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Chico Alves


A enorme distância entre Mandetta e Paulo Guedes

Ministros Luiz Henrique Mandetta e Paulo Guedes - EBC
Ministros Luiz Henrique Mandetta e Paulo Guedes Imagem: EBC
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/03/2020 15h45

O cartão de visitas não foi dos melhores. Assim que surgiu o nome de Luiz Henrique Mandetta para o Ministério da Saúde, ainda em 2018, veio junto a informação de que ele respondia a inquérito policial. As acusações são de fraude em licitação, caixa dois e tráfico de influência quando era secretário de Saúde de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Sem dúvida, uma referência preocupante para alguém responsável por dirigir uma pasta com orçamento que atualmente está na casa dos R$ 292 bilhões.

Com o passar do tempo, porém, Mandetta mostrou que entende do riscado. Nada de excepcional, mas passou o ano de 2019 fazendo o que se espera de um ministro: trabalhando em conjunto com estados e municípios. Levando-se em conta o estilo irresponsável de vários de seus colegas de governo, isso pode ser considerado um avanço.

Com a explosão da pandemia de coronavírus, Mandetta foi jogado no olho do furacão. A dúvida era natural: como se comportaria um ministro que é do mesmo time da histriônica Damares, do incompetente Weintraub e do folclórico Ernesto Araújo?

O ministro da Saúde surpreendeu e, até aqui, tem se saído muito bem. Primeiro pelas ações, orientadas pela excelente equipe de sua pasta, e depois pela serenidade que transmite à população, sem deixar de lado o sentido de urgência.

Ontem, ao anunciar que pediria ao Congresso R$ 5 bilhões para combater o coronavírus, tornou claro que repassaria o dinheiro a prefeitos e governadores mesmo que os parlamentares negassem. Cogitou adiantar verbas que estão direcionadas para o fim do ano. Nem precisou, o Congresso já adiantou o aval.

Não se sabe se nessa nova fase da pandemia no Brasil o ministro continuará merecedor de tão bom conceito, mas até aqui mostrou uma característica importante para qualquer homem público, a genuína preocupação com a integridade dos brasileiros, em especial os mais pobres.

A crise epidemiológica teve, como se sabe, duas pontas. Os efeitos estão sendo enormes para a economia. Por isso, é inevitável a comparação do trabalho de Mandetta com o de seu colega Paulo Guedes.

Como diriam os antigos, aí é que a porca torce o rabo.

Com sua cara permanentemente amarrada, Guedes parece sempre mais fiel ao receituário de Chicago do que preocupado com os prejuízos que a crise pode causar aos brasileiros.

Foi esse o grande ponto de desencontro na reunião entre o ministro e as lideranças do Congresso, na noite de quarta-feira. Enquanto os políticos pediam medidas com efeito de curto prazo, o czar da Economia repetia o mantra das reformas e ainda por cima cobrava dos deputados e senadores a aprovação de um pacotão com resultado de prazo indefinido.

Nunca é demais lembrar que as tais reformas cobradas por Guedes sequer foram enviadas por ele ao Legislativo. Parece papo de maluco.

Não à toa, em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, reclamou que o ministro apresentou "quase nada" para combater a crise.

Depois do quebra-pau com os políticos, o ministro finalmente veio hoje a público para dizer que em 48 horas anunciará medidas contra os efeitos da pandemia, talvez a liberação de dinheiro do FGTS, além de outras iniciativas.

Ao mesmo tempo que dava essa notícia, porém, Guedes voltava à sua tara. "Quero atender ao pedido do presidente Rodrigo Maia, mas precisamos transformar a crise em reformas", repetiu, com seu tom de antipatia habitual. Ainda acrescentou um item ao seu rol de desejos: quer a privatização da Eletrobras.

Por esse episódio se constata que trabalhar em conjunto não é o forte do chefão da Economia. Encasquetou com uma receita desde que assumiu e, mesmo depois da crise do coronavirus, não mudou um milímetro. Quer que o Legislativo faça o que ele manda, ponto final.

Não percebeu que, em meio a um furacão de proporções gigantescas, trabalhadores e empresários esperam ansiosamente que o Ministério da Economia sinalize com notícias mais animadoras. Para ontem.

Felizmente, o ministro Mandetta é a antítese de Guedes. Até aqui tem liderado de forma segura os especialistas e se entendido bem com estados e municípios. Talvez por isso esteja por enquanto recebendo avaliação bastante positiva quanto a seu trabalho.

Tão positiva que pouca gente lembra do inquérito aberto para investigar a fraude sem licitação, citada no início desse texto. Afinal de contas, até o fim do trabalho da polícia e da Justiça, ele é inocente.

Se é verdade que as crises podem se transformar em aprendizado, os ministros da Saúde e da Economia servem aos gestores públicos como exemplos de como se faz e como não se faz para trabalhar em equipe. Guedes, claro, é o exemplo negativo.

Chico Alves