ficar em casa, como se fosse o verdadeiro apartheid. Em paralelo, vamos fazendo nossas lutas, já que temos poucas ações efetivas de combate a isso. É quase como se fosse um favor e não um direito.

A violência contra os terreiros é uma extensão do que acontece à população negra em todos os níveis. O índice de pessoas negras assassinadas no Rio de Janeiro não provoca a mesma indignação do que seria se ocorresse com jovens da Zona Sul. Se for um ataque a uma igreja católica ou neopentecostal, as páginas de jornais ficarão cheias. Conosco não é assim. Há uma desumanização da população negra. Fala-se em violação de direitos de outros. Dos nossos, não. É como se dissessem: vocês não são nada.

O sr. disse que esses ataques são como um recado. Dado por quem?

Pela política brasileira, pelas instituições públicas. É um racismo estrutural que perpassa tudo. O gestor público da União não faz valer nossos direitos assegurados na Constituição. O recado é de que nós não merecemos ser vistos como sujeitos de direitos. Será que se isso acontecesse em uma igreja católica, em uma sinagoga ou em uma mesquita teríamos a mesma omissão?

O Estado nunca foi laico, sempre foi influenciado por outros interesses. O compadrio é herança histórica em nosso país. O Estado brasileiro deveria ser o primeiro a coibir esses atos de intolerância e tantos outros, mas a gente não vê nada disso acontecer.

Quais as consequências para os adeptos das religiões afro?

Isso vai influenciando gerações. Jovens talvez não queiram mais fazer parte do candomblé, terão vergonha. Serão vistos como pessoas sem direitos. No mercado de trabalho há várias denúncias de empresas que não contratam pessoas que não são evangélicas. Ou seja: quem não é evangélico, paga um preço.

A influência dos neopentecostais é crescente.

Continua o olhar cristão sobre o Estado brasileiro, só mudou de lado. É um projeto de domínio econômico cristão. Passa dos católicos para os neopentecostais. O projeto que começou na década de 80, "Brasil para Cristo", Foi denunciado naquela época. Uma iniciativa de poder neopentecostal, que hoje não tem mais vergonha de dizer que irá transformar esse país em cristão. Isso é rasgar a Constituição.

A história já nos mostrou em que isso vai dar: obscurantismo, fundamentalismo, gera violência. O que tem que ser assegurado é que cada um professe sua fé, mas o Estado não pode ser regido por religiosos. O governante tem que ter um olhar imparcial, tem que lutar pelo direito das pessoas independente de religião, gênero, classe...

Não há nenhuma reação por parte das autoridades?

O Ministério Público tem nos ajudado bastante, além de alguns parlamentares que têm criado ações efetivas. As prefeituras não tomam nenhum posicionamento além de criar um dia de combate à intolerância religiosa. O que é isso? Nada, se não tiver política pública efetiva e se as câmaras municipais não criarem lei sobre isso.

O que a gente faz é denunciar cada vez mais. Tem a questão dos "Traficantes de Jesus". Não é política do terreiro estar no sistema penitenciário arrebanhando, como fazem os neopentecostais. O que a gente vê são alguns pastores abençoando armas de traficantes. Quem do movimento evangélico repudia isso publicamente? Ninguém de peso desse movimento denuncia isso publicamente, os mais famosos têm redes de TV. Por qual motivo não denunciam isso?

Evangelizam dentro do presídio e quando o detento sai de lá e continua no tráfico, continua sendo de Jesus. Nas comunidades, quem for da religião de matriz africana é proibido de professar, se for dominada por esses grupos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves