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Chico Alves


Weintraub busca deputados e filhos de Bolsonaro para se manter de pé no MEC

Abraham Weintraub, ministro da Educação - Romero Cunha/Casa Civil
Abraham Weintraub, ministro da Educação Imagem: Romero Cunha/Casa Civil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/02/2020 04h02

Segundo funcionários do Ministério da Educação (MEC), o sorriso irônico que Abraham Weintraub exibia no início de sua gestão deu lugar a uma fisionomia tensa. O ministro, criticado em meio a falhas no Enem e no vazamento da lista do Sisu, tem passado boa parte do tempo na busca de apoio para continuar no cargo. A avalanche de reclamações e a pressão pela sua demissão fez cair por terra o estilo autoconfiante de outrora.

Enquanto Weintraub tenta neutralizar os ataques contra si, que partem inclusive de seus próprios colegas de governo, a gestão do ministério, que já era confusa, fica cada vez mais errática. Várias diretrizes que deveriam ter sido dadas em 2019 para este ano não foram traçadas e os estados e municípios vão voltar às aulas sem definições importantes em temas como repasses de verbas para matrícula e merenda, por exemplo.

Outro caso que ilustra a balbúrdia reinante no MEC é a desorientação da Secretaria de Ensino Superior, cujo responsável, Arnaldo Lima Junior, pediu demissão esta semana.

Duas iniciativas que Lima Junior identifica como as principais de sua gestão, o Future-se (plano que abre espaço para participação da iniciativa privada nas universidades federais) e a nova carteirinha estudantil, podem ficar sem efeito porque foram anunciadas antes da aprovação no Congresso.

Em busca de apoio

Weintraub tenta se garantir no cargo como pode. Apela à ala bolsonarista do PSL e outros partidos governistas. Na terça-feira, quando esteve em São José dos Campos (SP) para visitar obras do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, dedicou parte do tempo a uma reunião com deputados estaduais e pediu que eles expressassem apoio nas redes sociais.

Seu principal trunfo para tentar resistir são os filhos do presidente, em especial o deputado Eduardo Bolsonaro, graças a seu alinhamento às ideias de Olavo de Carvalho. Para defender o ministro, Eduardo chegou a dizer à revista Época que "o Enem foi um sucesso".

O mote da defesa é de que Weintraub estaria sendo vítima de uma trama delirante urdida pelos inimigos. "Gostaria de agradecer a todos vocês que estão me defendendo da campanha difamatória e mentirosa comandada por famílias oligarcas e por grupos de esquerda", tuitou o ministro, na quinta-feira.

"Quanto mais dançar na chuva, mais forte fica"

Outro ponto que dá sobrevida ao responsável pelo MEC é a reconhecida aversão de Jair Bolsonaro em demitir quem é criticado pela imprensa e pelos opositores.

Simplesmente por não querer admitir que deu o braço a torcer. "Quanto mais batem, mais o presidente resiste em demitir", diz o deputado Delegado Waldir (PSL-GO). "Quanto mais Weintraub dançar na chuva, mais forte ele fica". Uma prova disso foi a postagem feita na noite de ontem por Bolsonaro. No Twitter, o presidente desejou "boa noite a todos!", com uma foto ao lado do ministro da Educação.

Enquanto o ministro permanece, assuntos prioritários do MEC ficam sem definição. Weintraub não participou da discussão sobre Fundeb, travada durante todo o ano passado. O Congresso precisa aprovar as diretrizes para o fundo, que vai garantir recursos para a educação básica em 2021.

O ministro anunciou que não gostou do texto que está sendo costurado pela relatora do tema, deputada Professora Dorinha (DEM-TO), e vai enviar nova proposta a deputados e senadores, o que poderia fazer estourar o prazo e inviabilizar o fundo. "Como ele pode ser contra uma coisa que não existe? Eu nem apresentei o texto ainda", questiona a relatora. "Vamos votar sem contar com o.ministro, porque ele não se interessa pelo tema".

Weintraub com guarda-chuva em vídeo em que reclamou de uma suposta "chuva de fake news" - Reprodução/Twitter
Weintraub com guarda-chuva em vídeo em que reclamou de uma suposta "chuva de fake news"
Imagem: Reprodução/Twitter

Deputada diz que ministro tem prazer na agressão

Em seu terceiro mandato, sempre tendo a educação como prioridade, Professora Dorinha diz que Weintraub não tem concepção pedagógica e levou para o ministério uma equipe que não é do ramo. "Falta ao ministro conhecimento da educação no Brasil. Ele não conhece e não faz questão de conhecer", diz a deputada. "Além disso, parece que tem prazer em estabelecer relações a partir de um patamar de agressão".

Secretários estaduais e municipais reclamam da falta de acesso ao ministro para tratar de problemas urgentes, não há interlocução com entidades da sociedade civil e funcionários de carreira do MEC estão perplexos com tanta desorganização administrativa. Enquanto isso, boa parte da energia de Weintraub está sendo gasta para manter-se no cargo.

Malvisto no entorno de Bolsonaro

Diante de tantos desencontros, integrantes da própria equipe de Bolsonaro tentam convencer o presidente de que não é sensato manter Weintraub. Esse rumor, que já era grande no ano passado, diante das polêmicas e grosserias levantadas pelo ministro nas redes sociais e fora delas, virou clamor depois do fiasco do Enem e do Sisu.

Os generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos estão no time dos governistas que acham que já é hora de o ministro deixar a pasta.

Fora do governo, como se sabe, a desaprovação vai do Movimento Brasil Livre (MBL) ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que classificou o atual responsável pelo MEC como "desastre".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves