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Ex-ministro da Saúde: Brasil está preparado para vigilância do coronavírus

Ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão - Divulgação / STF
Ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão Imagem: Divulgação / STF
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

03/02/2020 18h56

À frente do Ministério da Saúde, em 2009, José Gomes Temporão enfrentou a ameaça do H1N1, causador da chamada gripe suína, que então se espalhava pelo mundo. A mutação do vírus que circulava entre animais e passou a contaminar humanos lembra a origem do coronavírus, que hoje deixa o planeta em alerta.

Na época, o Brasil vacinou 100 milhões de pessoas e afastou consequências mais graves. Não há vacina contra o coronavírus, mas Temporão confia no sistema de vigilância epidemiológica brasileiro. "Posso garantir que é de altíssima qualidade", diz o ex-ministro, que atualmente é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz.

A preocupação será maior caso o vírus entre no país, já que aí tudo dependeria do sistema hospitalar, que é heterogêneo nas diferentes regiões do país.

Nessa entrevista à coluna, ele diz que a prioridade agora é disseminar informação correta sobre a doença, para evitar as fake news que fazem explodir o pânico. E usa o episódio para convidar a uma reflexão sobre o papel da ciência no Brasil e sobre a importância de um sistema universal de saúde que possa proteger a todos.

"A quantidade de recursos que está indo para o Sistema Único de Saúde tem sido reduzida, em termos reais", lamenta ele, em crítica à emenda que instituiu teto de gastos sociais por 20 anos.

UOL - O sr. acredita que o procedimento do governo tem sido adequado para evitar maiores problemas quanto ao coronavírus?

José Gomes Temporão - Nesse momento em que o vírus ainda não circula no Brasil, já que não há nenhum caso confirmado, o mais importante é a estrutura de vigilância epidemiológica do Sistema Único de Saúde. E posso garantir que é de altíssima qualidade. Basta a gente pensar no que aconteceu em 2016, no caso do vírus da zika, que na verdade quem detectou foi o Brasil. Somos inclusive uma liderança internacional em termos de artigos publicados, análises, estudos, também de trabalhos conjuntos com laboratórios e universidades estrangeiras.

Então, o sistema de vigilância epidemiológica brasileiro é de alta qualidade. Isso é fundamental, porque precisamos justamente detectar rapidamente, caso uma pessoa que venha da China ou de outro país, para que seja imediatamente isolada para que a gente faça um esforço de impedir que o vírus se dissemine por aqui.

Na hipótese de o vírus entrar no país, estamos preparados?

Essa é uma outra questão, considerando que tem uma grande capacidade de se propagar. É importante chamar a atenção para isso: o vírus tem uma capacidade de propagação grande, mas a taxa de letalidade, o número de mortes por cada cem pessoas que adoecem, está em torno de duas. Ou seja, até o momento, a cada cem pessoas que adoecem, duas morrem. O que não é tão alto quanto outras doenças do mesmo tipo, que foi o caso da SARS, em 2013. Mas mata muito mais que a gripe comum, cuja taxa de letalidade é de 0.1 por cada cem.

Caso o vírus entre e caso comece a circular, teremos o fato de que a população brasileira nunca teve contato com esse vírus, nenhum de nós tem anticorpos, então ele pode se disseminar rapidamente. Aí, nós vamos ter que contar com a infraestrutura de serviços de saúde. Essas pessoas vão ter que ser internadas, vão ter que ser cuidadas, até o momento não existe nenhum medicamento para tratar a doença.

Uma vacina, na melhor das hipóteses, é coisa para daqui um ano, no mínimo. Seria muito otimista dizer que teremos uma vacina nesse prazo, porque uma vacina para ser desenvolvida, testada em animais e depois testada em humanos, para que se comprove que é segura, leva com certeza mais de um ano. Então, no curto prazo não teremos uma vacina.

Muito diferente do que aconteceu em 2009, quando eu era ministro, com o H1N1. Era situação parecida, o vírus que circulava entre suínos fez uma mutação no México e acabou sendo transmitido de pessoa para pessoa. Mas era da família influenza, e o Brasil tem inclusive uma fábrica de vacinas contra essa gripe, no Instituto Butantã. O Brasil foi o único país do mundo que vacinou metade da sua população. Em 2010, nós vacinamos 100 milhões de brasileiros. Era outra história.

Nesse momento, com o coronavírus, não teremos uma vacina antes de um ano Isso muda muito. Porque, primeiro, nós estamos vivendo uma situação de crise sanitária em vários estados brasileiros, o Rio de Janeiro é o exemplo mais negativo disso. Nós passamos a ter corte de recursos financeiros para o Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da aprovação da emenda 95, que congelou os gastos sociais por 20 anos. Quando analisamos, de 2016 para cá, a quantidade de recursos que está indo para o SUS tem sido reduzida, em termos reais.

Eu faria um convite à reflexão que a sociedade brasileira tem que fazer: esse episódio que está deixando todo mundo ansioso, com medo, mostra como é importante ter um sistema universal de saúde, que de fato possa proteger a sociedade brasileira. Mas nós não estamos vendo nesse governo uma postura de fortalecimento, de priorização desse sistema.

E, de outro lado, esse episódio chama atenção também para a importância da ciência. Mas, ora, esse é um governo que despreza a ciência, que está cortando drasticamente os recursos para a pesquisa, que está levando a que centenas de pesquisadores jovens deixem o Brasil. Estamos vivendo exatamente essa contradição.

Qual deve ser a prioridade do governo neste momento?

Uma das missões do governo mais importante nesse momento, nos dias que virão, é a questão da transparência, da informação e de tentar fazer frente à indústria de notícias falsas, que está ganhando de goleada. Um amigo acaba de me relatar que viu muitas pessoas no aeroporto de Brasília usando máscaras. Isso é um sinal de que as fake news estão ganhando. Nós estamos vivendo hoje um momento em que as redes sociais têm um papel importantíssimo.

Estou acompanhando o trabalho do ministério, que até agora está tendo um procedimento correto, dentro do protocolo internacional. Mas essa é uma tarefa que transcende o papel do governo. As mídias, os meios de comunicação, têm um papel extremamente importante de impedir que notícias falsas sobre curas milagrosas e sobre riscos desnecessários se propaguem e deixem a população numa situação de insegurança, de medo, que se coloque acima da racionalidade.

É um momento difícil, complicado, mas o vírus não está circulando no Brasil. Ponto. É com essas duas dimensões que nós temos que avaliar o papel do governo: de um lado, o sistema de vigilância epidemiológica, e aí eu sou otimista, acho que o Brasil está muito bem preparado.

Em segundo, digamos que o vírus entre e passe a circular. Aí é o sistema de saúde, é a rede hospitalar, são leitos de UTI. Porque essa doença, para a maior parte das pessoas que entra em contato com o vírus, não acontece nada. Muitas sequer terão sintomas. Mas um percentual menor poderá ter um quadro respiratório grave, que irá exigir internação, CTI, respirador? Essa estrutura no Brasil é muito heterogênea, há estados que têm uma boa infraestrutura como São Paulo, como Minas, como o Rio, apesar de atualmente prejudicada. Mas há outros estados das regiões Amazônica, Centro-Oeste, Nordeste, com menos infraestrutura.

E quanto aos cidadãos brasileiros que estão em Wuhan? Havia motivo para tanta hesitação do governo brasileiro em buscá-los?

É um absurdo. Imagina só um país abandonar os seus cidadãos numa situação como essa. É descabido. Ó caso dessas pessoas é muito simples: basta que sejam trazidas para cá, obedecendo aos protocolos e as normas internacionais da OMS de proteção às pessoas que vão lá buscá-las, dos pilotos, por exemplo. Depois, vão ter que ser levadas para algum local que o governo brasileiro vai definir e deverão ser submetidas a um período de quarentena em que serão analisadas, monitoradas. Não há nenhum risco em trazer essas pessoas para cá. Zero. Basta seguir os protocolos da OMS. Vários países estão fazendo isso, Estados Unidos, França, Portugal? Acho que o Brasil está trazendo tarde essas pessoas, mas enfim, finalmente decidiu trazer, o que é uma iniciativa importante.

Então é mais delicado fazer o monitoramento nos aeroportos que monitorar essas pessoas em quarentena?

Exatamente. Nós ainda não temos casos de transmissão. Nos EUA houve um caso de transmissão interna. Então, é preciso observar que o vírus circula dentro da China. Nesse momento em que estamos falando, não há circulação fora de lá. Pouco provável que alguém que venha de outro país que não seja a China possa ser portador do coronavírus. Esse sistema nos principais aeroportos, existe no Brasil inteiro. A Anvisa, que é responsável por aeroportos e fronteiras, está preparada, organizada, mobilizada e orientada sobre como lidar nessas situações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.