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Chico Alves


Pelo rendimento educacional, Bolsonaro deveria homenagear Colégio Pedro II

Vitoriosos, alunos do Colégio Pedro II chegam ao Brasil depois de Olimpíada de Matemática na China - Tomaz Silva / Agência Brasil
Vitoriosos, alunos do Colégio Pedro II chegam ao Brasil depois de Olimpíada de Matemática na China Imagem: Tomaz Silva / Agência Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

04/01/2020 16h54

Quando o presidente Jair Bolsonaro se aproxima do cercadinho ao lado do Palácio da Alvorada que o separa da claque de apoiadores e dos jornalistas que cobrem o governo, é preciso se preparar. Ao abrir a boca, ele tanto pode anunciar uma medida importante, quanto ofender alguém (um profissional de imprensa, a primeira-dama de algum país...) ou fazer uma afirmação bombástica sem qualquer base real. Foi o que aconteceu ontem, quando Bolsonaro se referiu ao Colégio Pedro II, uma das mais tradicionais instituições de ensino do Brasil.

Ao versar sobre educação — um tema que, assim como a economia, ele não domina —, voltou a falar da influência dos governos de esquerda na área. "Chegou ao cúmulo de acabar com uma escola como o Colégio Pedro II, no Rio. Acabaram com o Pedro II. Menino de saia, MST lá dentro. E outras coisas mais que não quero falar aqui", marretou o presidente.

É preciso entender qual significado Bolsonaro dá ao verbo "acabar", mas a julgar pelos resultados educacionais do colégio, a instituição federal está longe do fim. No último Enem, teve médias superiores às de escolas públicas e privadas do Brasil em redação, ciências da natureza, humanas e matemática. Alcançou resultados semelhantes nos anos anteriores.

Em novembro, uma aluna do Pedro II foi a única mulher a conquistar medalha de ouro na Olimpíada Mundial de Matemática, na China. Nas olimpíadas nacionais, o colégio sempre se destaca.

Na função original de uma escola, portanto, o Pedro II não pode ser criticado. Deveria ser elogiado e ter seus professores e alunos homenageados.

Os leitores que não residem no Rio de Janeiro não são obrigados a saber da importância do colégio, então aí vai: é a terceira instituição de ensino mais antiga do país, foi criada na regência do Marquês de Olinda dentro do projeto civilizatório do Império e na década de 50 foi usado como padrão para a educação nacional. De lá para cá, deixou de ser referência para o país, mas continuou tendo alto padrão educacional.

Entre outras personalidades, foram alunos do Pedro II o escritor Álvares de Azevedo, o poeta Manuel Bandeira, os presidentes Floriano Peixoto. Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha, Rodrigues Alves e Washington Luís. Também passaram por suas salas de aula os juristas Joaquim Nabuco, Afonso Arinos de Melo Franco e Luiz Fux, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal.

As médias em várias matérias comprovam que a qualidade do ensino do colégio continua altíssima. O que incomoda pra valer o presidente Bolsonaro é a liberalidade de costumes e a forte conscientização política dos estudantes.

Abrir a porta do colégio tanto para o MST quanto para integrantes da direita (desde que não comprometidos com ideais antidemocráticos) é prática saudável para a formação do pensamento crítico dos jovens. Sobre a atualização de regras de vestir aos dias atuais, é assunto para alunos, professores e pais resolverem.

Obviamente, mesmo com resultados tão expressivos no campo do ensino, o Colégio Pedro II não está imune a críticas e tudo indica que a direção levará em consideração sugestões e reparos. O presidente poderia encaminhar suas ponderações da forma adequada, confiando no bom senso de diretores que demonstram cotidianamente seu valor ao conseguir manter tão alto desempenho educacional em uma escola pública.

Quando Bolsonaro faz crítica de uma forma que desqualifica o trabalho dos professores e o esforço dos alunos, comete uma grave injustiça. Apesar de repetir o tempo todo que não quer ser ideológico, acaba colocando sua ideologia acima do maior valor que move qualquer escola: a educação.

O Colégio Pedro II não acabou. Continua a ser orgulho para qualquer brasileiro que defenda educação de qualidade. Os concursos para ingresso na instituição são muito disputados e os resultados do Enem deixam claro por qual motivo isso acontece. Talvez não exista reconhecimento maior.

Chico Alves