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Chico Alves


Politicagem turva as águas do Rio de Janeiro

No Rio, água que sai das torneiras tem gosto e sabor estranhos, além de cor marrom em alguns bairros. - Istock
No Rio, água que sai das torneiras tem gosto e sabor estranhos, além de cor marrom em alguns bairros. Imagem: Istock
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

15/01/2020 10h04

Ao contrário do que diz a lenda eleitoral, nem sempre um técnico terá melhor desempenho que um político na direção de órgão público. Nesses postos, entender de números e gráficos não basta. É preciso saber dialogar com a sociedade, levar em conta as consequências de cada decisão para a vida da população.

Não se pode, porém, passar de oito para oitenta: é insanidade quando o político anula completamente o conhecimento técnico. Isso é, na verdade, politicagem. Foi o que parece ter acontecido na Cedae, empresa responsável pelo tratamento e distribuição de água no estado do Rio de Janeiro.

Como resultado de uma enorme barbeiragem administrativa, a maior parte dos moradores da região metropolitana vem recebendo há treze dias em suas torneiras água fétida, de gosto ruim e, em algumas áreas, de cor marrom. Rapidamente se espalharam os boatos sobre doenças causadas pela alteração e há uma corrida aos mercados em busca de garrafas de água mineral, disputadas a tapa antes de sumirem rapidamente das prateleiras.

Não bastassem os incontáveis dissabores que o morador do Rio experimenta em sua rotina (criminalidade em alta, sistema de saúde quebrado, um dos maiores índices de desemprego do país..), agora é obrigado a ver jorrar de suas bicas um líquido estranho que não parece próprio ao consumo, apesar de técnicos da empresa garantirem que está. Dos muitos problemas que a Cedae apresentou em seus 44 anos de existência, nenhum deles teve a ver com a qualidade da água. Como se chegou a esse resultado desastroso, afinal?

A resposta é simples: má política.

Logo no início de sua gestão, o governador Wilson Witzel (PSC) retribuiu a um dos principais apoiadores de campanha, o Pastor Everaldo, por ele ter ingressado no staff que o transformou de juiz desconhecido em chefe do Executivo de um dos mais importantes estados do país.

Presidente do PSC, derrotado na última eleição ao Senado, Everaldo é uma espécie de tutor político de Witzel. Participou dos governos de Garotinho, Benedita da Silva e Rosinha, era próximo de Eduardo Cunha, sabe tudo do ramo. Por conta disso, o governador foi bastante generoso na divisão dos cargos e concedeu a ele duas das áreas mais rentáveis da estrutura estadual: a Cedae e o Detran (Departamento de Trânsito).

Para presidir a empresa que distribui água à população fluminense, Everaldo indicou Helio Cabral, que foi membro do conselho diretor da malfadada Samarco, mineradora responsável pela barragem que se rompeu na cidade mineira de Mariana, matando 19 pessoas. Logo no início da gestão, Cabral demitiu 39 engenheiros que estavam na casa há décadas. Além disso, contam os funcionários que os testes de qualidade se tornaram raros nos últimos meses. Tudo feito sob medida para dar errado. E deu.

Segundo nota da Cedae, o problema no cheiro e sabor da água se deve uma substância orgânica produzida por algas, a geosmina. A empresa garante que não faz mal à saúde. Ouvidos pela coluna, técnicos que trabalharam na Cedae concordam que o produto das algas é inofensivo, mas estranham a água de cor marrom, algo que a geosmina não provoca.

Pelo sim, pelo não, o Ministério Público coletou na segunda-feira 13 amostras nas instalações da Cedae para análise de qualidade. Mais demorada que a reação do MP só o prazo para o resultado laboratorial: a população fluminense ficará mais 15 dias sem saber se a água de suas casas é ou não potável.

Os funcionários especulam se essa não seria uma estratégia para acelerar a privatização da empresa, prevista no Plano de Recuperação Fiscal ao qual o estado está submetido. Seja qual for o motivo, o certo é que não há solução prevista em curto prazo.

Enquanto isso, o governador Witzel curte férias nos Estados Unidos, onde a qualidade da água é excelente. Somente ontem, no 12º dia da crise, ele se dignou a aparecer no Twitter para dizer que são "inadmissíveis os transtornos que a população vem sofrendo por causa do problema na água fornecida pela Cedae". Prometeu "apuração rigorosa tanto da qualidade da água quanto dos processos de gestão da companhia".

Também ontem, foi exonerado mais um técnico experiente da empresa, o chefe da Estação de Tratamento de Água Guandu, que contava 30 anos de serviço. Em momentos assim, ninguém tem dúvida sobre o lado que a corda costuma arrebentar. Quanto ao presidente da empresa, Helio Cabral, e o responsável por sua indicação, Pastor Everaldo, os dois continuam tocando a vida normalmente. Sob a garantia do governador Wilson Witzel.

Chico Alves